Crítica | Lucky (2017)

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Lucky (2017) é oficialmente definido como “uma carta de amor à vida e à carreira de Harry Dean Stanton”. Dirigido por John Carroll Lynch, a obra acompanha um homem de 90 anos apelidado de “Lucky”. O motivo deste apelido nos é informado em momento avançado da fita, em uma das cenas mais tocantes e relevantes para a obra, em diversas camadas, vindo de uma história sobre a relação de uma criança budista que sorria para a morte, uma história de quase-confissão entre dois velhos soldados que lutaram na II Guerra Mundial, refletindo sobre o passado, sobre as mortes que viram e causaram, sobre o horror no qual estiveram envolvidos… tudo isso em oposição ao momento atual de suas vidas.

Em Lucky, Stanton vive um homem ateu que tem uma rotina bastante monótona, mas que parece lhe dar grande prazer. Em certa medida o filme nos lembra Paterson, de Jim Jarmush, filme com a mesma base dramática de “encontrar poesia, beleza e felicidade no nada”, realizado na temporada anterior. Mas aqui há um elemento filosófico, nostálgico e até de despedida em evidência, ressaltado pelo fato de o protagonista ter falecido, aos 91 anos, no mesmo mês em que o filme estreou oficialmente nos cinemas americanos. A carta de amor à vida e à carreira do ator, o reencontro com pessoas com quem já tinha trabalhado antes, a temática da velhice e a inevitável chegada da morte são características do roteiro fortalecidas por esta despedida real.

Os encontros de Lucky em um pequeno café da cidade onde mora, o carinho que as pessoas têm por ele, a ida ao principal bar local para tomar um Blood Marry todas as noites, as conversas sobre o passado e sobre novas descobertas, as dúvidas e disputas como “Realismo é uma coisa”, “qual é o problema com a minha saúde? Eu vou morrer?”, “você acendeu o cigarro e por isso foi banido!” ou até mesmo a obsessão do personagem por palavras-cruzadas, que ele resolve todos os dias, são colocadas em cena e fazem com que o público se aproxime destas pessoas, simpatize com a maioria delas e veja com olhos muito simpáticas o cotidiano de Lucky. Muito curiosamente, dado o tema da velhice e o fato de o personagem cair em uma cena, o filme sugere algo trágico e o espectador espera por isto por muito tempo, mas é surpreendido com um sorriso de bravura para o qual não existem medalhas.

Ao longo da projeção, o roteiro procura colocar novos lugares, encontros e situações-surpresa na vida de Lucky, fazendo com que seus dias sejam marcados por problemas ou situações diferentes, como o anúncio de um amigo do bar (interpretado por David Lynch, com quem Stanton trabalhara pouco tempo antes em Twin Peaks: The Return) de que seu jabuti, o Presidente Roosevelt, fugira; ou como a chegada de um advogado com quem Lucky antipatiza imediatamente; ou como a bela mariachi que ele canta em uma festa de aniversário… Temos a impressão de que momentos de incerteza estão ligados a novos encontros e fortalecimento de laços em sua vida. E como ele não é agressivamente arredio, como o velho protagonista quase nas mesmas condições em Mr. Pig (2016), sua presença nesses diferentes cenários sempre nos dá a impressão de “últimos encontros”.

No primeiro dia em que vemos Lucky acordar e se arrumar para sair temos uma excelente sequência de pequenos takes. Os ângulos um tanto imprevisíveis nos indicam um personagem diferente e a montagem acertada nesses primeiros minutos faz com que o tempo da sequência tenha um forte caráter realista. É como vermos um velho artista se preparar para um show e, em certo sentido, era exatamente isto o que acontecia ali.

Durante todo o tempo, o diretor de fotografia procurou manter uma atmosfera convidativa, adicionando filtros e até pontos de luz externas e/ou distantes para fazer com que um cenário tivesse ao mesmo tempo uma aparência de “lugar de cidade pequena” e fosse visualmente aconchegante. Os figurinos que misturam várias épocas de moda também têm um papel importante nessa construção, dizendo muito mais sobre o local do que sobre os próprios personagens.

Infelizmente há algumas cenas que se perdem nesta jornada cotidiana. A explicação para o quê/quem o personagem gritava “vadias!” parece alheia à própria piada, assim como a cena em que uma forte luz vermelha banha um espaço ao lado do bar de Elaine (Beth Grant), sugerindo algo que quebra a suposta alegria de um casal, mas dentro de um ambiente onde o julgamento não parece ser o forte das pessoas, o que torna a cena bastante deslocada.

No cerne de seu tema, o filme acerta em cheio e nos deixa com uma calorosa sensação de completude. Temos a sensação de ver uma jornada de vida inteira, mas foram apenas alguns dias na vida de um nonagenário. Diante de ótimas atuações, trilha sonora bem utilizada (embora com um pouco menos de identidade dramática do que deveria) e um tema que toca e importa a todos, Lucky fala sobre o fim da vida, mas dá muito mais a entender sobre permanências, legado, laços e paz de espírito. A mesma paz que vemos no rosto e sorriso honesto que Harry Dean Stanton dá para uma câmera de um longa-metragem pela última vez, na penúltima cena do filme.

Lucky (EUA, 2017)
Direção: John Carroll Lynch
Roteiro: Logan Sparks, Drago Sumonja
Elenco: Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston, Ed Begley Jr., Tom Skerritt, Beth Grant, James Darren, Barry Shabaka Henley, Yvonne Huff, Hugo Armstrong, Bertila Damas, Ana Mercedes, Sarah Cook, Amy Claire, Ulysses Olmedo
Duração: 88 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.