Crítica | Lucifer – 2X06: Monster

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Os chocantes eventos de Weaponizer, episódio anterior de Lucifer, definitivamente não poderiam ser apenas jogados para baixo do tapete aqui em Monster. Além do óbvio impacto na mitologia da série, a morte de um anjo significa mais que a morte de um ser celestial, é a perda de um irmão e evidentemente isso teria um grande impacto no protagonista, como já foi deixado claro em seu semblante nos minutos finais do capítulo passado. Monster é, portanto, acima de tudo, um episódio sobre o luto e como cada um lida com essas situações de forma diferente.

Os primeiros instantes já deixam isso bem claro. O que ouvimos de imediato é a clássica fala dos funerais – “estamos aqui reunidos para lamentar uma grande perda”. A câmera que passa pelos túmulos imediatamente nos remete a Uriel, mas algo não parece estar certo, a música é alegre demais. Descobrimos que se trata de um casamento, o caso da semana do seriado, que não foge à regra e é utilizado como elemento que evoca as emoções em cada personagem, dialogando com a trama principal de forma orgânica, mantendo a costumeira fluidez dos capítulos da série. Prontamente nos deparamos com um Lucifer entregue à esbórnia e o seu visual desarrumado evidenciam o que ele passa por dentro.

Roteirizado por Chris Rafferty, que já nos trouxera um dos melhores episódios da série até então, A Priest Walks into a Bar, o texto se preocupa em demonstrar a instabilidade do personagem principal, seu sentimento de culpa está estampado em seu rosto e Tom Ellis, com olhos bem abertos, parece que vai se debulhar em lágrimas a qualquer instante. Temos aqui o retrato da pessoa que segura o choro com todas as suas forças e Rafferty faz a escolha certa ao nos entregar um diabo menos falante, como a própria detetive Decker diz, uma versão mais sombria do senhor do Inferno.

Mesmo o característico humor de Lucifer aparece de maneira mais contida aqui, se limitando aos trechos iniciais com o protagonista e a interação entre Maze e Trixie, cenas que, naturalmente, funcionam como o alívio cômico de Monster. Mesmo nesses momentos, porém, o roteiro não deixa barato e aborda ágil e certeiramente o constante sofrimento da sidekick de Lucifer, que também se enxerga como um monstro, mas que não sabemos ao certo como ela se sente sobre isso – da mesma forma que seu mestre ela enterra seus sentimentos através de ações libertinas.

Do outro lado da moeda temos Amenadiel, evidentemente abalado pela morte do irmão e tomado por uma forte culpa, que coloca em si próprio no início. Ao seu lado, sua mãe tenta reconforta-lo, mas ela soa incrivelmente apática em relação a Uriel, como se, de fato, não se importasse. Já sabemos que ela muito provavelmente não é quem demonstra ser, ao menos não essa figura materna propriamente dita, mas aqui isso se torna ainda mais claro. Nossa percepção de que ela está apenas tentando conseguir algo para si é ampliada, especialmente quando ela diz que há uma maneira de ambos recuperarem seus poderes.

Dito isso, o episódio se destaca pela maneira orgânica como aborda as emoções de cada um de seus personagens. Todos são colocados no auge de sua humanidade nesse momento de perda e o sofrimento vai se revelando de pouco em pouco. Lucifer ao piano é uma prova evidente disso, está na cara que ele deseja colocar tudo para fora, mas não consegue, a melodia é mais triste e não é acompanhada pela voz do ator – é interrompida no meio justamente quando ele não aguenta mais se segurar. Mesmo Chloe vai se tornando cada vez mais preocupada com Lucifer e, no fim, as mesmas lágrimas que não escorrem do rosto de Ellis soam contidas no olhar de Lauren German – sua preocupação em relação a seu amigo é palpável e sua recomendação de falar com a terapeuta culmina em outro momento decisivo dentro do seriado.

A luz do Sol que ocasionalmente reflete pela janela de Linda já garante um tom celestial à cena, acima disso, dialoga com a centelha do divino escondido nas sombras, sob a superfície do rosto do protagonista. A chocante revelação da verdadeira aparência de Lucifer à sua terapeuta nos pega de surpresa e o ator não desaponta, evidenciando toda sua dor novamente e agora de maneira amplificada: ele perdera a única pessoa com quem se sentia aberto para dialogar sobre o que sente. Um potente cliffhanger é formado, nos deixando na expectativa do que ambos os personagens irão fazer a seguir.

Monster é um episódio sobre pessoas que se enxergam como tal, que são tão consumidas pelo luto e culpa, que chegam a realizar ações impensadas e impulsivas. Chris Rafferty nos entrega mais um ótimo episódio de Lucifer, que lida com seus personagens de forma intimista ao criar uma trama que dialoga diretamente com suas emoções, as colocando em primeiro plano. Chegamos ao que seria o término da primeira metade da temporada, se ela não tivesse sido ampliada para vinte e dois capítulos, e é evidente que o showrunner, Joe Henderson planejava alterar o status quo do seriado nesse momento, algo que ele consegue fazer. Resta saber o que será do diabo nos próximos episódios.

Lucifer – 2X06: Monster (Idem, EUA – 31 de outubro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Eagle Egilsson
Roteiro: Chris Rafferty
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Tricia Helfer
Duração: 44 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.