Crítica | Love & Mercy

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estrelas 4,5

“I can’t write about the summer and fun and summer and summer and fun and cars. I got different stuff inside me I gotta get it out.”

É uma dessas frases memoráveis que Brian Wilson, na pele de Paul Dano, solta e resume muita coisa sobre o compositor (Algo como “Eu não posso escrever sobre verão e diversão e verão e verão e diversão e carros. Eu tenho coisas dentro de mim que preciso liberar“). É com interpretações marcantes, roteiro fluido e narrativa instigante que Love & Mercy, adaptação ao cinema da vida de Brian Wilson, um dos maiores gênios da música e líder dos The Beach Boys, parece entrar pra lista de melhores adaptações biográficas ao cinema sobre músicos. O longa serve pra mostrar pra muita gente a história pouco conhecida sobre a vida problemática do artista que, por trás de discos clássicos como Pet Sounds, sofria de depressão, alucinações e esquizofrenia.

A narrativa do longa dirigido por Bill Pohlad (produtor de 12 Anos de Escravidão e A Árvore da Vida) reveza entre passado e futuro; entre Paul Dano interpretando o artista em sua juventude junto aos The Beach Boys, e John Cusack fazendo um Brian mais velho e com seus problemas neurológicos mais avançados. Na parte do “futuro” vemos também Melissa (Elizabeth Banks), uma vendedora de automóveis que conhece Brian e com ele passa a se relacionar. Ah, claro, também não poderia faltar Engine Landy (Paul Giamatti), o grande vilão da história, o psicólogo, produtor e responsável pela guarda de Brian e por explorar o compositor ao máximo, o afastando da família e exagerando em seus medicamentos.

Para os fãs de música fica difícil não se sentir extremamente admirado pelo filme, cheio de sequências musicais excelentes (destaque para a de Good Vibrations) e contando todo o processo criativo de Wilson pra criar marcos como Pet Sounds e SMiLE. É com lentes retrôs que vez ou outra o diretor nos deixa imersos na atmosfera da década de 60, sempre ao som dos The Beach Boys. Love & Mercy é sobre o processo criativo de um artista, suas perfeições e ambições. É sobre o velho questionamento entre fazer uma música apenas pra vender, ou pra realmente exaltá-la como arte. “Vocês já ouviram o novo álbum dos The Beatles? Não podemos deixar eles passarem na nossa frente!“, Brian afirma. Assim ele vai atrás de fazer “o melhor álbum de todos os tempos”, como ele mesmo diz, e o que encontra são barreiras na gravadora, discussões com membros da própria banda e problemas de relacionamento com seu severo pai. Cada fator adicionado pelo ótimo roteiro de Oren Moverman, assim como o sábio uso de alternância entre tempos diferentes da história, vai nos mostrando como Brian foi deixando seus problemas neurológicos cada vez piores até se tornar o que vemos no papel de John Cusack.

Um espetáculo à parte, as interpretações unidas às sequências cheias de diálogos interessantes são grandes acertos aqui. Paul Dano nos entrega uma interpretação memorável. Extremamente semelhante ao jovem Wilson, ele nos convence disso não só visualmente com sua ótima atuação a beira da loucura, mas vocalmente também, em suas excelentes cenas musicais. Já Cusack, se por um lado poderia ser extremamente criticado por suas pouquíssima semelhança com Wilson, corre atrás do prejuízo pra nos entregar uma de suas melhores atuações, nos mostrando um Brian emocionalmente abalado e neurótico, um adulto com alma de criança. Este também é responsável por nos entregar os momentos de emocional mais forte, onde a carga de tristeza soa irônica comparada às canções de início de carreira de sua banda. Ainda temos Elizabeth Banks fazendo, com extremo carisma, a futura esposa de Brian. Aqui ela é quase o telespectador, tendo papel importante para o roteiro fluir, conhecendo quem é aquele homem cheio de problemas. Além disso, é a responsável por dar uma carga romântica ao filme nos mesmos moldes de Johnny e June, longa sobre a história de Johnny Cash. E, claro, temos Paul Giamatti, que entrega um de seus típicos personagens vilanescos, mas o suficiente pra encher o público de desconforto e raiva.

Love & Mercy se mostra uma das obrigações de filme pra qualquer amante de música. Interpretações marcantes, roteiro cativante e fantásticas sequências musicais. Uma jornada pertubadora e comovente pela mente de uma das maiores figuras da música pop.

Love & Mercy (EUA – 2015)
Direção: Bill Pohlad
Roteiro: Oren Moverman
Elenco: Paul Dano, John Cusack, Elizabeth Banks, Paul Giamatti, Jake Abel, Joanna Going, Kenny Wormald, Graham Rogers, Brett Davern, Erin Darke, Nick Ghelfuss, Diana Maria Riva, Mark Linett, Johnny Sneed, Gary Griffin, Teresa Cowles, Vince Meghrouni, Jeff Meacham, Max Shneider, Erik Eidem, Dylan Kenin, Fred Cross, Tyson Ritter, Carolyn Stotesbery, Jeff Galfer, Morgan Phillips.
Duração: 121 minutos

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.