Crítica | Lucifer – Episódios Bônus: Boo Normal / Once Upon a Time

Boo Normal

Once Upon a Time

Lucifer foi cancelada ao final de sua terceira temporada em razão da combinação de baixa audiência com a aquisição, pela Fox, do direitos de transmissão do Thursday Night Football, que exigiu que a emissora abrisse espaço em sua grade, focando nas produções cuja propriedade era dela, o que não é o caso da série baseada em criação de Neil Gaiman. Com isso, os fãs acabaram com um imenso cliffhanger em A Devil of My Word que finalmente revelava a natureza demoníaca do personagem-título para Chloe.

No entanto, a segunda temporada teve quatro de seus episódios transferidos para a seguinte que, por sua vez, chegou a ser anunciada como excepcionalmente tendo 26 episódios. Nessa confusão toda, dois episódios acabaram “sobrando”, já que a terceira temporada ficou mesmo com “apenas” 24. E, depois do cancelamento, a Fox resolveu levá-los ao ar, o que acabou acontecendo na forma de Episódios Bônus indo ao ar no dia 28 de maio de 2018.

E o mais irônico é constatar que são dois ótimos episódios, que poderiam muito bem ter ido ao ar no lugar de quaisquer outros mais fracos da temporada, o que talvez – apenas talvez – tivesse alterado o quadro geral de apatia que se abateu sobre a série. Ainda há um movimento online para salvar a série, mas, até o momento de publicação da presente crítica, nada de concreto havia acontecido.

No primeiro dos episódios bônus, Boo Normal, temos a conclusão do mistério sobre as vozes que Ella disse que ouvia em Vegas with Some Radish e que jamais foram mencionadas novamente ao longo da temporada, para irritação geral de muita gente. O roteiro, escrito por Jen Graham Imada, é praticamente dedicado a essa questão, usando como catalisador um telefonema que Ella recebe de sua família e que a faz decidir voltar para Detroit, sua cidade natal, apesar de amar Los Angeles e seus colegas de trabalho. Do nada, uma nova personagem é introduzida, Rae-Rae (Charlyne Yi), primeiro como uma amiga de infância de Ella, mas que, não demora, começamos a ver que ela é mais – ou menos, não sei – do que isso.

O texto de Imada faz o melhor proveito possível da natureza “louquinha” de Ella e mantém o espectador na dúvida praticamente o tempo todo em relação à verdadeira natureza de Rae-Rae, oscilando entre amiga imaginária e fantasma, até que ela se revela como ninguém menos do que Azrael, irmã de Lúcifer e Amenadiel. Com isso, há uma bela costura entre a personagem mais desgarrada do núcleo da série com o lado sobrenatural e divino da história, já que, conforme aprendemos, foi Azrael que colocou Ella no caminho de Lúcifer de forma que suas “duas pessoas favoritas” se ajudassem mutuamente.

O episódio é também uma ótima oportunidade para Aimee Garcia mostrar seu potencial dramático, já que a atriz não teve muitas oportunidades do gênero ao longo das temporadas. Não é que ela consiga fazer diferente de seu papel histriônico mais simpático em Boo Normal. Ela continua fazendo sua Ella da forma como ela deve ser, mas, aqui, ela ganha mais tempo e, com isso, faz mais do que apenas caras e bocas ou piadas constrangedoras. Sua personagem é o verdadeiro foco e Garcia tira bom proveito disso, evitando exageros e mantendo todo seu charme inocente. A única dúvida que fica é se Azrael seria usada novamente mais para a frente ou seria descartada como Abel foi em Infernal Guinea Pig.

Once Upon a Time, por sua vez, é desconectado do arco principal, mesmo considerando que é o próprio Deus, com a voz de ninguém menos do que o próprio Neil Gaiman, que narra o episódio. Trata-se de um “o que aconteceria se…” que lida com uma realidade alternativa em que John Decker (Louis Herthum), pai de Chloe, não morre, jamais levando sua filha a trilhar seus passos de policial. Com isso, Decker ainda é uma atriz, agora de grande renome, famosa por viver a policial Bonnie Gennaro em uma franquia cinematográfica. A proposta de Deus é simples: será que mesmo que ele não tivesse colocado Chloe no caminho de Lúcifer os dois se conheceriam?

A resposta, claro, é um grande sim, obviamente, e a execução do episódio lida com o assassino do dublê amigo de Chloe na boate Lux. A reunião da atriz, fingindo que é policial de verdade, com Lúcifer interessado em limpar o nome de sua propriedade, pois quer expandir seus negócios para Las Vegas, é imediata e segue exatamente a mesma estrutura de praticamente todos os episódios da série, com os dois tomando gosto pela investigação. A exceção, claro, fica pelo estranhamento natural entre os dois que logo leva a uma ligação natural.

Orbitando o casal central vemos as versões alternativas de todos os demais personagens da série, com exceção do Tenente Pierce: a Dra. Linda é a psicóloga de Decker que apresenta um programa de TV sobre o assunto de seu trabalho, Charlotte Richards nunca foi tomada pela Deusa e é a advogada corrupta de Lúcifer que quer furtá-lo, Detetive Douche é só Dan mesmo e entregou-se de peito aberto à corrupção, Amenadiel ainda não tem qualquer ligação mais forte com seu irmão e Ella é uma ladra de automóveis que conhece Lúcifer no submundo. As caracterizações são, todas elas, exageradas e até forçadas por vezes, já que são personagens demais para episódio de menos, mas, no final das contas, realidades alternativas são sempre divertidas e esta aqui não é uma exceção.

Logicamente, o episódio é, sob qualquer ótica, um grande filler, mas um de qualidade próxima a Off the Record que, aliás, trata mais ou menos do mesmo assunto, o que deve ter justificado a “remessa” de Once Upon a Time para uma vindoura temporada que nunca virá (ou, pelo menos, não parece que virá). Vale, porém, pela curiosidade do envolvimento de Gaiman e pela revelação sobre quem exatamente é o pai de Chloe, tão falado, mas nunca visto.

Assim como os dois últimos episódios da terceira temporada, os dois episódios bônus mostram o verdadeiro potencial desperdiçado de Lucifer. Chega a ser doloroso ver esse nível de qualidade vir tão tardiamente. Mas fica a esperança de um dia ressuscitarem o diabo, talvez com uma pegada mais econômica em número de episódios e com um pouco mais de ousadia.

Lucifer – Episódios Bônus: Boo Normal e Once Upon a Time (EUA – 28 de maio de 2018)
Desenvolvimento: Tom Kapinos (baseado em personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith e Mike Dringenberg)
Showrunner: Joe Henderson
Direção: Lisa Demaine (Boo Normal), Kevin Alejandro (Once Upon a Time)
Roteiro:Jen Graham Imada (Boo Normal), Ricardo Lopez Jr., Ildy Modrovich, Joe Henderson (Once Upon a Time)
Elenco principal: Tom Ellis, Lauren German, Kevin Alejandro, D.B. Woodside, Lesley-Ann Brandt, Rachael Harris, Aimee Garcia, Tom Welling, Tricia Helfer, Kevin Carroll, Scarlett Estevez, Doug Savant, Charlyne Yi, Neil Gaiman, Louis Herthum
Duração: 44 min. (cada episódio)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.