Crítica | Lucifer – 3X08: Chloe Does Lucifer

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Você é uma cartola ou um sapato?

É com metáforas baseadas nas pecinhas originais do clássico Monopoly (ou Banco Imobiliário, como originalmente foi conhecido no Brasil) que Chloe Does Lucifer introduz sua narrativa particularmente relevante para os dias atuais, em que muitos mostram ao mundo, por  intermédio de redes sociais, uma imagem idealizada de si próprio. Trata-se do terceiro episódio solto seguido da temporada e o primeiro dos três a desapontar.

Talvez a sucessão dos ótimos Vegas with Some Radish e Off the Record tenham me deixado mal acostumado, mas, apesar da proposta fascinante, o mais recente episódio tenha parecido burocrático e pouco imaginativo demais ao colocar Lúcifer e Chloe às voltas com a morte de uma jovem antissocial que representa o “sapato”, enquanto sua colega de apartamento, que vive mostrando sua vida pseudo-glamourosa nas redes sociais, é considerada por Lúcifer como a cartola, assim como ele próprio, claro, se considera. Se Chloe Does Lucifer tiver o efeito de fazer as pessoas acordarem para a futilidade que é essa competição idiota de se mostrar mais do que seu vizinho ou de procurar os aplausos de seus “amigos” virtuais para praticamente tudo o que fazem, maravilha, ponto para o episódio.

No entanto, essa excelente crítica social é razoavelmente pouco explorada, com o episódio abrindo espaço para outras linhas narrativas. A primeira delas é o drama da Dra. Linda tentando lidar com o que ela não sente pela morte de seu ex-marido e deixando os efeitos de seu conhecimento sobre os mistérios divinos virem à tona novamente, levando Amenadiel a tentar ajudá-la em uma idílica sequência na praia que, ainda bem, não acabou em um completamente desnecessário beijo dos dois. O momento em si é bonito e permite um olhar mais a fundo sobre o embate interno da psicóloga, com uma ótima atuação de Rachael Harris que, impressionantemente, fica cada vez mais bonita, mas ele parece deslocado da trama central e, em última análise, pouco desenvolvido.

O outro espaço é para a volta de Tricia Helfer como Charlotte, depois de Welcome Back, Charlotte Richards, desta vez querendo aprender com Ella como é ser uma pessoa boa. Esse desenvolvimento é, talvez, o grande objetivo deste filler, pois, agora, o showrunner parece ter encontrado uma forma de integrar a personagem à trama de maneira mais orgânica, com seu novo trabalho na promotoria pública. A interação inusitada entre as personagens rendeu bons momentos levemente cômicos que também serviram para pronunciar um pouco mais o lado aparentemente místico da médica forense, com toda a sua detecção de “auras” e que parece combinar com o que aprendemos dela em Vegas with Some Radish.

Com essas outras duas histórias paralelas que tangenciam apenas brevemente com o caso da semana e, portanto, com a crítica social que emana dali, a tentativa de Chloe em personificar Lúcifer para a festinha do equivalente ao Tinder na série acaba fracassando. Afinal, a personagem já havia se mostrado mais do que capaz em inserir-se em cenários como esse para fazer seu trabalho investigativo. Sua hesitação, sua estabanação simplesmente não combinam com o que vimos antes na série e com o simples fato de ela já ter sido atriz.

Lúcifer, por outro lado, faz o que pode para roubar as cenas, desta vez com um paletó completo em uma cor que, confesso, não consigo identificar, mas que se parece com vinho ou vermelho ou algo do gênero, o que por si só automaticamente chama a atenção sem que ele precise pronunciar uma palavra sequer. O costumeiro charme de Tom Ellis funciona e suas decepções ao descobrir que não consegue de verdade diferenciar os “cartolas” dos “sapatos” e ele mesmo ser o exemplo de uma vida dupla, construída a partir de percepções de terceiros, fazem valer o episódio. Isso e, claro, a sempre divertida presença de Trixie na série, algo infelizmente cada vez mais raro.

Chloe Does Lucifer, apesar de não manter o nível alto de qualidade dos dois episódios “cartolas” que o antecederam, diverte e, principalmente, tenta nos fazer acordar para a nocividade do mundo dúplice que vemos muitos viverem por aí, o que  já é razão suficiente para apreciá-lo e não descartá-lo como um mero “sapato” velho. No entanto, realmente já está na hora da temporada voltar à linha narrativa macro, algo que parece que efetivamente já acontecerá no próximo capítulo.

Lucifer – 3X08: Chloe Does Lucifer (EUA – 20 de novembro de 2017)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Louis Milito
Roteiro: Julia Fontana
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.