Crítica | Love – 2ª Temporada

estrelas 3,5

Obs: Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

A simpática primeira temporada de Love, série criada por Judd Apatow, Paul Rust e Lesley Arfin para o Netflix, nos deixou com um cliffhanger daqueles desalentadores, de quebrar o coração. E, sem deixar a peteca cair, a segunda temporada – com dois episódios a mais – começa exatamente do ponto onde a anterior parou, levando o relacionamento de Gus (o próprio Rust) e Mickey (Gillian Jacobs, veterana de Community) para um hesitante “outro nível”.

Digo hesitante, pois, apesar de Gus sempre parecer investido em seu relacionamento, quase que de forma inocente, Mickey tem enormes reticências -medo, na verdade – de levar a coisa adiante. Ela começa dizendo que precisar dar um tempo de um ano longe de relacionamentos, mas capitula, vagarosamente entendendo que seu vício em “amor e sexo” não pode ser controlado com total abstinência como seu vício por álcool. E, aos poucos, ao longo da primeira metade da temporada, testemunhamos o estreitamento da relação dos dois, cada vez mais próximos, cada vez mais dependentes um do outro, cada vez mais enamorados.

Mas a grande qualidade de Love é justamente tentar retratar relacionamentos nos dias atuais com uma pegada realista, sem firulas, sem invencionices. Diria, até, que a série não é uma comédia romântica, mas sim um drama com alguns (poucos) elementos de comédia. E por isso ela é realmente interessante, já que, no lugar de brincar com os acontecimentos, ela realmente os estuda, com roteiros que não se furtam em lidar de forma leve, mas certeira, o dia-a-dia de um casal que reluta em realmente entregar-se um ao outro. Na medida em que o namoro dos dois ganha contornos mais sérios, também começamos a notar as fricções inerentes a qualquer relacionamento, aqui agravados pelos problemas de Mickey e pela insegurança de Gus. É particularmente interessante como a incapacidade de Gus de lidar naturalmente com os vícios de Mickey acaba gerando tensão e grandes conflitos no casal, algo muito bem abordado no episódio em que o pai de Mickey vem “visitá-la” e notamos de onde vem grande parte de seus problemas e, depois, quando, por questões profissionais, Gus tem que ausentar-se por 24 dias, testando o relacionamento a distância em um excelente e crítico episódio.

O aspecto profissional também é abordado de forma inteligente e natural. Vemos o gradativo crescimento dos dois e o que isso custa para eles. Até mesmo o papel da mulher na sociedade é brilhantemente abordado nos roteiros, sem visões maniqueístas ou ditatoriais de como se deve agir diante de desejos singelos como o de ser “apenas” (as aspas aqui são importantes!) dona de casa e mãe. É como ter uma conversa real, com pessoas inteligentes – ainda que problemáticas -, sobre situações perfeitamente possíveis de fazer parte do cotidiano de muitos espectadores da série. Em outras palavras, é fácil criar sintonia com o trabalho de Apatow e equipe, algo que, de fato, marca sua carreira como um todo.

Rust e Jacobs continuam muito bem em seus respectivos papeis, com atuações naturalistas, críveis e que geram empatia mesmo quando discordamos de alguma postura ou decisão dos personagens. Mesmo a australiana Claudia O’Doherty, como Bertie Bauer, a colega de apartamento de Mickey, com quem, confesso, não havia simpatizado na primeira temporada, está bem aqui, com uma papel um pouco mais expandido, mostrando também suas deficiências e dificuldades com relacionamentos.

O que realmente acaba detraindo da experiência é a insistência em episódios mais longos do que deveriam ser e que, por isso, muitas vezes repetem situações ou demoram a resolvê-las para que seja possível alcançar a duração estabelecida. Pela mesma razão, foi um equívoco aumentar a temporada para 12 episódios, contra os 10 da anterior, já que isso acaba por contribuir com “barrigas” narrativas que tomam tempo demais da história, como, por exemplo, toda a normalização – por assim dizer – do relacionamento entre Gus e Mickey. Praticamente metade da temporada é focada nesse aspecto, levando a uma introdução tardia dos problemas entre eles, notadamente a incapacidade de Gus de levar com naturalidade e sem cobranças as reuniões de Mickey. Existe um claro descompasso entre o começo da temporada até sua metade e o que vem em seguida à viagem de Gus, quando, então, uma espécie de correria começa com a entrada efetiva do ex-namorado de Mickey, o sacrifício profissional de Gus e o início de sua iluminação sobre seu problema em lidar com os problemas de Mickey e assim por diante.

Mas os roteiristas mantém o frescor da história e a simpatia do casal não cansa de verdade. Também não sei quanto tempo mais a rotina do casal protagonista pode funcionar sem que aí sim situações mais esdrúxulas tenham que ser inseridas (como a de certa forma desconcertante e pastelona sequência no Farmer’s Market mais para o final), potencialmente contribuindo com a quebra do realismo alcançado até agora.

O que fica claro é que o amor é complicado e não vem sem um preço. Só que ele vale a pena de toda forma.

Love – 2ª Temporada (EUA, 10 de março de 2017)
Showrunners: Judd Apatow, Paul Rust, Lesley Arfin
Diretores: Dean Holland, Maggie Carey, Lynn Shelton, John Slattery, Brent Forrester, Joe Swanberg
Roteiro: Judd Apatow, Paul Rust, Lesley Arfin, Alexandra  Rushfield, Brent Forrester, Dave King, Mason Flink, Rebecca Addelman, Ali Waller
Elenco: Gillian Jacobs, Paul Rust, Claudia O’Doherty, Brett Gelman, Dave Allen, Steve Bannos, Tracie Thoms, Iris Apatow, David King, Chantal Claret, Chris Witaske, Briga Heelan
Duração: 30 a 40 min cada episódio (12 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.