Crítica | Lucifer – 3X24: A Devil of My Word

Episódio

Temporada

Série como um todo

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Prezado Sr. Joe Henderson:

Você começou capitaneando Lucifer muito bem, com uma primeira temporada de apenas 13 episódios que estabeleceu a estrutura principal da série como um procedural policial com toques sobrenaturais que bebia de longe da criação de Neil Gaiman, depois desenvolvida por Mike Carey em festejada série solo. Com uma atmosfera sofisticada, os episódios da temporada inaugural tiraram o melhor do charme de Tom Ellis no papel-título, mantendo um passo cadenciado, apesar de nem sempre fenomenal, provavelmente em razão das restrições narrativas do formato.

Depois, não sei se por imposição da Fox, da Warner ou sua própria, Lucifer passou, na segunda temporada, a ter o tamanho de uma série normal de televisão aberta americana, ou seja, os odiosos 20 e tantos episódios, ainda que, por razões que me fogem à memória no momento, os quatro últimos tenham sido transportados para a terceira temporada que, então, disseram no começo, teria perigosos 26 episódios, mas que foram reduzidos para 24 ao final. Mas voltando, apesar dos 18 capítulos da segunda temporada, a inclusão de Tricia Helfer no elenco como a esposa de Deus e mãe de Lúcifer e Amenadiel foi uma escolha inspirada que manteve o interesse por quase todo o tempo, ainda que as velhas “barrigas” trazidas por episódios-tampão tenham passado a ser bem mais sensíveis, com foco demasiado nos casos da semana e uma economia enorme em efeitos especiais, que se tornaram raros como diamantes na praia.

Finalmente, quando você conseguiu a renovação dessa improvável e outrora gostosa série por mais uma temporada, as coisas começaram a realmente desandar. Lúcifer – o personagem – estagnou-se completamente em termos de desenvolvimento, tornando-se mais chato do que charmoso ou divertido e a introdução do Tom Welling, o ex-Superboy, agora inchado por doses cavalares de Whey Protein e seja lá o que mais o ator resolveu tomar para ter um braço gordo (não musculoso) do tamanho de minha coxa, demorou demais a realmente funcionar, com uma enorme hesitação em firmá-lo como vilão ou mocinho. Com isso, houve uma oscilação muito grande na qualidade dos episódios e uma repetição temática infindável e, convenhamos, cansativa.

Sim, é verdade que a temporada começou prometendo mundos e fundos em They’re Back Aren’t Day?, mas, já com The One With the Baby Carrot, a gangorra descontrolada da qualidade começou a ser a regra, pois Mr. & Mrs. Mazikeen Smith saiu um pouco do formato e já divertiu bem mais, sendo seguindo pelo não mais do que levemente acima do mediano What Would Lucifer Do?, por sua vez seguido por Welcome Back, Charlotte Richards, que nos levou à reintrodução da personagem de Helfer na série, só que desta vez sem ser possuída pela Deusa e também sem memória do ocorrido. Depois, foi a vez de uma dobradinha imbatível formada por Vegas with Some Radish e o sensacional Off the Record, reacendendo a esperança da manutenção mais constante da qualidade e do charme que sempre marcou a série. Mas não foi o que aconteceu, pois Chloe Does Lucifer voltou ao “padrão” da temporada, com o fraco The Sinnerman marcando o ponto mais baixo até aquele momento, mas sendo compensado pelo ótimo The Sin Bin, carregado da mitologia principal. Sem perder tempo, porém, você nos trouxe City of Angels? que veio para normalizar tudo novamente, com All About Her marcando outro ponto baixo na série.

A essa altura do campeonato, uma coisa havia ficado bem clara: o andar de caranguejo da temporada, avançando um passo para dar dois para trás ou ficar em uma mesmice típica de série de TV aberta dos EUA, ou seja, repetindo ad nauseam uma fórmula simplista. Mas volta e meia vinha uma diversão, como foi o caso de ‘Til Death Do Us Part, em que Lucifer e Pierce tiveram que fazer as vezes de um casal gay. My Brother’s Keeper, High School Poppycock e Infernal Guinea Pig, este último introduzindo e se livrando de Abel reencarnado (Sr. Henderson, para que essa velocidade toda em se livrar do personagem?), mantiveram o interesse pela série aceso, ainda que sem epifanias. Let Pinhead Sing!, porém, a jogou para baixo novamente, com The Last Heartbreak e Orange is the New Maze subindo o nível mais uma vez, em uma montanha-russa de qualidade difícil de aturar ou de detectar algum tipo de padrão.

No entanto, o esgotamento da série se deu mesmo em The Angel of San Bernardino, que foi acompanhado dos fracos Anything Pierce Can Do I Can Do Better e All Hands on Decker. Nesse ponto, a série havia perdido sua força completamente, em um vai-e-vem cansativo que, quando parecia acertar em algo, errava de novo logo em seguida. Mas o mais irritante, Sr. Henderson, é que não houve episódios terríveis de verdade, apenas vários fracos e alguns bons, que mantinham a série em um viés leve de queda ou de uma estabilidade medíocre, que simplesmente não trazia empolgação. O triângulo amoroso de Pierce, Chloe e Lúcifer, no lugar de esquentar as coisas, as esfriaram pela indecisão sobre o caminho a ser tomado e pela extrema hesitação em abraçar o lado sobrenatural e divino da série, além do esquecimento daquela fleuma e sofisticação que tanto marcou as primeiras temporadas. Os belos números musicais tornaram-se coisas do passado.

Com a notícia do cancelamento da série, porém, veio uma surpresa tardia: o penúltimo episódio, Quintessential Deckerstar, finalmente apontou um caminho que deveria ter sido trilhado muito antes e resultou em um dos melhores episódios de toda a temporada. Uma ironia do destino, sem dúvida alguma.

E, finalmente, quase como sal na ferida, A Devil of My Word, o derradeiro capítulo, vem literalmente confirmar todo esse potencial desperdiçado da temporada ao colocar o lado sobrenatural da história no centro das atenções, afastando toda hesitação, todo o andar “caranguejal” que vimos ao longo dos 22 episódios anteriores. Partindo diretamente dos eventos de Quintessencial Deckerstar, acompanhamos Lúcifer, Chloe, Dan e Ella fazendo de tudo para desmascarar Pierce como o Sinnerman, depois que Dan descobre que o assassino bíblico era um dos alvos de investigações de Charlotte, elemento que se encaixa muito bem com o plano dela com Amenadiel um pouco mais cedo na temporada com o objetivo de separar Chloe de Pierce.

Nessa empreitada, a ação não para e as “metáforas” de Lúcifer são abordadas por Chloe diretamente, que suplica para que ele leve o caso e ela a sério e pare de usá-las. Em torno disso tudo, há a bela conclusão de que Deus não tem absolutamente nada a ver com os atos de suas criações, sejam homens ou anjos e que cada um é aquilo que acha que é. A mensagem aqui é muito bem trabalhada por seu roteiro, caro Sr. Henderson, ainda que seja didaticamente repetida bem mais vezes do que o necessário, um padrão na série e, justiça seja feita, em praticamente toda série de TV aberta, que tem um público mais amplo e variado, que precisa ser levado pela mão.

Quando o Sr. transformou a morte de Charlotte no próprio “caso da semana”, sem penduricalhos para distrair o público com baboseiras, tudo ficou muito enxuto e dinâmico, mantendo a quadra central focada em diálogos relevantes, sem aquelas intromissões insuportáveis da versão mais recente de Lúcifer, que voltou a ser um bobalhão, talvez seu maior erro ao longo de seu comando da série. Pela janela foram as frases de efeito para entrarem, triunfalmente – e, finalmente! – os efeitos especiais, com a ação no mausoléu de Pierce um belo exemplo do que a série deveria ter sido de maneira mais constante. Se o problema era o orçamento para o CGI necessário, teria sido melhor cortar episódios para permitir mais sequências de ação, nem que fossem em doses homeopáticas espalhadas aqui e ali.

E, claro, finalmente, a descoberta, por Chloe, de que Lúcifer realmente nunca mentira. Aqui, Sr. Henderson, está seu segundo maior pecado. No lugar de fazer o cachorro correr atrás do rabo, o Sr. devia ter introduzido essa noção mais cedo, abrindo as cortinas para mil possibilidades diferentes. Afinal, a série já vinha pedindo há muito tempo que esse mistério acabasse de vez, nem que outro qualquer fosse introduzido.

Confesso que, no final das contas, não sentirei particulares saudades de sua série, pois ela realmente chegou a esgotar minha paciência. Claro, ficarei para sempre curioso para saber sobre o que o futuro reservaria para o casal principal, mas conseguirei viver muito bem apenas com a revelação final e com a memorável cena de ação que fecha a série. Por outro lado, sei que o cancelamento da série já deixou órfãos muitos fãs e, como deveria ser o padrão em situações como essa, pelo menos um ou dois episódios a mais deveriam ser produzidos para trazer algum tipo de encerramento narrativo. No mínimo, no mínimo, a produtora deveria soltar nem que fosse uma HQ para fechar a história. Mas sei que isso não é culpa sua.

Em resumo, caro Sr. Henderson, Lucifer não se vai por nada. Muitos erros seguidos mantiveram a temporada naquele limite entre o medíocre e o bom, com alguns altos muito altos que, em meio a 24 episódios, acabaram perdidos, levando a uma audiência claudicante que, no ano em que a Fox adquiriu os direitos do Thursday Night Football, passando a precisar abrir espaço em sua grade de horários e, com isso, privilegiando séries próprias, sua Lucifer foi a vítima mais óbvia. Uma pena, mas desejo-lhe sorte em futura empreitada, inclusive a eventual volta da série em outro canal, algo que, apesar de não fazer questão pessoalmente, sei que agradaria um bocado de gente que se afeiçoou incondicionalmente ao charmoso Diabo.

Atenciosamente,
Ritter Fan.

Lucifer – 3X24: A Devil of My Word (EUA – 14 de maio de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Eagle Egilsson
Roteiro: Joe Henderson
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez, Doug Savant
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.