Crítica | Lucifer – 3X20: The Angel of San Bernardino

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Em Orange is the New Maze, a gota d’água no relacionamento de Lúcifer e Maze se deu quando o Diabo recusou o pedido dela de devolvê-la ao Inferno. Pierce, vendo oportunidade, arregimentou a demônia para seu lado, em um plano que ainda não havia ficado claro, mas que certamente tinha alguma relação com Chloe. Era o que parecia ser o começo de um potencialmente interessante arco final para a cambaleante temporada.

Mas The Angel of San Bernardino, que marca a volta da série depois de um hiato de três semanas, coloca a proverbial carroça na frente dos bois e atropela a narrativa que deveria ser cadenciada para praticamente encerrar pelo menos a parte mais “carnuda” do arco com um episódio que não só já revela a traição de Maze para Lúcifer, como, também, o tal plano misterioso de Caim ou, pelo menos, nos dá um vislumbre do que ele seria. E, assim como começou, tudo parece acabar, deixando Chloe arrasada por perder Pierce que, no último segundo, se arrepende de usá-la como ferramenta em seu estratagema para enganar Deus e, enfim, morrer.

Mesmo que vejamos mais nuances do que o tenente imortal tentou em episódios vindouros, tenho para mim que tudo girava em torno de fazer alguém apaixonar-se perdidamente por ele, o que apagaria sua marca, permitindo-o morrer. Se for isso – e só posso julgar este episódio em particular com base no que foi mostrado, não no que porventura esteja por vir -, a simplicidade da resolução de seu problema milenar pareceu-me absurdamente simplista. E, por “absurdamente”, quero dizer isso mesmo: um absurdo sem pé nem cabeça e sem lógica interna alguma.

Afinal, como acreditar que, nesse tempo todo vagando pela Terra, algo semelhante não aconteceu antes. Ah, uma explicação é que isso só funcionaria se ele conseguisse seduzir um ser celestial como Chloe e não uma pessoa qualquer. Essa invencionice teria total sentido se ela não fosse literalmente tirada do nada, sem que sequer uma pista dessa circunstância especial tivesse sido deixada em algum lugar ao longo dos intermináveis episódios anteriores, muitos deles usados como meros fillers, no lugar de desenvolver uma história desse naipe. Quer dizer que, como em um conto de fadas, bastava que Pierce encontrasse seu verdadeiro amor? Visualizem-me, primeiro, revirando os olhos e, depois, fazendo força para ficar acordado vendo o episódio…

Novamente reforço um aspecto importante. Pode ser que, nos quatro episódios finais da temporada, essa aleatoriedade da história seja explicada e faça sentido. Pode ser que sejamos apresentados a uma trama angelical que costure bem o enredo da temporada e que torne The Angels of San Bernardino um episódio que, se visto em conjunto com os demais, faça completo sentido. Pode ser que Joe Henderson consiga criar uma história celestial que tire esse gosto ruim que o episódio apressado e corrido deixou. “Pode ser” é a expressão-chave aqui e é um “pode ser” que não me deixa nada seguro, considerando os sérios problemas que a terceira temporada de Lucifer vem tendo.

Claro que é marginalmente divertido ver Lúcifer privar-se do sono, por achar que ele se tornou o sonâmbulo alado salvador do título do episódio. Tom Ellis perdendo sua fleuma britânica e mergulhando na esbórnia por uma semana somente para ressurgir com profundas olheiras e cabelos desgrenhados é, sem dúvida alguma, engraçado e ajuda a mostrar a qualidade de sua atuação. No entanto, já chegamos a um ponto em que só ser pontualmente “divertido” ou “engraçado” não é mais suficiente. A temporada precisa de algo mais para fixar-se como entretenimento de qualidade, nem que seja uma volta à forma sofisticada antiga, com direito a números musicais bem pensados e momentos realmente emocionantes, mesmo que independentes da história macro. É necessário mais Off the Record e menos Let Pinhead Sing!, mais ‘Til Death Do Us Part e menos The Angel of San Bernardino.

Lucifer vem trafegando entre alguns momentos muito bons e vários medíocres. Tenho certeza de que, na ponta do lápis, o saldo será positivo no final dos 24 episódios, mas também tenho certeza de que, se a estirada final não cortejar mais fortemente o primeiro grupo, a terceira temporada será completamente esquecível.

Lucifer – 3X20: The Angel of San Bernardino (EUA – 16 de abril de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Tara Nicole Weyr
Roteiro: Jason Ning
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.