Crítica | Lucifer – 1X06: Favorite Son

estrelas 4,5

Obs: Há potenciais spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui.

But the lord said, go to the devil
The lord said, go to the devil
He said, go to the devil
– Sinnerman

Marcando a metade da temporada, Favorite Son finalmente mostra o potencial de Lucifer. Um episódio equilibrado entre comédia inteligente e drama relevante e que mergulha profundamente na mitologia miltoniana do personagem título, fazendo as narrativas convergirem e caminharem naturalmente na mesma direção. Eis a série que estava sempre presente nos episódios anteriores, mas levemente escondida pela abordagem claudicante e talvez cuidadosa (para não assustar muito os mais pudicos) de Joe Henderson, como showrunner.

Tudo gira em torno de um assassinato seguido do roubo de um contêiner em armazém que Chloe sabe ser um lugar usado para a circulação de mercadorias ilegais de toda natureza. Lúcifer é chamado, agora em sua qualidade de consultor, mas logo se desinteressa pelo caso, por ser “chato” demais, enfurecendo sua parceira. No entanto, depois que Maze lhe conta que o contêiner roubado é do próprio Lúcifer e que contém algo aparentemente muito valioso, o anjo caído parte para solucionar o crime, custe o que custar.

O conteúdo do contêiner é óbvio para quem estiver acostumado com séries desta natureza, mas, como ele é mantido em segredo até o finalzinho, não revelarei aqui. De toda forma, o mistério funciona como um perfeito McGuffin que impulsiona a trama nas duas pontas, ou seja, no batido “caso da semana” e, principalmente, no arco maior do personagem, que precisa lidar com toda a situação que o coloca sob a mira da própria Chloe, que, pela primeira vez, desconfia que ele não está falando a verdade já que ele se recusa a revelar o que exatamente foi roubado.

Por outro lado, usando diretamente a situação criada em Sweet Kicks, o roteiro não foge de lidar com a relação cada vez mais próxima entre Amenadiel e a Dra. Linda Martin, com os dois atores – D. B. Woodside e Rachael Harris – finalmente tendo tempo para trabalhar seus respectivos personagens e deixando bem clara a química entre eles, em uma espécie de triângulo (não necessariamente) amoroso entre céu, purgatório e inferno e que explode quando Linda confronta Lúcifer com seu primeiro nome, Samael e sua efetiva função como filho de Deus. É perfeitamente possível ignorar todos os acontecimentos ao redor dos eventos dentro do consultório da doutora e focar só ali, nas três sequências trabalhadas para tratar diretamente do diabo e de seus problemas terrenos. É fascinante ver o lado diabólico de Woodside e, em oposição, o lado amargurado, torturado de Ellis, em uma interessantíssima inversão de papeis tendo Harris como uma espécie de fiel da balança.

Mas Chloe e sua separação de Dan também ganha atenção do roteiro, que ainda tem tempo para usar Trixie, a filhinha deles, para ótimo efeito dramático – e cômico – que, porém, acertadamente, não sai debaixo da sombra do Sr. Estrela da Manhã. É essa sombra de dúvida que leva ao terceiro (ou quarto) vértice da narrativa, quando Dan, sozinho, sai para investigar Lúcifer e enfrenta Maze na boate Lux. Trabalhado ao mesmo tempo de forma sinistra e leve, a cena funciona como equilíbrio para os desdobramentos mais sombrios do lado mitológico da história.

Novamente, a fotografia da série ganha enorme importância, com um episódio que enfoca a escuridão como nenhum outro até aqui, sempre deixando Lúcifer na luz – uma lembrança de seu passado como Portador da Luz ou Lightbringer -, mas cercado de escuridão por todos os lados. Outro elemento que vem sendo constantemente usado na série, mas que aqui é quase que onipresente, é a música. E esse uso começa já no prólogo, de forma diegética, com o próprio diabo cantando Sinnerman em sua boate (se era mesmo a voz de Ellis, e acho que era, ele tem uma potencial carreira como cantor se a de ator não der certo…), ao piano, em uma bela e harmoniosa sequência que dá o tempo e o tema do episódio, já que a canção (interpretada famosa e definitivamente por Nina Simone, mas que não é originalmente dela), datada da virada do século XX, lida com um pecador tentando se esconder da justiça divina no Dia do Julgamento Final. E, naturalmente, ao longo do episódio, outras canções são usadas para ilustrar a mesma questão, criando rapport imediato com o prólogo e com a problemática da trama em si.

Agora a busca da solução do mistério sobre quem roubou a preciosa propriedade de Lúcifer poderá gerar um interessante mini-arco e a resposta óbvia sobre o culpado (por que há uma resposta óbvia…) não me parece ser a correta. Há, muito provavelmente, um terceiro ainda misterioso nesta história que, espero, seja bem apresentado, aproveitado e costurado na narrativa de origem do amargurado playboy diabólico.

Favorite Son é um daqueles episódios que, quando acaba, o espectador tem a certeza de que viu algo especial, algo que realmente revela o que a série pode trazer se trabalhada com consistência e coragem. A névoa de bobagens divertidas que nos impedia de ver o que é de verdade essa série, parece ter se dissipado. Ou seria cedo demais para afirmar isso?

Lucifer – 1×06: Favorite Son (Idem, EUA – 29 de fevereiro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: David Paymer
Roteiro: Jason Ning
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, AnnaLynne McCord
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.