Crítica | Lucifer – 1X07: Wingman

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estrelas 4,5

Obs: Há potenciais spoilers. Leia as críticas dos demais episódios, aqui.

I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that’s real
The needle tears a hole
– Hurt, Nine Inch Nails

Opa, dois grandes acertos seguidos? Será que estamos realmente testemunhando o nascimento de uma grande série de TV baseada em personagem de quadrinhos? Será que Tom Kapinos e Joe Henderson fizeram um pacto com seu protagonista para finalmente acertarem na mosca seguidas vezes?

Mesmo que Lucifer tenha pessoalmente me encantado logo de início, reconheci seus problemas graves e relutei em acreditar que a série poderia ser mais do que apenas um divertimento semanal (um pouco) acima da média. Apesar de ter detectado lampejos de brilhantismo normalmente em relação ao trabalho de Tom Ellis e aos diálogos inteligentes, além de um tom risqué raro de se ver em TV aberta americana e um cuidadoso trabalho de fotografia, foi apenas no episódio anterior, Favorite Son, que a série realmente desabrochou e mostrou suas asas (sim, com trocadilho…).

Mas, como todo episódio muito bom é seguido por um episódio desapontador, já estava preparado para Wingman. E qual não foi minha surpresa quando comecei a perceber que Henderson, com roteiro de Alex Katsnelson e direção de Eriq La Salle (lembram-se dele, o Dr. Peter Benton de E.R.: Plantão Médico?), parece ter realmente encontrado o tom de sua obra e mergulhado de vez na mitologia estabelecida do personagem, ao continuar diretamente a narrativa iniciada no capítulo antecedente, com Lúcifer Morningstar e sua assistente Maze fazendo de tudo para achar as asas do anjo caído.

Começando com uma elegante sequência em que uma provocante Maze seduz um incauto e o leva até sua hidromassagem somente para descobrirmos que tudo não passava de uma armadilha para Lúcifer interrogá-lo sobre o possível contrabando de sua propriedade angelical, o episódio continua com a parceria entre o protagonista e Chloe, por sua vez envolta com o caso Palmetto de seu passado que a assombra diariamente e, com o desligamento dos aparelhos de Malcolm, o policial comatoso que ela investiga por desconfiar de corrupção, ela tem que tomar uma decisão.

Esse “caso Palmetto” não é novo na série, já que ele fora objeto de diálogos um tanto expositivos praticamente a partir do primeiro episódio. No entanto, é a primeira vez que aprendemos detalhes sobre ele e o quanto Chloe efetivamente é odiada por seus pares. Com isso, o “caso da semana” de Wingman ganha um contorno diferente, muito mais orgânico do que os demais da série. E o melhor: ele não tem resolução aqui, tornando-o efetivamente importante para o arco maior da personagem.

Aliás, a narrativa envolvendo as asas de Lúcifer também não acabou ainda. Bem, ao menos os desdobramentos da obsessão de Amenadiel em fazer seu irmão voltar para o Inferno estão longe de acabar, já que ele deixou muito claro, depois de espancar um Lúcifer provocador (foi impressão minha ou o “Become wrath” que ele solta é uma referência direta à Seven?), que ele fará de tudo para devolvê-lo ao seu lugar de direito. E esse tudo, como sabemos, envolve não só a Doutora Linda Martin, que não aparece aqui, como, também, a ressuscitação de Malcolm bem ao final, com objetivo ainda incerto e não sabido. Além disso, a temática da crença versus descrença personificada pelo tenso momento de Lúcifer e Amenadiel com o leiloeiro que veste a carapaça de ateu, mas que literalmente viu o divino, pode dar o que falar em uma conversa entre amigos. Em suma, há muito por vir ainda e é possível já começar a ver um semblante de plano macro para a série.

Já que mencionei mais uma vez a qualidade da fotografia, que realmente separa esta série de muitas outras que tentam ser do mesmo naipe, mas caem por terra fragorosamente, vale chamar atenção para o “eco” ou a “rima” ou, diria, a harmonia que o final de Wingman tem com o começo de Favorite Son. Na abertura do episódio anterior, Tom Ellis nos brinda com uma performance soberba de Sinnerman ao piano e, no dénouement de Wingman, nós o vemos novamente ao piano fazendo as pazes com a fiel (mas não tanto) Maze e ensaiando algumas notas de Hurt, do Nine Inch Nails, conforme o fenomenal arranjo de Johnny Cash, outra canção perfeita para o que ele sente agora que sabe o que suas asas significavam para ele e como ele lida com sua decisão de destruí-las. São apenas alguns breves acordes, interrompidos pela chegada providencial de Chloe que fecha com chave de ouro o pequeno arco das “asas do anjo caído”, mas que abre muitas outras intrigantes possibilidades.

Wingman é, para manter a iconografia, uma dádiva divina que parece confirmar que, muito mais do que apenas outra série infernal baseada em casos da semana, Lucifer é um paraíso para aqueles que querem ver mais do que seu “heroizinho” semanalmente na telinha.

Fiquem, por fim, com Hurt, pelo imortal Johnny Cash:

Lucifer – 1×07: Wingman (Idem, EUA – 07 de março de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Eriq La Salle
Roteiro: Alex Katsnelson
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, AnnaLynne McCord
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.