Crítica | Loving (2016)

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estrelas 3,5

Jeff Nichols é um ótimo diretor. Bastante interessado em representar relações humanas e suas mais variáveis vertentes ou trabalhar com características particulares de alguém isolado, pressionado ou desesperado, o diretor consegue imprimir coisas novas em seus dramas e jamais deixa de lado a jornada de um personagem. Para o diretor, escalar alguém que percorrerá o filme procurando alguma coisa, tentando lidar com rejeição, insatisfação ou frustrações se tornou um hábito e tem sido ótimo ver como ele faz isso de maneira surpreendentemente “nova” a cada filme, de Separados Pelo Sangue (2007) a Loving (2016).

O filme acompanha a luta de Richard e Mildred Loving, que se casaram em 1958, em Washington D.C. (onde não havia barreira para o casamento inter-racial), e passaram quase dez anos de sua vida lutando ou fugindo do Ato de Integridade Racial do Estado da Virgínia, onde moravam. O filme aborda os primeiros momentos da oficialização do casamento até o resultado final da luta historicamente conhecida.

A etíope Ruth Negga e australiano Joel Edgerton dão vida ao casal protagonista e encaram bem o desafio, entregando ótimas interpretações. Peço que vocês assistiam à reportagem da ABC disponibilizada no final do texto, que noticia o caso logo após a sua conclusão, em 1967 e comparem o quanto a dupla trabalhou bem na representação do casal. A entonação, a timidez, a forma de olhar para a câmera e a maneira de se portar são coisas que facilmente conseguimos notar nos atores e o quanto esses gestos se parecem com os das pessoas que personificam. Aliás, vale aqui o reconhecimento para o casting, maquiagem, cabelo e figurinos do filme, que não só respeitaram a época como fizeram adições muito boas na obra.

A sábia exploração do silêncio permitiu ao roteiro de Nichols formar rapidamente a imagem dos protagonistas e do cenário em torno deles. Notamos que todas as manifestações pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, durante a década de 1960, passam razoavelmente despercebidas no campo, como se fosse algo muito longe, que jamais iria atingir o condado, enquanto a polícia e a justiça ainda faziam valer leis que remetiam à época da escravidão. Nota: apesar de o Ato de Integridade Racial ser de 1924, sua base era a mesma vista nas ideias e práticas em voga nos EUA 50 anos antes.

O roteiro não deixa passar o ideal cristão que fortalecia o discurso racista da época. Justificativas envolvendo termos como “é natural” ou “não é natural“; “Deus fez assim” ou “isso foi determinado por Deus“, além de todas as regras sociais cristalizadas a partir dessas frases são indiretamente criticadas pelo diretor, e nos faz pensar muito sobre como grupos bem estabelecidos no controle de uma sociedade (em diversos ramos de poder) usam de preconceitos sustentados por denominadas ordens e/ou condenações divinas para criar a separação entre pessoas que querem estar juntas ou fazer algo que só interferirá em sua própria vida. Até os “valores morais” ou “exemplos para os filhos” que tanto hoje ouvimos falar sobre esta ou aquela ação humana são ouvidas nos discursos racistas dos anos 60, seja aqui, seja em outras obras da mesma safra, especialmente os documentários Eu Não Sou Seu negro e A 13ª Emenda.

A direção de Jeff Nichols consegue abordar bem esse elemento crítico e ao mesmo tempo tocante no filme, muito embora o roteiro — e por consequência, a direção — tenham sido “passivos demais” em alguns momentos. Apenas no início, quando a prisão do casal acontece, sentimos uma maior dualidade de forças, edição ágil e direção viva. Depois, mesmo com os obstáculos que os protagonistas encontram, essa força desaparece. Há apenas duas cenas que podem ser consideradas exceção, por exibirem momentos bastante ternos e receberem muito cuidado de Nichols: primeiro, toda a sequência do nascimento do primeiro filho do casal; segundo, a cena onde eles assistem a um programa de TV e o fotógrafo da revista Life (interpretado por Michael Shannon, que é recorrente nos filmes de Jeff Nichols) os observa com grande carinho e os fotografa.

Mesmo que às vezes se perca, com sutileza, entre a vida pessoal e o levantamento da luta por direitos civis nos Estados Unidos, Loving continua sendo um belo romance dramático, biográfico e histórico. O filme emociona, traz uma boa trilha sonora (embora ter mais motivos musicais no decorrer da fita não fossem fazer mal nenhum) e nos faz pensar e lamentar que há tão pouco tempo, em nosso continente, pessoas de etnias diferentes eram proibidas por lei de se casarem, condição não só apoiada pelo Estado mas sustentada por discursos religiosas. Paralelos com outras situações de nossos dias não deixam de vir à mente, ao mesmo tempo que temos a consciência de que a comunidade negra pode não ter hoje o mesmo empecilho de casamento, mas ainda continua com problemas culturais de primeira ordem em seu encalço.

Loving (Reino Unido, Estados Unidos, 2016)
Direção: Jeff Nichols
Roteiro: Jeff Nichols
Elenco: Ruth Negga, Joel Edgerton, Will Dalton, Terri Abney, Alano Miller, Chris Greene, Keith Tyree, Sharon Blackwood, Christopher Mann, Mike Shiflett, Winter-Lee Holland, Marton Csokas, Michael Abbott Jr., Bill Camp, David Jensen, Andrene Ward-Hammond, Nick Kroll, Jon Bass, Michael Shannon
Duração: 123 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.