Crítica | Lucifer – 2X10: Quid Pro Ho

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estrelas 4,5

Obs: Há spoilers. Leiam as críticas dos demais episódios, aqui.

Tendo sido ampliada para uma temporada de 22 episódios contra os 13 da inaugural, Lucifer chega ao midseason finale com um saldo positivo, mostrando que potencialmente tem fôlego para a extensão. Claro que qualquer série desse tamanho precisa de um cabresto bem ajustado para funcionar e Joe Henderson ainda tem um bom caminho pela frente para provar que realmente consegue, mas Quid Pro Ho definitivamente é um ótimo passo nessa direção.

Continuação direta de Homewrecker, o episódio amarra as pontas das narrativa anteriores e revela o sofisticado plano de “Charlotte” (usarei o nome sempre entre aspas, por razões óbvias) para forçar Lúcifer a voltar com ela e Amenadiel para o Paraíso e enfrentar seu ex-marido divino, logo desfazendo o cliffhanger bobo em que fomos deixados anteriormente. Isso inclui fazer curso expresso de Direito em duas noites (afinal, como é que os Humanos estudam durante anos essa trivialidade?) e defender o mandante da morte do pai de Chloe – o ex-diretor da prisão que vimos no episódio anterior – das acusações de assassinato que pairam sobre ele. Tudo para colocar Lúcifer contra a parede e forçar Chloe a encerrar sua relação com ele, chamando o Príncipe das Mentiras de, bem… mentiroso e ferindo seu orgulho ao mesmo tempo que sua única regra, a de nunca mentir.

O roteiro trabalha a trama de forma circular, sem revelar o plano antes do momento-chave, e abordando a noite de amor entre Dan e “Charlotte” como uma inteligente manipulação dela para obter informações e usando a própria afobação de Chloe contra seus interesses. Além disso, ele coloca Lúcifer, Dan e Maze em uma divertida investigação sobre a morte de Boris, a mais importante testemunha de acusação, que resulta em hilários diálogos de duplo sentido entre a trinca que culmina com a revelação da tórrida noite de sexo para um furioso Lúcifer seguida de uma surreal luta entre Maze e um soldado da máfia chinesa com duas enormes cimitarras. Em determinados pontos deste lado da história, o episódio caminha perigosamente na fronteira do pastelão, mas, de alguma forma quase inexplicável, o resultado final é mais do que satisfatório. Digo quase inexplicável, pois a explicação é óbvia e reflete aquilo que venho dizendo sobre a série desde o começo: ela consegue elevar-se acima de uma série sobrenatural procedimental normal pela excelente mistura de roteiros consistentemente bem escritos e atuações – notadamente de Tom Ellis – que estão à altura do texto.

Do lado do julgamento, Nathan Hope, que volta a dirigir um episódio da série depois do excelente Trip to Stabby Town, faz uma verdadeira sátira de outras séries e também filmes “de tribunal”, com Lúcifer encantando a juíza e o júri ao transformar a sala em seu palco para recriar as circunstâncias do crime. Mas, mostrando que não é só de brincadeiras que a série vive, quando a manipulação de “Charlotte” começa a funcionar, o tom que o diretor imprime com uma câmera mais parada e sóbria acompanha a narrativa de forma esplêndida, contrastando com as invencionices de poucos momentos antes.

Em meio a isso tudo, ainda há tempo para lidar com o relacionamento em frangalhos entre Amenadiel e Maze (novamente uma saudável mistura de semi-pastelão, com o carro dele explodindo, e seriedade), que leva o segundo anjo caído a procurar aconselhamento da Dra. Linda. E, mais uma vez, de forma circular, a sugestão pela doutora de que ele peça veementes desculpas à diabinha, acabando levando-o à uma epifania sobre a mãe de Chloe, que ele vê pela primeira vez. E, com isso, voltamos lá para trás, logo quando descobrimos que a ex-atriz e hoje policial e parceira de Lúcifer, tem efeitos sobre o Diabo, “mortalizando-o” quando está por perto. Isso já não vinha sendo abordado frontalmente há tempos e o reconhecimento de Penélope por Amenadiel parece estranho, quase inesperado.

Mas logo a “ficha cai” (em nós e nele) e finalmente o grande mistério da série é pelo menos parcialmente revelado: Chloe foi concebida por intervenção divina. Logicamente, porém, isso levanta mais um caminhão de perguntas e a primeira delas seria “que tipo exato de intervenção foi essa?”. Seria algo mais na linha das “puladas” de cerca que Zeus gostava de fazer lá pela Grécia, gerando semi-deuses e semi-deusas em cada plantação de oliveiras por que passava ou é algo menos, digamos, intrusivo? Afinal de contas, as implicações são muitas e Chloe pode ser até meia-irmã de Lúcifer e Amenadiel… Mas outra pergunta bastante razoável é: se não for traição divina, qual seria o interesse de Deus em fazer com que seu filho mais velho abençoasse a relação de Penélope e seu marido? O que está por trás disso tudo?

E não tem forma melhor do que fazer um cliffhanger do que permitir especulações mil pelos espectadores.  E isso Joe Henderson consegue com Quid Pro Ho e ao mesmo tempo mostra que realmente ainda há muita história a ser contada. Se isso justificará os nove episódios a mais desta temporada, só o tempo dirá. Até lá, só nos resta tentar descobrir quem ou o que é Chloe e o que isso pode significar para Lúcifer e companhia!

*Lucifer retorna dia 16 de janeiro de 2017.

Lucifer – 2X10: Quid Pro Ho (Idem, EUA – 28 de novembro de 2016)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Nathan Hope
Roteiro: Ildy Modrovich, Julia Fontana
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Scarlett Estevez, Rachael Harris, Tricia Helfer, Aimee Garcia
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.