Crítica | Lugares Escuros

estrelas 3,5

Com o sucesso estrondoso de público e crítica de Garota Exemplar, dirigido por David Fincher e que rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Rosamund Pike, não iria demorar muito para que alguém vasculhasse as outras obras literárias da escritora Gillian Flynn e uma nova adaptação chegasse às telonas. Vendido como “Da autora de Garota Exemplar”, Lugares Escuros chega aos cinemas sem muito alarde.

Charlize Theron vive a protagonista Libby Day, uma mulher que ficou famosa por sobreviver a um massacre dentro de sua própria casa, quando ainda era criança. Perdeu a mãe e duas irmãs na tragédia, e viu seu irmão Ben ser acusado e preso como principal suspeito do crime, por conta de seu envolvimento com rituais satânicos. Mais de vinte anos depois, Libby é forçada a revisitar seu passado quando um homem lhe apresenta um clube amador de investigação, que insiste em ajudá-la a descobrir a verdade sobre a atrocidade que dizimou praticamente toda a sua família.

“Eu tenho uma maldade dentro de mim, tão real quanto um órgão.” diz Libby. Será mesmo?

Lidar com Lugares Escuros depois do estrondoso Garota Exemplar pode ser um pouco delicado. Se você é fã, assim como eu, do filme de Fincher e da história criada por Flynn, sugiro que vá com calma. Gilles Paquet-Brenner, que dirige Lugares, não é David Fincher. O roteiro de Garota Exemplar foi assinado pela própria autora do livro, o de Lugares Escuros não. Essa nova adaptação é bem mais despretensiosa, mais pipoca; e já que a comparação é praticamente inevitável, levar esses fatos em consideração podem ajudar a lidar com a expectativa, assim como me ajudaram.

Gilles Paquet-Brenner (A Chave de Sarah) constrói bem o suspense e a trama de Lugares Escuros. Rapidamente, somos sugados para dentro da vida e dos traumas de Libby, uma mulher abalada e com grande dificuldade de socialização. Interpretada pela sempre excelente Charlize Theron, linda de cabelo curto e boné, Libby é uma personagem que, nas mãos erradas, poderia não cativar o espectador, mas a atriz faz sua protagonista funcionar com competência, no tom certo.

Infelizmente, depois de um começo promissor, Lugares Escuros acaba não se desenvolvendo suficientemente, o que faz com que seu potencial seja subaproveitado. A investigação do massacre da família de Libby, que envolve rituais satânicos, adolescentes desajustados, drogas, problemas familiares, muitos sacríficios e uma possível prisão injusta (ou seja, tem-se muito o que trabalhar aqui), acaba se resumindo às típicas conversas com as pessoas do passado relembrando a fatídica noite e flashbacks que vão se conectando com os acontecimentos atuais, numa montagem marota que tenta dar alguma personalidade, em vão. Depois de estabelecer muito bem seu mistério, o filme estagna e destoa da empolgação inicial.

O elenco que acompanha Charlize – que conta com nomes como Christina Hendricks, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz e Corey Stoll – é competente, mas Brenner não consegue transpassar o material de Flynn através deles como deveria. Lugares Escuros é uma história de culpa e muito, mas muito sacríficio. É decepcionante ver que alguns personagens não têm o destaque que mereciam e, mais ainda, ver que a performance necessária não foi devidamente extraída de seus intérpretes. São em pontos como esse que um David Fincher acaba fazendo falta. E um roteiro de Gillian Flynn também.

O que fica, ao fim do filme, é uma inevitável sensação de passo para trás se compararmos as duas adaptações cinematográficas da escritora. Em contrapartida, se pararmos para pensar que o livro Lugares Escuros foi escrito antes de Garota Exemplar, é nitidamente perceptível a evolução de Flynn, no geral. Por fim, a recomendação maior é que o espectador assista a Lugares Escuros como um simples suspense corriqueiro, evitando, assim, frustração e decepção.

Lugares Escuros (Dark Places) – EUA, 2015
Direção: Gilles Paquet-Brenner
Roteiro: Gilles Paquet-Brenner (baseado no livro de Gillian Flynn)
Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Christina Hendricks, Corey Stoll, Andrea Roth, Tye Sheridan
Duração: 113 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira