Crítica | Luke Cage e Punho de Ferro (Power Man and Iron Fist) #50 a 55 (1978 – 1979)

Luke Cage e Punho de Ferro ou, no original, Power Man and Iron Fist, foi a quarta e última vez que o título solo de Luke Cage, que começou como Luke Cage, Herói de Aluguel, em 1972, foi renomeado, mas sem que a publicação tivesse a numeração zerada. Assim o #50 é, na verdade, o primeiro número da dupla, já que, nos últimos dois números de Power Man (#48 e #49), Cage conhece o Punho de Ferro e os dois vivem a primeira aventura juntos. Essa alteração no status quo do personagem – que, na prática, perderia seu título solo – tinha como objetivo, na verdade, salvar tanto um quanto outro personagem, uma vez que as vendas das respectivas histórias solo estavam em queda com o fim da moda dos filmes blaxploitation e de artes marciais.

Nascia, assim, uma inusitada parceria que, da sua própria maneira, fez história na Marvel Comics e até hoje é citada como uma das melhores duplas da editora, tendo sido revivida em 2016. As críticas abaixo, assim, são para os cinco primeiros números da publicação rebatizada, com comentários e avaliações separadas para cada edição, com exceção dos números 51, 52 e 53, que formam um arco narrativo só e, portanto, foram abordados em conjunto.

estrelas 3,5

Luke Cage e Punho de Ferro #50 (abril de 1978)
Redenção (Freedom!)

power_man_iron_fist_50_capa_plano_criticoDecorrendo diretamente dos eventos do mini-arco de Luke Cage (Power Man) #48 e #49, o número começa com uma festa na cobertura do advogado Jeryn Hogarth (cuja versão feminina, vivida por Carrie-Ann Moss, aparece na 1ª temporada de Jessica Jones) em comemoração à anulação da condenação de Luke Cage por tráfico de drogas que o levou à prisão Seagate onde ganhou seus poderes. Um homem livre, Cage mal tem tempo para se adaptar quando a festa é interrompida pelo ataque da dupla vilanesca Estilete e Discus, filhos do generoso diretor Stuart, o único que tratara Cage bem durante sua estada na penitenciária.

O objetivo dos dois é matar Cage, por considerá-lo um criminoso que só está livre por uma “tecnicalidade”. Tudo, claro, é só uma desculpa para a pancadaria comer solta por 10 das 18 páginas da edição, pancadaria essa que conta ainda com Punho de Ferro, Misty Knight e Colleen Wing. Em termos de roteiro, Chris Claremont escreve o que se convencionaria chamar de jump in point, ou seja, uma edição que o leitor que não acompanhou os 49 números anteriores da série pode pegar, ler e entender praticamente tudo sobre os dois heróis. Temos um pouco da origem de Cage, algo sobre a extensão dos poderes dele e de Punho de Ferro e a relação dos dois com Knight e Wing em uma história coesa e carregada de ação que não exagera do grau de super-poderes dos personagens, aproximando-os mais de um nível “humano”. Com isso, o roteirista – que já vinha trabalhando com os dois heróis há algum tempo em seus respectivos títulos – apresenta um título introdutório sem pesar a mão em textos expositivos ou em diálogos parados, sem dinâmica.

A arte é ainda de John Byrne, o que significa muita fluidez dramática, muita acrobacia e traços que equilibram muito bem corpos musculosos com perfis esguios, algo essencial especialmente para Punho de Ferro que não é um brutamontes como Cage e precisa de consideravelmente mais elasticidade para funcionar no papel. Diferenciando muito bem os estilos de cada um, Byrne estabelece o padrão pelo qual a dupla seria desenhada dali para a frente.

estrelas 2

Luke Cage e Punho de Ferro #51 a #53 (junho, agosto e outubro de 1978)
Uma Noite no Harlem (A Night on the Town)
Máquinas Assassinas (A Nod is as Good as a Wink to a Dead Super-Hero…!)
Um Mergulho para a Morte (Death-Plunge!)

A segunda história da dupla é um arco composto de três números de Luke Cage e Punho de Ferro, conhecido como Trilogia da Sombra da Noite. Sombra da Noite, para quem não se lembre ou sabe, é uma vilã de menor importância (que depois se tornaria heroína) criada por Steve Englehart e Alan Lee Weiss em Capitão América #164, de 1973 e que só se veste com biquínis minúsculos. No arco, ela cria um exército de robôs disfarçados de humanos para tomar de assalto a máfia de Nova Iorque e tornar-se a chefona.

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Quase sem querer, Cage e Punho de Ferro se deparam com os seres cibernéticos e têm grande dificuldade para derrotá-los, o que os leva a investigar o ocorrido a pedido da polícia local, o que fazem como empregados da Nightwing Restorations, empresa de detetives particulares de Misty Knight e Colleen Wing. O roteiro de Ed Hannigan, com base em história de Chris Claremont, é, para usar um eufemismo, sofrível. Falta cadência, suspense e urgência na narrativa, que soa genérica e nada inspirada. É como ler algo escrito no automático, sem nenhum esforço para tornar a narrativa interessante ou misteriosa. Isso e a mera presença exagerada dos robôs comandados pela vilã de biquíni já retirar qualquer grau de verossimilhança que a história poderia ter (mesmo considerando o tipo de quadrinhos em questão). Além disso, Hannigan emprega quase que um número inteiro (#52) para lidar com um assunto pessoal de Danny Rand, resolvendo sua eterna inimizade em relação a Joy Meachum, que culpa Danny pela morte de seu pai Harold (que, por sua vez, matara Wendell Rand, pai do herói).

Mas a arte não desaponta. Ao encargo de Mike Zeck nos dois primeiros números e de Sal Buscema no terceiro, o nível de detalhamento é grande e as expressões faciais de heróis e vilões são muito bem empregadas, ainda que as sequências de ação sejam bem menos espetaculares do que as desenhadas por John Byrne na edição #50.

estrelas 3,5

Luke Cage e Punho de Ferro #54 (dezembro de 1978)
Heróis de Aluguel! (Heroes for Hire!)

power_man_iron_fist_54_capa_plano_criticoComo o título da história deixa claro, é na edição #54 que a parceria oficial entre Luke Cage e Punho de Ferro efetivamente começa. A história, escrita por Ed Hannigan, é simples, mas cumpre sua função.

De um lado, vemos Cage novamente tentando fazer seu negócio de herói de aluguel funcionar, somente para descobrir que nunca consegue efetivamente lucrar. De outro, vemos Danny Rand com sua dúvida existencial, com dificuldades para lidar com o “mundo real” desde que deixou K’un-Lun para efetivar seu juramento de vingança contra Harold Meachum. A solução para os dois problemas, claro, está na convergência dos heróis no mesmo negócio. Mas, para isso, antes, Hannigan faz uma espécie de faxina na vida pregressa dos dois.

O advogado Jeryn Hogarth, o mesmo que ajudou Cage a se livrar da condenação que deu origem a tudo, configura seu negócio de Herói de Aluguel de maneira apropriada, oficializando a papelada e criando uma rede de contatos que aproxima o herói de outras entidades que precisam da ajuda eventual de um ser super-poderoso. É interessante ver a preocupação com a burocracia do roteirista que, porém, não se perde em seu objetivo de fazer um texto simples e de fácil digestão. Por outro lado e de forma independente, Rand decide entregar o controle de sua companhia à Joy Meachum, filha de Harold, e que agora não mais o odeia (ou pelo menos o odeia menos), de forma que ele possa, sozinho, entender seu lugar no mundo.

Armada essa situação, Cage é chamado por um de seus novos clientes – um banco – que é invadido pelo vilão Incinerador (criado para a história e completamente descartável e esquecível, por sinal) e ele e Punho de Ferro partem para a ação breve e eficiente, sem maiores delongas. Ao final, para a surpresa de Punho de Ferro, Cage e Hogarth já planejavam chamar o mestre em artes marciais para fazer dupla com ele e voilà, os Heróis de Aluguel são criados.

A arte de Lee Elias emula em muitos aspectos a de John Byrne e, mesmo que às vezes os  quadros pareçam muito tumultuados, ela acaba sendo fluida e fácil de acompanhar, marcando bem as diferenças físicas entre os dois heróis. Aliás, Elias é particularmente bom ao desenhar o Punho de Ferro, esmerando-se na manutenção de uma combinação de um perfil muscular e esguio.

Sem dúvida, um ótimo começo oficial para a longeva dupla.

estrelas 1

Luke Cage e Punho de Ferro #55 (fevereiro de 1979)
Caos no Coliseu (Chaos at the Coliseum)

power_man_iron_fist_55_capa_plano_criticoDepois de um bom número marcando o começo oficial da dupla Luke Cage e Punho de Ferro, o mesmo roteirista, Ed Hannigan, entrega uma história completamente sem graça, quase um pastiche. Trabalhando para uma feira de automóveis, Cage e Rand têm que lidar com ladrões que planejam roubar, em plena luz do dia, o Fantasticarro que está sendo exposto por lá. Para quem não sabe, o Fantasticarro é o clássico (mas feio) carro/nave do Quarteto Fantástico.

E o pior é que os vilões – duas duplas deles – usam uniformes que em tese anulariam os poderes dos respectivos heróis. Dois usam um exoesqueleto para lidar com a força bruta de Cage e os outros usam uma roupa acolchoada para suavizar os golpes do Punho de Ferro. O resultado? Personagens ridículos em uma trama que como Cage mesmo diz, parece tirado de Missão Impossível (da série, não dos filmes).

Mesmo com a boa qualidade da arte de Lee Elias, a grande verdade é que o desenhista tem um material muito pobre para trabalhar. Ele faz o que pode, mas o resultado fica muito aquém do razoável. Um número completamente descartável na careira da dupla.

Luke Cage e Punho de Ferro #50 a #55 (Power Man and Iron Fist #50-55, EUA – 1978/9)
Roteiro: Chris Claremont (#50, #51), Ed Hannigan (#52, #53 – com base em trama de Claremont – #54, #55)
Arte: John Byrne (#50), Mike Zeck (#51, #52), Sal Buscema (#53), Lee Elias (#54, #55)
Arte-final: Dan Green (#50), Ricardo Villamonte (#52, #54), Jim Mooney (#53, #55), Bob Jenny (#54)
Cores: Françoise Mouly (#50, #54), Mary Ellen Beveridge (#51), Nel Yomtov (#52, #53), Ben Sean (#55)
Letras: Denise Wohl (#50), Rick Parker (#51), Jim Novak (#52), Jean Simek (#53, #54), Diane Albers (#55)
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: abril de 1978 a fevereiro de 1979 (edições bimestrais)
Editoras no Brasil: Editora Abril (Heróis da TV #80, #88, #89 – edições #50 a #53), Salvat (encadernado Heróis Mais Poderosos da Marvel #11 – edições #50 a #53) – edições #54 e #55 ainda inéditas no Brasil
Data de publicação no Brasil: Abril (fevereiro, setembro e outubro de 1986), Salvat (julho de 2015)
Páginas: 18 (cada edição)

 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.