Crítica | Lucifer – 3X07: Off the Record

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Vegas with Some Radish foi, em grande parte, um episódio filler de Lucifer que apenas acrescentou um pouco mais à história pregressa de Ella, lidando com seu vício em jogo, seu talento para contar cartas e, de quebra, criando um mistério interessante sobre as vozes que ela rapidamente menciona que ouve, somente para desconversar em seguida. Mesmo como um episódio apartado, porém, o resultado foi um dos melhores da série até agora. Off the Record vem logo em seguida como mais um filler que aborda o passado de uma personagem, só que de maneira bem diferente e original, mais uma vez mostrando que, em matéria de fillers, a série parece não desapontar de jeito algum.

O roteiro de Chris Rafferty e Mike Costa (baseado em história de Jen Graham Imada) é uma aula de como introduzir e desenvolver um novo personagem, inseri-lo retroativamente na série, em um excelente retcon, lidar com o passado de importante personagem fixo e, ainda por cima, reservar surpresas e mais surpresas ao espectador. O segredo do sucesso, aqui, começa com um texto enxuto, mas misterioso, que não se perde em didatismos inorgânicos e passa pela direção de Eduardo Sánchez que mostra controle absoluto sobre o material, com uma decupagem precisa, ajudada por uma montagem com personalidade que desnorteia o espectador somente quando esse é o objetivo, mas que, em retrospecto – esse é um daqueles episódios que vale ser visto novamente – é um primor de concatenação de raciocínio e de progressão narrativa.

Mas o recheio de Off the Record é mesmo a inspirada escalação de Patrick Fabian (o Howard Hamlin, de Better Call Saul) como Reese, um homem que acorda desnorteado em um hospital depois de quase morrer e que, em seguida, descobre que sua esposa vem traindo-o com ninguém menos do que o próprio Lúcifer. Reese (esse é seu nome, em uma atuação franca e transformativa do ator), então, vai tomar satisfações com o Diabo em sua boate Lux somente para ser influenciado pelo próprio Anjo Caído, que não sabe que ele é o alvo, a destruir seu oponente de forma bem mais completa.

Se a presente crítica não fosse com spoilers, eu teria que parar meus comentários sobre a trama exatamente neste ponto, pois tudo que se segue a isso é uma grande e engenhosa surpresa que vai sendo descortinada aos poucos ao longo do capítulo. Mas, como aqui a conversa é sem freios, não há razão para não continuar.

O genial do episódio é que ele não nos conta nada da maneira tradicional. Os roteiristas escondem a época em que o episódio se passa e usam pequenos trechos de diálogos aqui e ali para criar uma sensação incômoda no espectador, que começa a duvidar do que – ou de quando – exatamente está acontecendo. São pistas visuais aqui e ali e alguns momentos-chave guiados por diálogos que nos leva a entender que, na verdade, estamos no passado, não muito tempo depois do início da parceria de Lúcifer com Chloe na polícia. E essa é a primeira surpresa, pois, de certa forma, é quase como se estivéssemos assistindo um daqueles episódios comemorativos (o 100º, por exemplo!) de uma série longeva, em que são criadas condições para que façamos um passeio pelos seus principais eventos. Reese e sua obsessão com Lúcifer é o fio condutor que nos leva a passear por duas temporadas da série de maneira orgânica e inteligente.

Mas não demora e outras surpresas são amontoadas uma em cima da outra. A esposa de Reese é ninguém menos do que a Dra. Linda Martin, mas os dois já estavam separados – mas não divorciados no papel – quando ela tem um caso com o Diabo. Com isso, passamos a olhar um pouco para o passado da personagem que, realmente, era ainda uma incógnita na série, ainda que nunca tivesse havido uma razão muito específica para quaisquer grandes revelações. Esse descortinamento da vida pregressa de Linda não é, por si mesmo, algo que mudará o mundo, mas é bom ver os personagens coadjuvantes sendo trabalhados e aprofundados com cuidado e a introdução de Reese como o marido que ainda tem esperanças de reatar com sua esposa certamente é uma ótima forma de se fazer isso.

Elipses sucessivas vão desenvolvendo Reese que, de um brilhante repórter investigativo que usa sua profissão para cavocar a vida de Lúcifer, ele se transforma em uma casca depressiva que não tem outro objetivo que não destruir seu oponente, especialmente depois de descobrir sua verdadeira natureza. Com isso, a história consegue chegar até o presente, com Reese usando um serial killer para matar o Diabo quando ele deduz que Chloe é o calcanhar de Aquiles dele. A resolução desse lado da trama é, diria, especial. Nada de um final fácil que corre logo para a resolução com uma frase de efeito ou um soco bem dado. Ao contrário, no confronto verbal entre Reese e Lúcifer na cobertura deste último, ganhamos uma belíssima lição de teologia televisiva: não é o Coisa Ruim que manda as pessoas para o inferno, mas sim elas próprias e que as portas estão abertas para quem quiser sair. Aqui, vale um parênteses: Lucifer nunca foi uma série particularmente profunda, mas, quando descamba a filosofar, ela volta e meia nos presenteia com momentos inesquecíveis. Este é, sem dúvida, um deles.

A cereja nesse bolo, logicamente, é a surpresa final em que descobrimos que a história que acabamos de assistir faz parte do castigo eterno de um Reese aprisionado no Inferno, depois de morrer envenenado pelo serial killer que usara para efetivar sua vingança. Foram poucos os episódios que abordaram o ex-reino de Lúcifer, mas este foi de longe o melhor. Chega quase a ser desapontador concluir que Reese não voltará para a série… Ou será que volta, já que as portas do Inferno estão abertas?

Off the Record pode ser completamente solto da história principal, um verdadeiro e completo filler sem importância maior do que apenas revelar que, um dia, a Dra. Linda teve um marido. Mas, se o preço de se ter um episódio como este for que ele precisa ser um filler, então que venham outros!

Lucifer – 3X07: Off the Record (EUA – 13 de novembro de 2017)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner:  Joe Henderson
Direção: Eduardo Sánchez
Roteiro: Chris Rafferty, Mike Costa (baseado em história de Jen Graham Imada)
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Patrick Fabian, Rachael Harris
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.