Crítica | Lucifer – 1X02: Lucifer, Stay. Good Devil.

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estrelas 3

Obs: Há potenciais spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui.

Aqueles que leem minhas demais críticas de séries aqui no site sabem que eu inevitavelmente reclamo da estrutura “alguma-coisa da semana”. É “vilão da semana”, “caso da semana”, “romance da semana”, “imbecilidade da semana”. Todas as séries de TV aberta americana, com honrosas exceções, parecem navegar em torno desse conceito antiquado e preguiçoso.

Quando fiz a crítica do episódio piloto de Lucifer, já previa que, se o caminho da série fosse o de “caso da semana” com o próprio Diabo ajudando a bela policial Chloe Decker a resolver crimes diferentes a cada episódio, era provável que ela fosse fadada ao fracasso. Pois bem: com Lucifer, Stay. Good Devil., apenas seu segundo episódio, o showrunner Joe Henderson nos passa a mensagem que é isso mesmo, Lucifer será basicamente uma série tipo procedural com um crime a cada semana. E é nesse ponto que meus leitores, achando-me coerente, concluirão que não gostei do que vi. Mas é aí que a proverbial porca torce o rabo…

A grande questão é que Lucifer tem dois inafastáveis diferenciais que vêm sendo consistentemente trabalhados: Tom Ellis no papel-título e os diálogos bem escritos e afiados. São elementos que “curam” as falhas do programa? Certamente que não e, na medida em que a temporada progride, eles contarão menos ainda para lidar com as mesmices, mas a grande verdade é que, até o momento, esses diferenciais têm impedido que Lucifer caia rapidamente na vala comum.

Ellis parece ter nascido para viver Lúcifer Morningstar (que, como Chloe afirma, surpresa, é mesmo o nome dele!), demonstrando não só um charme natural, como excelente timing cômico, em meio a um ar enfadonho e um nariz (enorme) empinado que irrita na mesma proporção que encanta Chloe e os demais personagens e, sem dúvida, o espectador. E ele é, claro, ajudado por roteiros realmente ácidos e cirúrgicos em suas piadas e sátiras que não se furtam de “descer o nível” e usar o sexo como um de seus elementos mais constantes (nunca mais verei a Torre Eiffel da mesma forma…). Pode ser só eu, mas o ator e sua tiradas demoníacas conseguem extrair fortes risadas, algo muito raro na televisão atual, especialmente se considerarmos que a série não é exatamente de comédia.

Mas, como disse, não tem ator que consiga manter fresca a estrutura pela qual a série parece ter enveredado de vez, mesmo que os casos da semana sejam um pouco mais interessantes do que a média. Agora, Chloe e Lúcifer se veem ás voltas com um assassinato aparentemente cometido por um paparazzo com ligações com passado hollwoodiano da policial. A caça ao verdadeiro culpado tem um momento catártico – cortesia de Lúcifer, claro – muito interessante e diferente, mas o caso em si é consideravelmente menos interessante que o primeiro da temporada e a tendência é que eles gradativamente se tornem piores, tornando-se lugar-comum.

Também não ajuda muito a dinâmica do “Diabo sentimental” que nos é empurrado goela abaixo a cada cinco minutos. Sim, já entendemos que Lúcifer é “bonzinho” e sim, sabemos que ele tem uma espécie de ligação especial com Chloe. Mas se o lado místico da série ficar nesse vai-e-vem, muito pouco de efetivo poderá ser retirado dali. Ainda é interessante como Lúcifer consegue dizer sempre a verdade de uma maneira que torna impossível alguém acreditar nele, mas essa rotina já deu o que tinha que dar.

O mesmo vale para o uso de seu poder de forçar as pessoas a revelar seus desejos mais íntimos. Até onde isso pode ir é um mistério para mim. E, pior ainda, a dinâmica entre Lúcifer e seu irmão Amenadiel também já cansou. Se não houver o impulsionamento efetivo da trama maior que mal e porcamente mantém os episódios unidos, a série realmente não terá futuro algum, por mais que Ellis se esforce em seu papel.

Em outras palavras, Joe Henderson precisa elevar sua obra ao próximo nível. Ele precisa aproveitar seu aparentemente alto grau de liberdade narrativa – considerando que estamos falando de série de TV aberta – e embarcar de vez na alma negra de seu personagem-título. O humor negro deve ser mantido, mas ele preferencialmente deve ter uma função maior, uma mensagem mais importante para passar, mensagem essa que, por incrível que pareça, está lá, escondida nas entrelinhas e nos coitos interrompidos que são as visitas de Amenadiel a seu satânico irmão caído que têm o potencial de gerar conversas mais do que interessantes sobre o diabo miltoniano de Neil Gaiman e Mike Carey.

E, claro, o “caso da semana” tem que ser minimizado, pois ninguém em sã consciência aguenta mais essa lenga-lenga repetida toda semana. Mas desconfio que nem um pacto com o Diabo levará a série nessa direção…

Lucifer – 1×02: Lucifer, Stay. Good Devil. (Idem, EUA – 1º de fevereiro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Nathan Hope
Roteiro: Joe Henderson
Elenco: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, AnnaLynne McCord
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.