Crítica | Lucifer – 2X02: Liar, Liar, Slutty Dress on Fire

estrelas 4

Obs: Há potenciais spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Depois de um recomeço para lá de morno, Lucifer rapidamente volta à sua forma com o hilário Liar, Liar, Slutty Dress on Fire em que a relação do Lorde do Inferno com sua mãe ganha os holofotes. E Tricia Helfer, que já havia encarnado papel sensual com fortes pitadas de manipulação e traição quando fez a Número Seis no reboot de Battlestar Galactica, é a perfeita escalação para viver a ex-esposa de Deus e mãe de Lúcifer, Amenadiel e mais um punhado de anjos que ainda não conhecemos na série.

Sua dramática aparição ao final do episódio anterior, com seu filho ao piano (algo que nos remete diretamente à Battlestar Galactica, aliás), ganha contornos muito bem estruturados no esperto roteiro de Ildy Modrovich, que consegue criar mistério e dúvida até o finalzinho, quando vemos o sorrisinho maroto de “mamãe” olhando diretamente para a câmera em um plongée que coloca o espectador no papel de Deus. É a mensagem que precisamos para aguardarmos uma potencialmente muito interessante 2ª temporada.

O uso de flashbacks dinâmicos que revelam o “pinga pinga” da versão incorpórea de “mamãe” até acabar em uma loira com um fura-gelo enfiado na nuca desnorteia o espectador completamente, surpreendendo-nos com um começo que, nos primeiros segundos, não se encaixa em nada com a chegada da personagem na boate Lux. Aos poucos, porém, por intermédio da atabalhoada e nervosa investigação empreendida por Lúcifer para saber o que sua mãe havia feito para chegar até ele, descobrimos que o corpo que ocupa é o de uma advogada do mais alto gabarito chamada Charlotte, que sumira.

Como é de praxe na série, o caso em si não é exatamente importante e descobrir quem teria assassinado Charlotte é o que menos importa na engrenagem. Mas, aqui, a grande verdade é que, como Tricia Helfer está no elenco fixo da série (pelo menos da 2ª temporada) e seu papel é de uma Charlotte que serve de hospedeira para a forma desencarnada da ex-mulher de Deus (Deusa?), resta saber se ela viverá uma vida dupla, parte advogada (ou tentando ser uma advogada), parte “mamãe”. Afinal, o final do episódio estabelece que Charlotte não morreu para fins humanos e sua volta ao escritório, em tese, seria o caminho natural para afastar eventuais dúvidas nos humanos.

Seja qual for o plano de Joe Henderson para a personagem, uma coisa ficou absolutamente clara: Tom Ellis e Tricia Helfer têm química perfeita. A hesitante e complicada nova dupla formada na série rende momentos antológicos, como o que dá título ao episódio, em que Charlotte usa um dos vestidos de “periguete” de Maze e novamente enlouquece o espectador com sua beleza estonteante ao mesmo tempo em que cria situações para lá de embaraçosas para seu filhinho… E, falando em Maze, Modrovich dá nova relevância à personagem, agora semi-independente de Lúcifer, mas desejosa de terminar seu trabalho de tortura com a mãe do demônio.

Separado da história principal, vemos Amenadiel perdendo seus poderes, algo que começara no episódio anterior ainda de forma discreta. O que exatamente aconteceu com ele, que nem mesmo mais responde às “ligações” de seu irmão e não sabe que sua mãe já foi encontrada? A perda das penas de suas asas dá a entender que Deus o renegou, mas parece haver algo mais por trás disso tudo, já que foi o próprio Todo Poderoso que colocou os dois atrás de sua ex-mulher.

O episódio, porém, peca na insistência em se usar uma trama policialesca com a presença constante de uma Chloe completamente deslocada como pano de fundo narrativo. A escolha narrativa se deu, claro, para que a estrutura dos episódios da série se mantivesse, mas creio que um desvio completo do usual teria sido mais sadio. Chloe e seu ex-marido Dan não têm o que fazer aqui e ganham funções substancialmente irrelevantes, quase como figurantes de luxo. Imaginem como teria sido excepcional se a dinâmica Ellis-Helfer e até mesmo a trinca Elli-Helfer-Brandt fossem exploradas por mais tempo, sem necessidade de se perder tempo com o restante do elenco. Afinal, para resolver o “caso da semana”, as ações de Lúcifer já foram mais do que suficientes e Chloe e Dan acabaram redundantes.

Mas o melhor do episódio é que os afiados diálogos de duplo sentido estão de volta com força total. Modrovich tem ritmo e uma verve ferina, algo que ele já havia mostrado em #TeamLucifer e Louis Milito, que dirigira The Would-Be Prince of Darkness, revela que, tendo bom material em mãos, sabe como usar a câmera para contar sua história. Aliás, Milito trabalha muito bem a cadência do episódio desde os atordoantes momentos iniciais até o delicioso diálogo final e a já mencionada câmera de cima focando no sorriso diabólico de Helfer que claramente passa a mensagem de que seu plano para derrubar seu ex-marido está apenas começando…

Liar, Liar, Slutty Dress on Fire é, sem sombra de dúvidas, o efetivo primeiro episódio da 2ª temporada de Lucifer. Estão presentes todos os ingredientes que fazem da série o que ela surpreendentemente mostrou ser na temporada anterior, com a vantagem de apresentar uma trama com mais potencial ainda.

Lucifer – 2×02: Liar, Liar, Slutty Dress on Fire (Idem, EUA – 03 de outubro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Louis Milito
Roteiro: Ildy Modrovich
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Tricia Helfer, Aimee Garcia
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.