Crítica | Lucifer – 1X12: #TeamLucifer

estrelas 4

Obs: Há potenciais spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Pela primeira vez em Lucifer, o showrunner Joe Henderson faz um pulo temporal sensível, permitindo que a situação estabelecida em St. Lucifer – a intimidade com Chloe levando à literal vulnerabiliade do anjo caído – ganhe raízes e seja apropriadamente explorada nessa reta final. Ao mesmo tempo, essas três semanas funcionam para explicar os devaneios enloquecidos de Malcolm, que catalisam o “crime da semana”, mostrando que, no lugar de mergulhar impensadamente em histórias bobas e sem pé nem cabeça, a série procura justificar os acontecimentos, mantendo sua lógica interna.

#TeamLucifer, então, como era esperado, foca mais uma vez na mitologia do personagem, usando crimes ocorridos dentro de um pretenso culto satânico para tematicamente reunir todas as linhas narrativas em um apanhado só. Temos Amenadiel descobrindo que sua manipulação de Malcolm acabou; Maze sendo descoberta como “agente duplo” e Lúcifer lidando com sua eterna indignação pelos humanos acharem que o todo o mal que o Homem faz é culpa dele. E tudo isso vem embalado em um episódio dinâmico, espertamente escrito e que organicamente nos leva próximo ao encerramento da temporada, com direito até a um leve cliffhanger que pode apimentar as coisas no final.

O roteiro, escrito pela cantora e escritora Ildy Modrovich, responsável por Manly Whatnots, o primeiro episódio a realmente mostrar o potencial da série, ganha um tom marcadamente mais sério, com substancialmente menos tiradas satíricas e cômicas, mas sem fazer Lúcifer perder sua verve. Os próprios crimes investigados são mais violentos e pesados, emprestando gravidade narrativa aos acontecimentos e às relações do protagonista com Chloe e Malcolm.

O único senão do roteiro é a forma pela qual a metáfora da relação entre fragilidade e intimidade é abordada. A questão já havia ficado sobejamente clara no episódio anterior e não precisava ser repetida de forma didática aqui, mas Modrovich faz com que ela seja explicada pela Dra. Linda Martin nos seus “mínimos detalhes”, para quem porventura não tivesse entendido. No entanto, isso não é nenhum grande pecado e acaba funcionando ao menos para trazer Rachael Harris para o episódio, já que, de certa forma, sua personagem vem perdendo a função já há algum tempo.

O relacionamento de Amenadiel e Maze foi um dos pontos altos, primeiro pela profanidade da situação em si – um demônio transando com um anjo! – e, segundo, pela intensificação dos sentimentos de um pelo outro. Se Lúcifer esforça-se para entender a natureza humana vagarosamente tornando-se um humano, seu irmão e seu braço direito parecem, de certa forma, que seguem o mesmo caminho, ainda que reagindo de maneira particular ao problema. Será interessante ver se essa linha narrativa ganhará mais desenvolvimento na segunda temporada.

Falando em Amenadiel, o confronto entre ele e Lúcifer merece todo o destaque não só por colocar o diabo pela primeira vez em ação física que não seja relacionada com sexo ou com música, mas também pelo diálogo destruidor que coloca em pé de igualdade o emissário do Criador e seu filho rejeitado. As possibilidades de Amenadiel como um segundo anjo caído e Lorde do Inferno são muito interessantes (ou seria pedir demais?). Só não gostei do fantástico set piece do bar de Lúcifer ter sido despedaçado…

Malcolm (ou Detetive Stache, he, he, he…), que até aqui vinha ocupando o papel raso de vilão-clichê, é muito bem explorado pelo episódio em um twist inesperado e bem estruturado. De potencial assassino do diabo, ele passa a seu adorador, montando todo um complicado e demente plano para mostrar seu valor para Lúcifer e, de quebra, demonstrando de vez que a humanidade não tem mesmo jeito em uma virada mais do que pessimista para a série e lamentada principalmente pelo próprio Belzebu.

#TeamLucifer, apesar de não ser mais um daqueles espetaculares episódios musicais, definitivamente mostra a força dramática que a série tem. Com o final armado, tudo que se pode esperar é um endemoniado season finale!

P.s. Repararam nas duas homenagens à versão dos quadrinhos do personagem que deu base à série? A primeira foi a pergunta que o adorador do demônio que abre a porta para Lúcifer e Chloe faz quando Lúcifer se apresenta como é: “Não era para você ser loiro?”. E, depois, o verdadeiro nome de Corazón é revelando como sendo Mike Carey. Para quem estiver boiando, deixe-me explicar: Lúcifer é loiro nos quadrinhos (para ficar parecido com David Bowie a pedido de Neil Gaiman, seu criador) e Mike Carey é o roteirista da primeira série solo do personagem, publicada entre 2000 e 2006, no selo Vertigo.

Lucifer – 1×12: #TeamLucifer (Idem, EUA – 18 de abril de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Greg Beeman
Roteiro: Ildy Modrovich
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, AnnaLynne McCord, Kevin Rankin
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.