Crítica | Luke Cage – 2ª Temporada

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“Você quer me usar? Vai ter que alugar.”

A segunda temporada de Luke Cage fala muito mais da luta de poder entre gangues rivais do que do super-poder de seu protagonista. No Harlem, o grandalhão é mais uma peça em movimento, tentando bloquear atividades criminosas de todos os lado possíveis. O único diferencial é a sua pele à prova de balas. Pela primeira temporada, e agora pela segunda também, o espectador é integrado a uma criminalidade enraizada na organização social de uma comunidade, enquanto Luke Cage (Mike Colter), o Herói do Harlem, luta para não sucumbir a raiva crescente dentro do seu peito e de seu punho. Dessa vez, a chegada de uma ameaça externa, porém, é que movimentará de vez o tabuleiro, possibilitando que fantasmas do passado ressurjam e que o futuro torne-se cada vez mais cinza, muito menos preto no branco. Um novo xerife chegou na cidade. Ele tira selfies, manda recados abusados, esconde sua presença com um capuz e é indestrutível. Nessa segunda temporada, Luke Cage protagoniza uma virada interessantíssima em seu status quo. A ambiguidade tratada no roteiro é um dos pontos altos de um seriado que, contudo, falha na execução e não na idealização.

Primeiramente, a extensão da narrativa por longos treze episódios é, novamente, exageradíssima. A temporada, na realidade, empolga verdadeiramente apenas em seus últimos, que apresentam cada vez mais acontecimentos relevantes. Dessa forma, a motivação do vilão Bushmaster (Mustafa Shakir) torna-se redundante e, pior, acaba caindo para um lado cômico despropositado. A correção constante do nome de Mariah Dillard (Alfre Woodard), que tem suas raízes atreladas ao sobrenome Stokes, um título presente nas entranhas do Harlem há muito tempo, é mais um vício do que qualquer outra coisa, causando um efeito humorístico prejudicial à série. Apesar disso, Mustafa Shakir tem bastante presença, causando medo no espectador ao mesmo tempo que é carismático, sem dever muita coisa ao excelente Boca de Algodão, interpretado por Mahershala Ali na primeira temporada, embora a redundância certamente seja um obstáculo entre um antagonista e outro. Aliás, as melhores cenas de lutas, que, em sua maioria, não apresentam grandes diferenciais, evidenciando-se como genéricas, são possibilitadas pela presença do personagem, do ator e de seu dublê, capazes de proporcionar acrobacias empolgantes.

Paralelamente a exploração repetitiva do antagonista principal, Mariah Dillard, paulatinamente, apresenta-se como uma antagonista ainda mais sinistra, que tem uma relação estritamente complexa com Luke Cage. O mais interessante do arco da personagem é como suas ações vão criando uma bola de neve gigantesca, que dificilmente será impedida a tempo que as boas intenções decorrentes de questionáveis ações sejam colocadas em prática. A caminhada de Mariah Dillard para Mariah Stokes é muito mais natural do que artificial, embora exista a luta interna da personagem, em um primeiro momento, para não evidenciar o passado de sua família. Para isso, ainda entra em cena a personagem de sua filha, Tilda Johnson (Gabrielle Dennis), que complica o jogo ao nos fazer entender o passado de Mariah, perturbador, cheio de camadas. Quando Luke Cage contracena com Mariah, o seriado realça uma idealização profunda de quem cada um dos personagens é, além do que eles podem vir a ser, criando uma armadilha sagaz para que o Herói do Harlem vire uma espécie de Herói de Aluguel, lutando para não sucumbir ao jogo inerente àquele espaço. A discussão da segunda temporada da série é justamente essa: o fim é o que realmente importa?

Sendo assim, o arco de Mariah é o mais importante de todos, impulsionando inúmeros efeitos para a série como um todo, além de impactar casos individuais, particulares de sub-tramas próprias, como é a situação atrelada a relação da personagem com Shades (Theo Rossi), uma grata surpresa dessa temporada. Ambos os atores, Rossi e Woodard, quando juntos em cena, conseguem, surpreendentemente, intensificar a performance um do outro, embora Woodard seja um destaque à parte, o maior carro-chefe da série em termos interpretativos. Por exemplo, na descoberta da morte de um determinado personagem, a atriz exprime um choque extremamente verdadeiro e doloroso. O mesmo pode ser dito da sutileza com que um dos capangas de Bushmaster, já pelo final da temporada, tenta revelar, ao personagem, um incidente tenebroso que aconteceu. Ademais, o vínculo de John McIver, o Bushmaster, com a sua família, com as raízes jamaicanas que possui, é compreendido, apesar da série cambalear, algumas vezes, para um estereótipo, repetindo inúmeras vezes, por exemplo, que Luke Cage não pode ser mais rápido que Usain Bolt. A piada vai além e, com a reiteração incansável, torna-se galhofa, às vezes prejudicial para o tom da série.

Entretanto, no centro de tudo isso, sendo a fonte pulsante da série, Luke Cage compartilha o seu protagonismo com Misty Knight (Simone Missick), que agora também possui um braço mecânico sensacional. Os dois enfrentam pesadelos parecidos, relacionados com a linha moral que seguem: o que é certo e o que é errado. As lembranças de Scarfe são fortes na cabeça de Misty, mas esse desenvolvimento, esse estudo de personagem, é atropelado pelos acontecimentos da série. A temporada, aliás, é pessimamente costurada com os seus personagens coadjuvantes, que somem, abruptamente ou não, mas acabam sendo, invariavelmente, esquecidos no final das contas, quando poderiam ter impactado mais a temporada com um desenvolvimento circular da narrativa. No caso de Misty, Nandi Tyler (Antonique Smith) surge como uma rival na delegacia, uma rixa completamente descartável. Já pelo lado de Tom Ridenhour (Peter Jay Fernandez), pouquíssimo é abordado sobre o personagem, vinculado surpreendentemente à Mariah, apesar de mostrar-se desinteressante pela temporada. Ridenhour, enfim, até é um personagem notável, embora irrite o espectador pelo fato de seu papel na narrativa repetir a função de chefe que impede o funcionário de seguir suas intuições, sendo uma barreira para a progressão da história.

Da mesma forma, o super-herói que é o cerne disso tudo também tem um círculo de amizades sem coesão, como é o caso da aparição do Punho de Ferro (Finn Jones), completamente aleatória, apesar de render excelentes momentos. Por que Danny Rand aparece para ajudar Luke em determinada situação e na próxima, ainda mais complicada, ele some? Infelizmente, Luke Cage também aproveita para dar cabo do peso da presença de Claire Temple (Rosario Dawson), jogada para escanteio, mas, ao menos, por razões críveis. O mesmo pode ser dito do pai de Luke, James Lucas. O seu intérprete, Reg E. Cathey, faleceu no início do ano, nos fazendo entender o porquê do personagem sumir de cena repentinamente. Os bons momentos de pai e filho definitivamente irão tornar a participação do personagem eterna, embora curtíssima. Por fim, ao embalar cada episódio com um número musical específico, situado no Harlem’s Paradise, Cheo Hodari Coker permite que Luke Cage tenha uma ginga própria. Contudo, para que a série torne o que, no papel, ela poderia realmente ser, um trabalho mais bem resolvido da história que os realizadores estão interessados em contar é necessário, possibilitando que a narrativa flua, empolgue e não extasie o espectador, cansado das redundâncias, ansioso pelo desfecho.

Luke Cage – 2ª Temporada (EUA, 2018)
Showrunner: Cheo Hodari Coker
Direção: Lucy Liu, Steph Green, Marc Jobst,  Salli Richardson-Whitfield, Kasi Lemmons, Millicent Shelton, Neema Barnette, Rashaad Ernesto Green, Clark Johnson, Andy Goddard, Evarado Gout, Stephen Surjik, Alex Garcia Lopez
Roteiro: Cheo Hodari Coker, Akela Cooper, Matt Owens, Matthew Lopes, Ian Stokes, Aïda Mashaka Croal, Nicole Mirante Matthews, Nathan Louis Jackson
Elenco: Mike Colter, Simone Missick, Theo Rossi, Gabrielle Dennis, Mustafa Shakir, Jessica Henwick, Finn Jones, Stephen Rider, Alfre Woodard, Reg E. Cathey, Rosario Dawson, Ron Cephas Jones, Thomas Q. Jones, Antonique Smith, Jeremiah Richard Craft, Chaz Lamar Sheperd, Peter Jay Fernandez
Duração: 13 episódios, com média de 50 min. cada

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.