Crítica | Lucifer – 3X21: Anything Pierce Can Do I Can Do Better

A Nota Desanimada e de Má-Vontade

A Nota Técnica e Verdadeira

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Quando Anything Pierce Can Do I Can Do Better acabou, senti-me profundamente desanimado. Por mais que já tivesse feito as pazes com a estrutura de “caso da semana” da série, constatar que nem mesmo para abordar com mais detalhes e cuidado a trama principal o showrunner se desprende desse vício é triste e, talvez mais do que isso, enraivecedor. Nem por um mísero episódio podemos deixar de ter um assassinato cuja resolução coincidentemente passa pelo mesmo tipo de assunto objeto do dilema presente de Lúcifer, seja ele qual for, o que torna tudo muito cansativo e repetitivo, com o enorme sub-aproveitamento de um elenco que, se nasceu bom na 1ª temporada da série, hoje parece estar no automático, até mesmo o usualmente excelente Tom Ellis.

É, basicamente, como escutar um disco arranhado (para quem se lembra disso, lógico), com a mesma história sendo contada uma vez, duas vezes, três vezes, 25 vezes até esgotar o assunto e, pior, sem apresentar soluções criativas e diferenciadas como já tivemos várias vezes na série, o mais recente exemplo tendo isso o genial Off the Record. Fica evidente a razão: a expansão da série dos originais 13 episódios, para os atuais 24 que transformaram a estrutura procedimental em um verdadeiro suplício que não leva a lugar nenhum na maioria das vezes e que cria subtramas bobalhonas que, ou não são exploradas de verdade ou são resolvidas com um estalar de dedos. Infelizmente, Lucifer parece ser a mais recente vítima da maldição da velha estrutura antiga de se fazer séries que, como já tive a oportunidade de abordar aqui, só se justifica hoje em dia quando há showrunners por trás que realmente querem assumir o risco de tentar algo realmente diferenciado e, mesmo assim, com reservas.

Vejam só o caso do episódio sob análise. Aqui, não só o desinteressante caso da semana paraleliza dolorosamente as dúvidas de Lúcifer sobre declarar-se ou não para Chloe, como ele tira o espaço para que o triângulo amoroso ultrapassa os limites de um casinho de amor típico de novela das oito ou de séries como Barrados no Baile e coisas desse naipe. É o lema básico: vamos simplificar o máximo possível, pois nosso público deve ser bem limitado e não vai entender se não nivelarmos tudo por baixo e criarmos momentos para jovens perdidos suspirarem e torcerem por algum amor não correspondido. E que fique claro logo de uma vez que não há mal nenhum nisso, mas SE e apenas SE os roteiros e a estrutura narrativa usassem o clichê, o lugar-comum como uma alavanca para bons diálogos, bons desfechos, boa atuação do elenco. Mas a grande verdade é que Joe Henderson não quer transformar o trivial em algo bacana e bem feito. Ele só quer fazer o trivial na maioria das vezes, deixando quem espera de Lúcifer mais do que uma bobagem simplória completamente na mão.

O denominador comum, aqui, é a disputa amorosa de Pierce e Lúcifer por Chloe, com o primeiro percebendo que não quer morrer, já que está verdadeiramente apaixonado pela moça e, o segundo, mantendo-se em constante negação, algo que é rigorosamente igual desde o primeiro episódio da 1ª temporada. Mas o pior de tudo é que Anything Pierce Can Do I Can Do Better nem é um episódio tecnicamente ruim. Ele consegue flutuar ligeiramente acima do medíocre (se houve uma nota 2,75 estrelas eu daria), já que o mistério angelical sobre o “poder do amor” funciona em seu nível mais básico, algo que é amplificado pela reação que equilibra o profissional e o pessoal da Dra. Linda e, paralelamente, a investigação sobre o passado do tenente como o Sinnerman por Amenadiel e Charlotte que parece ganhar algo para fazer que não seja ficar resmungando pelos cantos. Até mesmo a virada rebelde de Maze que, aparentemente, tem um plano próprio agora, está bem encaixada no episódio.

Mas falta algo. Falta o diferencial. Falta alguma coisa que efetivamente justifique 24 episódios que correm atrás do próprio rabo como aquele vira-lata de beco. Aquela sofisticação que existia na série foi sendo diluída, foi sendo perdida ao longo do caminho e o charme de Lúcifer foi banalizado ao extremo, com o personagem sendo convertido em um chato de galochas que só sabe falar besteira e interromper as investigações com as ideias mais imbecis. Toda a trama divina foi, junto com o charme da série, para o proverbial ralo, perdida entre uma asinha aqui e uma menção a Deus ali, com algumas diabruras no meio.

Ou seja, Lucifer está perdendo completamente o gás. Chega ao ponto de eu estar realmente feliz que só faltam mais três episódios para a temporada acabar. Quem sabe não chegou a hora de a série toda acabar junto, hein?

Lucifer – 3X21: Anything Pierce Can Do I Can Do Better (EUA – 23 de abril de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Jim Vickers
Roteiro: Alex Katsnelson
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.