Crítica | Lucifer – 3X13: ‘Til Death Do Us Part

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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Bem, creio que, a essa altura do campeonato, estaria sendo mais realista que o rei se eu continuasse minhas reclamações sobre a natureza completamente episódica, de caso da semana, que Joe Henderson decidiu adotar de vez na série, depois de dar pistas, na temporada anterior, de que talvez minimizasse essa característica. Não há muito o que fazer a não ser torcer para que os episódios soltos – ou fillers – ofereçam uma boa experiência.

Afinal, depois do fraco All About Her, que não só era a volta da série para sua segunda metade, como também prometia um mergulho forte na mitologia estabelecida, as esperanças de que a história macro permanecesse interessante se foram. Portanto, é alvissareiro notar que, mais uma vez, Henderson acerta em cheio ao lidar com uma história apartada bem azeitada, assim como no divertido  Mr. & Mrs. Mazikeen Smith, o agradável Welcome Back, Charlotte Richards e os ótimos Vegas with Some RadishOff the Record.

‘Til Death Do Us Part usa um inusitado caso da semana, em que uma mulher é encontrada – assim como em Fargo – em pedaços dentro de um moedor de madeira, para colocar o tenente Pierce que, na verdade, é Caim (aquele que matou Abel) fazendo par com Lúcifer na constante tentativa do Diabo em descobrir como matar o primeiro assassino do mundo e quebrar a maldição de Deus que o impede de morrer, obrigando-o vagar para sempre pela Terra. Mas quando eu digo “fazer par”, não quero dizer da forma usual da expressão, mas sim, efetivamente, casados, ou aparentemente casados, como parte de um disfarce para descobrir quem cometeu o assassinato.

Os dois Toms vestidos como o estereotípico casal gay, com direito a moletom pendurado no pescoço, uma impecável camisa polo rosa e cabelo engomado e discutindo sobre coisas absurdamente triviais como a distância entre o molho e a torrada em uma mesa tiram ótimas gargalhadas do espectador, especialmente considerando que Welling mantém o jeito calado e irritado de seu tenente Pierce que de forma alguma consegue entregar-se ao que as aparências exigem, exatamente o contrário de Ellis, claro, que se transforma completamente. O roteiro de Mike Costa, sem dúvida, não é o mais original do mundo, mas ele permite essa inusitada interação que convence e mostra novamente boa química entre os atores da forma “good cop, bad cop” de ser.

Fora desse núcleo com os dois em sua casa imaculada em subúrbio de Los Angeles, há, ainda, Maze e sua misteriosa tara por Charlotte, levando também a ótimos e embaraçosos momentos entre as duas e das duas com Dan em um jantar que era para ser romântico. Em outras palavras, ‘Til Death Do Us Part é o episódio que trabalha o constrangimento como artifício para contar uma história cômica que realmente funciona.

E Costa ainda tem tempo de inserir uma sequência de “luta em corredor” que, creio, só está ali para dar uma leve cutucada na marca registrada das séries Marvel/Netflix. Lucifer entrando triunfalmente no quartel general do coreano traficante de drogas é exagerada ao extremo e a direção de Sherwin Shilati só amplifica essa sensação com o uso quase caricato de plongées e de câmeras lentas que enfatizam o quase surrealismo do momento e que, por incrível que pareça, combina bem com toda a estrutura amalucada do episódio.

O resultado final dessa sucessão de momentos bizarros é um episódio que diverte constantemente e não deixa o ritmo cair quase nunca. As exceções ficam por conta dos momentos investigativos iniciais e nas incursões de Chloe na história que parecem deslocadas e supérfluas. O grande show, claro, é mesmo quando os dois pombinhos recém-casados discutem a relação divina entre eles em metáforas de relacionamento gay em meio aos vizinhos horrorizados, mas com direito a um beijo surpresa de pazes ao final. É quase como se estivéssemos vendo uma sitcom, faltando apenas as gargalhadas da plateia, mas a estratégia funciona muito mais eficientemente do que o marasmo que foi o episódio anterior.

A conclusão é que, se é para Lucifer viver de caso da semana, então que eles sejam assim: espirituosos e bem construídos, com roteiro esperto e uma pegada que não abre mão daquela sofisticação brega que sempre marcou a série. Se, por acaso, Henderson voltar à história principal, que pelo menos ela não atrapalhe os fillers divertidos!

Lucifer – 3X13: ‘Till Death Do Us Part (EUA – 29 de janeiro de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Sherwin Shilati
Roteiro:  Mike Costa
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.