Crítica | Lucifer – 3X10: The Sin Bin

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Depois de desapontar com The Sinnerman, episódio que prometia retornar de vez para o tema central da temporada, mas que acabou sendo uma colcha de retalhos mal costurada, Lucifer finalmente consegue voltar à forma, fazendo o que faz de melhor: usar o caso da semana como peça fundamental para avançar a mitologia. Desta vez, no lugar de um assassinato, temos o misterioso sequestro de uma patinadora que parece ter sido arranjado pelo próprio Sinnerman como forma de força a polícia a tirá-lo do encarceramento, mesmo que momentaneamente.

Esse pontapé inicial, que vem conjugado com um lembrete sobre a importância da prisão perpetrada por Marcus e Chloe no episódio anterior, nos leva a uma breve investigação sobre o paradeiro da moça, já que Pierce se recusa a aceitar a oferta do aparente vilão cego, de levá-los até onde a sequestrada está antes de ela morrer afogada em um reservatório. Lucifer, daquele seu jeito de sempre, tem certeza que o trabalho detetivesco não dará em lugar algum e imediatamente compra a chantagem de Sinnerman, para a profunda irritação de Chloe.

Com isso, o roteiro de Sheri Elwood nos diverte ao lidar com um apanhado de clichês policialescos sobre as pistas – verdadeiras e falsas – que são deixadas para trás por um assassino psicopata. Quem acompanha série e filmes do gênero identificarão diversos momentos arquetípicos que são “narrados” por Lúcifer daquele jeito arrogante dele que só falta dizer “eu te disse, eu te disse, mas eu te disse” repetidas vezes como na clássica animação Carangos e Motocas. Já aqui percebemos como a série tem a sofisticação necessária para ser uma auto-paródia sem parecer uma. Tom Ellis e seu nariz empinado, figurino impecável e fleuma britânica nos diverte e irrita com a mesma eficiência sempre que o roteiro, como é o caso aqui, permite.

Quando a investigação previsivelmente (e, aqui, vale notar que a previsibilidade é importante e esperada, não um ponto negativo) dá com os burros n’água, Elwood parte, então, para brincar com outro gênero, o de fuga de prisão, com toques de “filme de roubo” (ou  heist movie). A direção de Greg Beeman brilha nesse momento, com uma bela decupagem e uma montagem não-linear que dá conta do recado em poucos e eficientes minutos, mantendo a pegada de sofisticação que se tornou a marca da série. São momentos cômicos assim que, quando explorados pelo showrunner, resultam nos melhores momentos da série.

Mas o melhor é que, aquilo que parece apenas mais uma bobagem na série, ganha contornos mais interessantes quando começamos a perceber algo que, de certa forma, permeou a temporada desde seu começo, especialmente a partir da inclusão de Tom Welling no elenco logo no episódio inaugural. Sua chegada quase aleatória, mas sempre, de alguma forma, ligada ao Sinnerman, levantou suspeitas instantaneamente, mas que, ao longo do tempo, foram sendo soterradas pelo passo errático da temporada, incluindo o uso esparso do próprio Welling.

The Sin Bin, porém, não engasga. Apesar de conter uma narrativa paralela que envolve Dan, Chloe e sobretudo Trixie, demonstrando que a pequena Scarlett Estevez tem ótimo timing cômico, o episódio todo é dedicado ao Sinnerman, sem distrações irritantes e desnecessárias como no anterior. O embate entre Lúcifer e o vilão em sua magnífica casa nas montanhas é duro e deliciosamente corrompido quando o Diabo desenha olhos na atadura de seu oponente, ainda que a direção de Beeman faça uso de elipses para evitar – talvez acertadamente, talvez exageradamente – o uso  de violência gráfica diante das câmeras. Mas funciona, pois o ponto, aqui, é levar a narrativa ao clímax com a chegada decisiva de Pierce que liquida com o Sinnerman e reabre a porta para as suspeitas sobre ele próprio.

Confesso, porém, que talvez tivesse preferido a discrição ao final, sem a revelação de quem, afinal, é Marcus Pierce, pelo menos por mais algum tempo. Por outro lado, o epílogo na boate Lux foi muito bem executado. Depois que Lúcifer esfaqueia Pierce, que cai no chão e a câmera volta ao Anjo Caído bebendo seu uísque calmamente, um artifício básico é magistralmente usado: o tempo. No lugar de uma volta dos mortos imediata, somos deixados em dúvida por vários segundos além do normalmente esperado, levando-nos a achar que Lúcifer estava errado e que acabou efetivamente matando um humano como havia dado a entender que faria em sua  conversa com Maze. Ellis, aqui, passa a completa segurança e calma para seu personagem, mas deixando entrever uma leve dúvida, quase imperceptível.

Quando Pierce volta e Lúcifer o desmascara como Cain, aquele que matou Abel, o “primeiro assassino”, o lado divino que a temporada precisava voltar a ter reentra com força total. Será muito difícil os roteiros seguintes, por mais que estejamos ainda apenas um pouco além do primeiro terço da  temporada, ignorarem essa grande e inesperada revelação, pelo que ela representa para Lúcifer e pela introdução em si de mais um personagem bíblico.

The Sin Bin reúne as melhores qualidades da série em um episódio que avança certeiramente a trama principal. Agora é torcer para que a temporada não demore a desenvolver o papel de Cain nessa história.

*Lucifer entrará em breve hiato de final de ano, retornando dia 1º de janeiro.

Lucifer – 3X10: The Sin Bin (EUA – 11 de dezembro de 2017)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Greg Beeman
Roteiro: Sheri Elwood
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.