Crítica | Lucy

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estrelas 3

Uma pessoa normal usa 10% de sua capacidade cerebral. Ela vai atingir 100%. Através de tal simples premissa, Luc Besson constrói sua mais nova ficção científica. Admitindo, desde o princípio, em entrevistas, que essa teoria é errônea, o diretor já pede uma suspensão de descrença do espectador, que automaticamente remete a um de seus melhores e mais famosos trabalhos, Quinto Elemento. A ousadia empregada na obra, contudo, a distancia dessa sua outra produção e acaba prejudicando o próprio filme, que se beneficiaria de uma maior simplicidade.

Mas Lucy não começa na loucura que vemos nos minutos finais. Jogados de imediato em uma trama dinâmica, Besson logo nos apresenta à sua protagonista que dá nome ao longa metragem. Vivida por Scarlet Johansson, Lucy é uma jovem normal, que, neste momento inicial, discute com um atual caso amoroso. Este pede a ela que entregue uma maleta misteriosa no hotel logo a frente. Após negar repetidas vezes, contudo, o homem algema as mãos da garota à mala. Não é preciso dizer que nada de bom vem de tal ação e logo Lucy se vê metida no tráfico de uma nova substância, organizada pelo ameaçador sr. Jang (Min-Sik Choi), que facilmente nos lembra, graças a sua explosiva psicose, a Stansfield, o personagem de Gary Oldman em O Profissional.

À mercê de Jang, Lucy tem essa droga desconhecida inserida em seu estômago. O saco, porém, se rompe, liberando uma overdose do produto na corrente sanguínea da moça, que então, passa a ter sua capacidade cerebral aumentada. A partir de tal ponto assistimos a odisseia da protagonista não só se acostumando com suas crescentes novas habilidades, como decidindo o que fará com elas. Besson, sabiamente, evita o óbvio, adentrando, sem medo, na ficção científica e consegue nos surpreender a cada sequência, não sendo apenas uma repetição do longa de mesma premissa, Sem Limites, estrelado por Bradley Cooper. O ritmo dinâmico da obra é, porém, constantemente quebrado pela intercalação com cenas focadas no Professor Norman (Morgan Freeman), que, longe dali, apresenta uma palestra sobre as possibilidades do uso do cérebro. O filme procura realizar constantes paralelos entre esses dois focos narrativos e Freeman, como de costume, consegue nos cativar com sua sincera interpretação. No fim, porém, temos cenas que acabam pecando, mais de uma vez, pelo excesso de explicações.

Misturada a essa constante troca de perspectiva ainda temos alguns esparsos inserts que, imediatamente, nos lembram a Ninfomaníaca vol. 1, mas que acabam sendo pouco utilizados e definitivamente não se encaixam dentro da proposta da obra. Apenas uma delas, de fato, conta com um efetivo valor narrativo. Neste ponto, contudo, entramos no maior deslize da empreitada de Besson: querer ser algo mais que uma ficção científica de boa premissa. Refiro-me à tentativa de entrar no terreno metafísico, que acaba destoando do restante da obra, fazendo-se presente somente nos minutos finais da projeção, resultando em uma evidente quebra de imersão no espectador, que passa a se perguntar como os eventos escalaram para tal patamar.

Se lembrarmos mais uma vez de O Quinto Elemento, Luc adota um pretexto similar, colocando Leeloo como algo mais que uma simples pessoa. Tal abordagem mais existencial dessa outra obra, contudo, se encaixa no restante do contexto, sendo trabalhada, sutilmente com o passar dos minutos. No caso de Lucy, apesar da similaridade da retratação da protagonista com aquela vivida por Milla Jovovich, temos uma completa mudança de tom, que passa de um thriller, com uma tensão bem construída, para algo que beira, se não extrapola, para o surrealismo. Através desse defeito temos um encerramento que não só foge aos padrões, como se prova ineficaz, complexo e “fácil demais”.

Perante tais deslizes, porém, ainda temos dois destaques que nos mantém presos à narrativa. A primeira é a fotografia de Thierry Arbogast, que acompanha o diretor desde Nikita, conseguindo, através de seus constantes closes, retratar o melhor da interpretação de Scarlet, que definitivamente convence no papel. O outro ponto é a trilha atmosférica de Eric Serra, também acostumado com Besson. Através de melodias que facilmente captam o tom desejado pela obra temos nossa atenção redobrada, mesmo nos momentos mais inusitados da projeção.

Dito isso, Lucy, definitivamente não se categoriza como um desastre completo, está muito longe disso. Apesar de tentar atingir mais do que deveria, Luc Besson consegue nos manter presos à sua história, trazendo uma distinta tensão, tão característica de suas outras obras mais marcantes. Não é o melhor de suas empreitadas, mas definitivamente é um filme de sua autoria.

Lucy (idem – França, 2014)
Direção:
Luc Besson
Roteiro:
Luc Besson
Elenco:
Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk, Analeigh Tipton, Nicolas Phongpheth.
Duração:
89 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.