Crítica | Lucifer – 2X04: Lady Parts

estrelas 4

Obs: Há potenciais spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Em uma temporada em que o grande mote é a fuga da mãe do Diabo do inferno e que já mostrou que as interações entre ela, vivida por Tricia Helfer, e Lúcifer, vivido por Tom Ellis, são absolutamente impagáveis, foi com enorme – gigantesca! – surpresa que concluí que o melhor episódio até agora dos quatro é um sem qualquer interação entre os dois e em que Helfer aparece por apenas dois minutos. Adoravelmente inacreditável…

Quando logo no começo do episódio “mamãe” aparece levando o lixo para fora para o deleite de Maze que não perde tempo em torturá-la, logo refestelei-me no sofá preparando-me para me divertir com um capítulo inteiro focado em Tricia Helfer tendo que conviver com reles seres humanos por sua volta. E crianças ainda por cima! Mas o momento doméstico à beira da bagunçada piscina com farpas sendo trocadas entre as duas, apesar de claramente já demonstrar a qualidade do roteiro escrito por Sheri Elwood (responsável pelos ótimos Sweet Kicks e St. Lucifer) e a química antitética entre Helfer e Brandt, foi, ao contrário do que imaginara, curto demais, o que me fez levantar a sobrancelha em sinal de alerta. Será que o episódio continuaria a tendência de baixa de Sin-Eater?

A segunda sobrancelha levantou-se quando o foco passou a ser Chloe, Dan e até Elle envolvidos em um mais um caso da semana, desta vez o assassinato de uma loira aparentemente envolvida em um “clube de sexo”. Mas, então, a coisa mudou completamente. Elwood faz o que fez em Sweet Kicks e costura seu caso da semana dentro da estrutura básica da série, manobrando-o e adaptando-o para evolução dos personagens. E de absolutamente todos. Se Helfer é deixada de lado logo no começo e não mais volta para a frente da câmera, todo o resto do elenco ganha seu foco e sempre intrinsecamente ligado à investigação criminal, aqui um mero elemento aglutinador que permite a criação de vários dos momentos mais icônicos da série até agora.

E que momentos são esses? Ora, claramente a “noite das mulheres” que coloca Maze, Dra. Linda e Ella fazendo as vezes de melhores amigas de Chloe em uma interação que pode ter começado de maneira falsa, mas que ganha cunho fraternal entre as mulheres da série. E o melhor é que esse clímax tem como origem a conclusão apressada que o próprio Lúcifer tira dos conselhos da Dra. Linda sobre o que fazer para esquecer seus problemas: divertir-se.

Com isso – e essa é realmente a grande surpresa do episódio – o próprio Lúcifer é, pela primeira vez desde que a série começou, colocado para escanteio, mesmo quando solta suas sensacionais tiradas que continuam afiadas como sempre. Tom Ellis tenta, mas não tem chance quando o girl power das coadjuvantes aparece de uma vez só em sequências que contam com bebedeira, briga de bar, karaokê e até amnésia comprometedora. Se antes não conseguia ver muita função para Ella, Aimee Garcia mostra finalmente a que veio e faz de seu personagem mais do que uma sidekick apagada que só aparece quando conveniente para soltar um comentário qualquer. E outra surpresa boa é ver que Lesley-Ann Brandt e Lauren German aparentemente também funcionam bem juntas, o que pode gerar interessantes situações futuras agora que as duas e a pequena Trixie morarão juntas (jamais imaginaria essa combinação, devo confessar…).

Mas o lado masculino da história, apesar de ser de menor relevância aqui, também tem seu espaço no inteligente trabalho de Elwood que se beneficia de uma direção precisa de Ben Bray (que dirige pela primeira vez um episódio da série) que sabe inserir organicamente as sequências com Lúcifer e Amenadiel sem interromper a narrativa do lado feminino, criando um razoável equilíbrio, não deixando Lady Parts perder-se. E, mesmo que ainda não tenha voltado com força total – muito claramente por falta de oportunidade narrativa – D.B. Woodside começa a achar novamente seu espaço em um crescente conflito com o irmão que deságua no corrido e previsível clímax com o acidente de Chloe que tem seu timing acelerado desnecessariamente.

Resta saber se haverá consequências maiores para a detetive ou se foi só um susto. Espero que seja algo duradouro (não fisicamente para a personagem, pelo menos não necessariamente) e que continue bem inserido na trama, já que essa surpresa que não foi surpresa foi o único problema maior que detectei no trabalho de roteiro. Não que o acidente em si não fosse necessário ou útil, mas sim que ele é esvaziado pela forma atropelada como ele é inserido na trama. Os dois minutos a menos que esse episódio teve poderiam ter sido empregados para dar maior organicidade ao que acontece.

De toda forma, Lady Parts, apesar de deixar de lado a relação mãe-e-filho, contorna e mais do que compensa essa falta graças a um caso da semana que é instrumental para o desenrolar de uma trama que surpreende e traz bons momentos para as quatro mulheres da série. Fico imaginando se teremos algum episódio em que o grupo contará com a quinta e mais endiabrada das mulheres, formando um quinteto infernal. Seria memorável!

Lucifer – 2×04: Lady Parts (Idem, EUA – 17 de outubro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Ben Bray
Roteiro: Sheri Elwood
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Tricia Helfer, Aimee Garcia
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.