Crítica | Lucifer – 2X08: Trip to Stabby Town

estrelas 4,5

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Jeff Lieber, prolífico roteirista para televisão que tem cargo de produtor consultivo em Lucifer, escreve seu primeiro roteiro para a série e o resultado é um primor. Ele consegue manter o tom leve que a série tem em sua superfície, adicionando fortes doses de diálogos picantes, especialmente considerando que se trata de televisão aberta, ao mesmo tempo que abraça a mitologia estabelecida até aqui, entrelaçando-a com o “caso da semana” de maneira indelével e orgânica.

Afinal, não é toda série que consegue fazer alusões diretas a glory hole e reverse cowgirl (não, não explicarei o que são aqui…), além de citação a Spice Girls dentro de uma atmosfera sexual carregada, nada discreta, mas ainda assim elegante – a mãe de Lúcifer, os ciúmes que Chloe sente de Lúcifer e sua aparente relação com Ella só para ficar nos mais óbvios -, que ajuda a explorar uma história que lida com uma série de assassinatos cometidos por pessoas usando a lâmina de Azrael, a mesma que Lúcifer usou para matar seu irmão Uriel no excelente Weaponizer. E tudo simplesmente (ou não…) porque uma mulher abandonada e vingativa deseja chamar atenção de seu marido ausente e abusivo (afinal, ele a mandou para ser torturada pela eternidade no Inferno), no primeiro conflito celestial direto de grande porte, mesmo considerando que ele ainda foi unilateral e de certa forma anticlimático.

E, como se isso não bastasse, a dinâmica entre os personagens chega próxima da perfeição, com direito à segunda vez que a personagem de Aimee Garcia (Ella) é usada de forma completa na história (a primeira foi em Lady Parts), mostrando que Garcia e Tom Ellis também conseguem boa química quando o roteiro dá espaço aos dois, reduzindo a “interferência” de Lauren German que, aliás, está ótima também subitamente como o terceiro vértice desse triângulo (ou seria um quadrado, se contarmos Dan nessa história?). A cumplicidade entre os dois formada pelas circunstâncias naturais do mistério – quem afinal desenterrou Uriel e furtou a lâmina? – e a forma como o roteiro conduz esse aspecto da narrativa, tornando-o o efetivo fio condutor de todo o episódio, foi uma bem vinda surpresa na série que estava mesmo precisando fugir um pouco de sua estrutura básica.

Falando nisso, foi muito bom ver que, mesmo com a reaproximação da Dra. Linda graças aos esforços de Maze no episódio anterior, ela continua tendo que lidar com seus demônios (com trocadilho). Aqui, não só o roteiro lida com uma deliciosa inversão de papeis entre paciente e psicólogo, como a direção de Nathan Hope (já veterano na série) mexe com nossa perspectiva primeiro afastando Linda de Lúcifer e, depois, colocando-a literalmente no divã, sendo tratada pelo Diabo em pessoa. Apesar do aparente final desse drama – the doctor is in, ela proclama – quero quer que esse aspecto ainda será explorado mais adiante, já que uma revelação dessa magnitude precisa ter consequências profundas.

Aliás, profundo parece ser o laço construído pela traiçoeira “mamãe” (Tricia Helfer ainda em uma ponta glorificada, mas estonteante em cada frame) com Amenadiel, que, pelo visto, decidiu-se de que lado está nessa luta celestial. O que isso significa exatamente ainda não há como saber, mas a lâmina entrando em ignição na mão de Lúcifer e o sorriso no rosto de Helfer ao deixar claro que, mesmo com uma porta se fechando, uma janela foi aberta, abrem caminho para muitas possibilidades dramáticas.

O que me leva ao futuro. Considerando que a temporada, agora, foi esticada para 22 episódios, contra os 13 da inaugural, Joe Henderson precisa desesperadamente de possibilidades. Trip to Stabby Town deixa entrever que ele não se furtará em mergulhar nos aspectos mais fantásticos da série sempre que precisar, mas é também ainda muito cedo para ficarmos tranquilos. Mesmo com bons exemplos recentes de séries longas baseadas em quadrinhos – Gotham e Agents of S.H.I.E.L.D. – a grande verdade é que elas são exceções que confirmam  a regra. E Henderson, apesar de ter vasto material fonte a seu dispor, nunca teve como proposta segui-lo de verdade, pelo que dificilmente a série seguirá o caminho dos quadrinhos, o que não é ruim, mas, por outro lado, significa que ele precisará trazer mais do que trouxe até agora para manter a narrativa flutuando.

Além disso, quer parecer que, em algum momento, o show precisará investir em efeitos visuais. Até agora, de forma muito elegante e eficiente, foi possível desviar dessa questão, minimizando a presença de computação gráfica. A música, a fotografia e as atuações da série mais do que compensam essa falta. Mas tudo tem um limite e esse limite será mais rapidamente alcançado com temporadas longas. Não prego por pirotecnia e efeitos vazios de conteúdo, mas temos que lembrar que temos o Diabo, uma “demônia”, um anjo (outro já morto e uma mencionada e que fatalmente – novamente com trocadilho – aparecerá) e a ex-esposa de Deus compondo o elenco, além de uma humana que sabe de todo o segredo. Como manter isso de forma contida para sempre?

Henderson terá que mostrar a que veio agora. Não falta muito para o hiato de metade de temporada e a adoção de duas meia-temporadas como nas duas séries citadas acima parece ser o caminho que comprovadamente dá certo. É torcer para que o showrunner saiba fechar seu primeiro arco em mais dois ou três episódios e tenha tempo para preparar o jogo para o segundo tempo sem que a série perca sua força. Ele ainda tem crédito considerando o que conseguiu até o momento, mas sabe como é aquele ditado sobre “gato escaldado”, não é mesmo? Talvez seja o caso de trazer Jeff Lieber mais vezes para o roteiro…

Lucifer – 2X08: Trip to Stabby Town (Idem, EUA – 14 de novembro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Nathan Hope
Roteiro: Jeff Lieber
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Tricia Helfer, Aimee Garcia
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.