Crítica | Love – 1ª Temporada

Love

estrelas 4,5

Desde o início do novo milênio, a figura do nerd, do tímido e do socialmente desajustado ganhou uma reinvenção radical. Ainda que a década de 80 e 90 já trouxesse pequenos vislumbres dessa transformação na cultura pop, agora parece o momento em que o estereótipo fica cada vez mais longe do estereótipo, e a ala nerd do colégio vai ganhando cada vez mais voz. Apadrinhada pelo genial Judd Apatow, Love é a nova investida do Netflix em relacionamentos modernos, e certamente merece atenção.

Na mais básica das premissas, a história parte de um obrigatório boy meets girl. No caso, Gus (Paul Rust) e Mickey (Gillian Jacobs), dois moradores de Los Angeles que acabam de terminar seus relacionamentos de formas distintas; a namorada de Gus o traiu, e o de Mickey é um viciado em cocaína absolutamente instável. Na boa tradição, Gus e Mickey também têm suas diferenças marcantes, sendo ele um sujeito mais organizado e tranquilo e ela uma mulher mais… Bem, uma versão mais estável da Amy Schumer de Descompensada.

Clichês, sim, mas é justamente por apoiar-se no lugar comum que Love é capaz de atingir novo território, de maneira similar com o feito realizado pelos filmes de Apatow: virgindade, gravidez e crise de meia idade são todos temas básicos, mas cuja abordagem garante um frescor de originalidade. É só no minuto final do primeiro episódio que Gus e Mickey enfim se encontram, e os 39 minutos anteriores passam um bom tempo nos situando em suas criativas vidas. Pra começar, Gus é um professor de astros mirins no set, responsável por garantir que seus alunos não sejam prejudicados pela experiência de atuação, e que no momento tem como aluna a jovem Arya (Iris Apatow), que estrela “Wichita”, um seriado bizarro que mistura A Feiticeira com Desperate Housewives. Mas, claro, Gus anseia por tornar-se um roteirista profissional, e o emprego de professor é um mero pretexto (sendo reveladora a pequena cena em que demonstra dificuldades para resolver um exercício de matemática) e possível porta de entrada no show business.

Já Mickey trabalha na produção de um programa de rádio, o Dr. Greg (também o nome do personagem, vivido por Brett Gelman), e ainda que seja uma profissão que tenhamos visto mais vezes do que um professor de astros mirins, Apatow, Rust e Arfin cuidam bem da personagem, já que o charme de seu arco encontra-se em sua personalidade ácida e a relação com aqueles a seu lado. Por exemplo, em uma sequência de passagem do tempo, entre faxinas e redecorações de sua sala de estar, vemos Mickey se masturbando com um vibrador em uma cena completamente natural, uma decisão que não vemos diariamente em outras séries. A persona da mulher instável e porra louca é também um dos clichês que vai ficando cada vez mais repetitivos, mas a performance de Jacobs é esperta por abraçar esse lado selvagem ao mesmo tempo em que garante muitos momentos emotivos e até dramáticos para Mickey, como o fato de sempre sentir-se atraída por voltar com seu ex-namorado ou o medo de ferir Gus.

Então, sobre Gus e Mickey. O primeiro diálogo dos dois enquanto caminham por uma rua é uma das realizações mais genuínas e realistas do que é a tentativa de relacionar-se com alguém no século XXI, já que os dois passam boa parte do percurso em silêncio e com apenas algumas pequenas observações e piadinhas tímidas, mas ainda assim conseguimos sentir a paixão entre os dois, mas que são pessoas difíceis e problemáticas para fazê-la incendiar. É a antítese da trilogia Antes do Amanhecer, mas com o mesmo resultado. É só na metade dos 10 episódios que enfim temos o envolvimento romântico do casal, e a química incomum de Rust e Jacobs torna muito divertido de se acompanhar o desenrolar de sua jornada, que opta por soluções que evitam o maniqueísmo e até mesmo o rápido apego dos dois; há até mesmo um encontro de Gus com uma amiga de Mickey (Brittie, vivida pela divertida Claudia O’Doherty) antes do arco se fortalecer.

Os roteiristas se beneficiam de uma criatividade fértil para gerar situações verdadeiramente originais. Sempre teremos uma cena de festa, claro, mas o sujeito que clama para que estranhos lhe façam tatuagens aleatórias já muda o cenário. Gus e seus amigos tem o divertido hábito de compor canções tema para filmes que não possuem uma, rendendo hilários acústicos com Mar em FúriaO Pagamento Final. Há mesmo um episódio que se destaca quase como um curta metragem isolado dentro da série, quando Mickey embarca em uma bizarra jornada alucinógena com o amigo Andy pelo metrô de Los Angeles. Mas o ápice ocorre no episódio 7, quando o primeiro encontro de Gus e Mickey envolve uma visita a um inusitado castelo de mágica, rendendo excelentes piadas e personagens excêntricos.

Todas as cenas que envolvem Gus e sua jornada na produção de Wichita também são inspiradas, quase como se Apatow resgatassee o caráter autobiográfico de seu excelente Tá Rindo do Quê? e o início de sua carreira como roteirista. Novamente, é interessante como Gus foge completamente do arquétipo do macho alfa. É frágil, desengonçado e não muito seguro de si, tornando-o um contraponto ideal para Mickey, ainda mais quando esta começa lentamente a desconstruir a imagem construída no início da série, culminando em um clímax preciso por inverter por total os papéis da típica comédia romântica.

Um perfeito companheiro espiritual e temático para Master of NoneLove é mais um exemplo da complexidade dos relacionamentos na era da informática, e como um senso de humor introspectivo continua a dar voz e transformar a figura do geek na cultura pop. É um alento a notícia de que a segunda temporada já está confirmada.

Love – 1ª Temporada (EUA, 19 de fevereiro de 2016)

Showrunners: Judd Apatow, Paul Rust, Lesley Arfin
Diretores: Dean Holland, John Slattery, Maggie Carey, Steve Buscemi, Michael Showalter, Joe Swanberg
Roteiro: Judd Apatow, Paul Rust, Lesley Arfin, Alexandra  Rushfield, Dave King, Brent Forrester, Ali Waller
Elenco: Gillian Jacobs, Paul Rust, Claudia O’Doherty, Brett Gelman, Dave Allen, Steve Bannos, Tracie Thoms, Iris Apatow, David King, Chantal Claret, Chris Witaske, Briga Heelan.
Duração: 30 a 40 min cada episódio (10 episódios no total)

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.