Crítica | Lucifer – 3X23: Quintessential Deckerstar

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Chega a ser irônico e, sinceramente, triste que um dos melhores episódios de toda a série até agora venha na semana em que a Fox anunciou que Lucifer não será renovada. Não foi uma decisão inesperada tanto pela fúria ceifadora do estúdio que passou a espada em mais séries do que o normal para abrir espaço na grade para os recém-adquiridos direitos sobre o Thursday Night Football, privilegiando as obras de sua propriedade (Lucifer é da Warner), quanto pela queda vertiginosa da qualidade da série em si, com seguidos episódios que requentaram tramas e cambavam de um lado a outro sem realmente impulsionar a narrativa macro.

Mas são episódios com Quintessential Deckerstar que lembram aos mais ferrenhos fãs do verdadeiro potencial da série baseada no personagem criado por Neil Gaiman. Afinal, nele, vemos a perfeita fusão da sofisticação que sempre marcou as ações do protagonista, com o caso da semana e, claro, com o lado divino da história, este último tão maltratado e tão esquecido nesta derradeira temporada. Não sei como será o fim efetivo, mas teria sido perfeito se o final da série fosse com este episódio que, mesmo não amarrando todas as pontas, encerra satisfatoriamente os arcos de Lúcifer e Chloe e de Amenadiel e Charlotte, além de, indiretamente, o de Dan.

No capítulo, o tenente Pierce torna-se mais uma vez o principal antagonista, depois de posar de bom moço por grande parte dos episódios anteriores. Rejeitado por Chloe, seu desejo de vingança volta enlouquecidamente ao ponto de literalmente transformá-lo em um vilão de 007, com direito a quartel-general no subsolo com monitores para a observação da vida na delegacia e planos mirabolantes, juntamente com Maze, para matar Amenadiel e colocar a culpa em Lúcifer, tudo para ganhar a Marca de Caim de volta e permitir a volta da demônia ao Inferno. É nessa virada instantânea e na forma como Pierce é enquadrado que o episódio perde seu vigor e torna-se cartunesco ao extremo, mesmo considerando o clímax em que Charlotte morre mais uma vez, desta vez salvando a vida do segundo anjo caído.

Mas, se conseguirmos ultrapassar esse artifício narrativo para transformar Pierce completamente, o episódio funciona maravilhosamente bem a partir da premissa de que Lúcifer quer que tudo volta a ser como era antes, literalmente tentando reencenar momentos marcantes da relação entre ele e Chloe nos momentos mais inconvenientes possíveis (como sempre), tudo para continuar fugindo de ter que encarar os fatos e revelar o que sente de verdade pela detetive. Com isso, o episódio passeia por boas sequências pretéritas da série, sacudindo a poeira de nossa nostalgia por uma “época mais simples” entre os protagonistas e acaba aquecendo corações. E, claro, apesar de todo o esforço do Diabo, ele finalmente cede e os dois se beijam em um terno momento logo interrompido por uma terrível notícia.

Essa terrível notícia, claro, é a valente morte de Charlotte, que vem depois de que ela se acerta romanticamente com Dan e finalmente vê que ela não é assim tão egoísta quanto achava que era graças ao caso da semana que remonta ao começo de sua carreira como advogada e um abusivo e assassino astro aposentado do beisebol, depois que sua esposa aparece morta. A costura do caso da semana, aliás, é mais um ponto alto, como mencionei no começo da presente crítica, inclusive por ser um assunto realmente relevante, com uma trama genuinamente interessante com a participação especial de Doug Savant, de Desperate Housewives.

Quando o clímax vem, ele é perfeitamente natural, pois encerra com chave de ouro o ciclo da bela advogada, agora promotora pública, além de, ao mesmo tempo, lidar com as dúvidas existenciais de Amenadiel, com seu sofrimento verdadeiro servindo como sua redenção e a volta de suas belas asas negras e a ascensão ao Paraíso com a alma de Charlotte no colo. Em termos de narrativa cíclica, vemos um grande exemplo diante de nossos olhos, algo que poderia – deveria! – ser o mote da série como um todo e não apenas de alguns episódios aqui e ali.

Com todas as peças muito bem encaixadas, resta torcer para que o derradeiro episódio, mesmo obviamente deixando as inevitáveis pontas soltas, já que o cancelamento veio de certa forma inesperadamente, sem dar tempo de se produzir um desfecho, não deixe também um gosto amargo. Quintessencial Deckerstar é bom demais como encerramento para ele sofrer com um epílogo fraco. Que pelo menos em seu final, Lucifer acabe com uma nota alta, digna dessa jornada incrivelmente terrena desse ser divino.

Lucifer – 3X23: Quintessential Deckerstar (EUA – 07 de maio de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Claudia Yarmy
Roteiro: Ildy Modrovich
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez, Doug Savant
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.