Crítica | Lucifer – 1X05: Sweet Kicks

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estrelas 3,5

Obs: Há potenciais spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui.

Começo a realmente sentir firmeza em Lucifer. A série do diabo tirando férias em Los Angeles e aprendendo a ser humano com a ajuda hesitante de uma policial e ex-atriz, com os inevitáveis casos da semana, tem conseguido costurar cada novo assassinato a ser desvendado com o arco narrativo maior, o que é uma excelente e refrescante notícia.

Isso ficou evidente em Manly Whatnots, o episódio anterior, e continua até com mais proeminência em Sweet Kicks. Usando um assassinato ocorrido em desfile de uma grife de calçados a que Lúcifer Morningstar e sua assistente Maze estão presentes, e que pode gerar uma guerra de gangues, o roteiro finalmente faz o que precisava ser feito e oficializa o protagonista como assistente civil da polícia, para desespero de Chloe Decker, que passa a ser sua parceira de verdade. Assim, a presença fortuita de Lúcifer em todos os casos deixa de ser fortuita e é escrita organicamente dentro do roteiro. Afinal, é perfeitamente razoável aceitar que, com seu charme irresistível e sua sempre presente vontade de fazer troca de favores (esse diabo não negocia só almas), ele convença a ambiciosa – e bela – chefe de polícia a deixá-lo participar das investigações do caso deste episódio e provavelmente de todos os demais.

Ultrapassado este ponto, que anula problemas provenientes da “conveniência” de Lúcifer sempre estar envolvido com crimes de alguma maneira, a narrativa mergulha de verdade na trama principal, relegando o assassinato à mero aspecto colateral, sem muito relevância, mas sem desligá-lo completamente do arco sendo desenvolvido, o que já demonstra o cuidado de Sheri Elwood em não criar um “caso da semana” perdido e inconsequente. Assim, a relação entre Maze e Amenadiel se intensifica e o anjo negro, de posse da informação que Lúcifer, agora, confidencia seus segredos em consultas com a Dra. Linda Martin, trata de infiltrar-se em seu consultório, prometendo interessantes desenvolvimentos, potencialmente até um romance com a doutora que, assim como Lúcifer, parece muito aberta a explorar alternativas, se é que o leitor me entende…

Maze também ganha ótimo destaque, agora que o diabo pode ser ferido (talvez até morto) por tiros e facas. Revelando-se mais do que uma mera diabinha inferior, algo que já havia sido visto em sua breve luta com Amenadiel no capítulo anterior, ela, como uma ninja, destroça uma gangue mexicana inteira em defesa de seu chefe, apesar de tê-lo traído logo antes. No entanto, realmente espero que isso não se torne um hábito, ou seja, espero que, quando Lúcifer estiver em perigo, Maze não surja sempre do nada para salvá-lo, pois essa estrutura periga envelhecer muito rapidamente. O lado positivo é que, com apenas cinco episódios, a série tem feito esforços para apresentar elementos novos – ainda que de maneira claudicante – e “Maze ao resgate”, apesar de interessante, creio que logo perderá a razão de ser.

Da mesma maneira, tenho reparado o quanto o design da produção tem trabalhado aspectos variados da fauna angelena. O cuidado com os figurinos é visível, com uma grande diversidade, além dos cenários, que, apesar de poucos e limitados, ganham ótimos detalhes, como o estúdio de Benny Choi, claro, amplo, contrastando com a boate escura e claustrofóbica de Lúcifer.

Mas deixe-me brevemente abordar o protagonista. Tom Ellis continua fazendo um grande trabalho e o roteiro reserva a ele as melhores tiradas e melhores momentos. Até aí, nada de novo. No entanto, agora que Lúcifer tem que encarar sua própria possível mortalidade, sua atitude, em essência, não mudou. Claro, ele faz piadas com sua condição “mortal”, mas não muito mais do que isso. Seu embate interior – punir os culpados ou salvar os inocentes? – perdeu destaque e sua postura playboy para tudo começa a mostrar sinais de fadiga. Sei que estou escrevendo isso a partir de um episódio apenas, mas gostaria de ter visto mais mudanças no personagem agora que ele sangra e não só uma alteração do foco das piadas. Existe uma interessantíssimo conflito inerente à premissa da série, mas ele não tem ganho destaque suficiente e a humanização física forçada do personagem é oportunidade para que isso aconteça e precisa ser abordada com algum grau de profundidade. Talvez Amenadiel, manobrando Linda, faça a narrativa enveredar por esse caminho. É o que espero, ao menos.

Sweet Kicks é mais um eficiente episódio de Lucifer, que mostrar saber usar os casos da semana a seu favor e não como um mero e mais do que batido artifício narrativo. Agora é esperar que o conflito entre o Céu e o Inferno, tendo a Terra como campo de batalha, se intensifique.

Lucifer – 1×05: Sweet Kicks (Idem, EUA – 22 de fevereiro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Tim Matheson
Roteiro: Sheri Elwood
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, AnnaLynne McCord
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.