Crítica | Lucifer – 3X16 / 3X17: Infernal Guinea Pig / Let Pinhead Sing!

3X16: Infernal Guinea Pig

3X17: Let Pinhead Sing!

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Depois de High School Poppycock, um quase-filler, Lucifer volta com Infernal Guinea Pig, episódio que lida direta e quase exclusivamente com a mitologia desta temporada, ou seja, a relação do Diabo com Caim – ou o tenente Marcus Pierce -, o primeiro assassino do mundo e marcado por Deus por seu crime, que o obriga a vagar pela eternidade sem morrer. Seguindo a deixa do finalzinho do capítulo anterior, que parecia que levaria a série ao inusitado caminho da viagem no tempo, o que temos é algo bem diferente.

A epifania que Lúcifer tem ao dançar com Chloe não mexe com a estrutura central do que foi construído até aqui, o que talvez fosse ousado demais para a série. Mesmo assim, a alternativa é igualmente intrigante e divertida: Lúcifer decide trazer de volta ninguém menos do que Abel do Inferno (porque sim, ele está lá) estabelecendo, pela lógica que, se ele está vivo, então não houve o assassinato primordial e, portanto, a marca de Caim desapareceria e ele, então, poderia morrer. Não é necessário mais do que um centésimo de segundo para notarmos o furo evidente nessa lógica do anjo caído, já que trazer de volta Abel de forma alguma teria o condão de desfazer a ação de Caim.

Para apreciar o roteiro de Jenn Kao e Julia Fontana, porém, é necessário que aceitemos essa premissa, até porque sua execução é muito bem bolada, ainda que breve demais e mal-aproveitada. Afinal, Lúcifer é bem sucedido em trazer Abel de volta, mas, no lugar de inserir sua alma no corpo de um velhinho que acabara de falecer, ele erra e coloca Abel no corpo de Bree Garland (Lauren Lapkus), assistente de uma produtora que sofre um atentado a bomba. A troca de gênero funciona como um brincadeira leve e Lapkus mostra muita desenvoltura fazendo o papel de um homem cafajeste no corpo de uma mulher.

E, mais do que isso, o roteiro nos apresenta uma noção óbvia, mas que provavelmente ninguém nunca pensou antes: se Abel foi para o Inferno, então quer dizer que ele foi o primeiro visitante do reino de Lúcifer, servindo, assim, como a tal “cobaia infernal” do título, com sua alma servindo de test drive para Maze e seus companheiros de profissão no aperfeiçoamento da arte da tortura. É ou não é um conceito fascinante?

É uma pena, portanto, que toda essa narrativa seja objeto de apenas um episódio, o que obriga uma certa correria e a tomada de alguns atalhos convenientes demais para permitir que tudo seja resolvido em meros 44 minutos. Joe Henderson tinha ouro aqui para desenvolver em um mini-arco de dois ou três episódios, mas ele preferiu desperdiçar a oportunidade com algo efêmero demais que se livra de Abel ao final, ainda que de maneira tragicamente engraçada.

De toda forma, os poucos momentos que temos com Lauren Lapkus se divertindo como Abel merecem todos os destaques, assim como sua conexão com Amenadiel e seu irmão Caim. O caso da semana é inclusive abafado e reduzido a pequenos excertos aqui e ali justamente para dar espaço para essas interações, mas, mesmo com esse cuidado, o resultado final é por demais tímido para efetivamente tirar o episódio da altura do sarrafo do “bom, mas não muito mais do que isso”.

Fora desse eixo, não só vemos a continuação do tratamento de Charlotte pela Dra. Linda como também e, principalmente, o desenrolar do triângulo entre esta última, Amenadiel e Maze, em um surpreendente arco que se protrai no tempo bem mais do que o comum na série. Aliás, é esse mesmo arco que continua sendo fortemente abordado no episódio seguinte – Let Pinhead Sing! – e cuja resolução não parece estar tão próxima assim. É ótimo ver uma subtrama da temporada ganhar esse tipo de destaque e evolução, o que permite maior exploração dos talentos de D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt e Rachael Harris fora da mitologia central.

O capítulo em si, aliás, lida com o assassinato da substituta de Axara, uma egoísta diva pop vivida por Skye Townsend, cantora, atriz e filha de Robert Townsend, produtor e diretor de Hollywood. O alvo, claro, era Axara e a dupla Chloe/Lúcifer parte para investigar o caso da maneira usual. A diferença, aqui, é que, tendo consultado a Dra. Linda, Lúcifer chegou a uma daquelas suas conclusões apressadas e estapafúrdias: ele acha que deve passar a menosprezar Chloe, retirando-a do centro de suas atenções, já que, em Infernal Guinea Pig, ele a vê passar perto da morte mais uma vez, sofrendo no processo.

O resultado é um roteiro muito mão-pesada de Ildy Modrovich e Sheri Elwood que simplesmente não tem ritmo e transforma o protagonista em um insuportável sujeito que não para de fazer e falar besteira quase que durante a integralidade do episódio. Esse artifício, vale dizer, já é useiro e vezeiro na série e certamente, portanto, ninguém o achará estranho ou fora de lugar. A grande verdade, porém, é que talvez já esteja na hora de eliminar ou pelo menos reduzir drasticamente esse tipo de comportamento de Lúcifer. Estamos na 3ª temporada da série e repetir fórmulas usadas continuamente desde a primeira, sem oferecer algo novo, uma abordagem diferente, é muita preguiça dos roteiristas e, principalmente, do showrunner.

O que impede que Let Pinhead Sing! seja uma completa perda de tempo é algo que não víamos há muito tempo na temporada: um número musical. Aqui, Lúcifer faz um divertido – mas curto – dueto forçado com Axara em sua boate, cantando “I Will Survive“, de Gloria Gaynor. Tanto Tom Ellis quanto Townsend funcionam muito bem, com boas vozes e uma química teatral invejável. Um belo momento em um episódio não mais do que apenas mediano.

Se Infernal Guinea Pig tem uma ótima premissa espremida em pouco tempo, Let Pinhead Sing! é o exato oposto: pouco acontecendo durante tempo demais. É essa falta de equilíbrio que, acima de tudo, precisa ser corrigida em Lucifer, o que poderia dar à série – e especificamente a esta temporada – uma jornada mais homogênea e equilibrada. Do jeito que está, sem dúvida o saldo é positivo ainda, mas um positivo com pouco entusiasmo, daqueles assim que não geram muita ansiedade pelo que está está por vir.

Lucifer – 3X16 / 3X17: Infernal Guinea Pig / Let Pinhead Sing! (EUA – 05 e 12 de março de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Eagle Egilsson (3X16), Alrick Riley (3X17)
Roteiro: Jenn Kao & Julia Fontana (3X16), Ildy Modrovich & Sheri Elwood (3X17)
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez
Duração: 44 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.