Crítica | Luke Cage, Herói de Aluguel #1 a 9 (1972-1973)

Luke Cage é fruto de uma era, sem dúvida. Criado em 1972, em meio à onda do chamado Blaxploitation, divisão étnica dos filmes de exploração de conteúdo e tendências correntes, ele nasceu quase como um estereótipo do negro injustiçado, mas que logo em sua gênese, ganha personalidade própria, livrando-se dos problemas não por interferência de personagens brancos, mas sim por sua própria engenhosidade e, sim, força bruta. Com sua icônica camisa amarela aberta no peito e tiara e braceletes prateados, além de uma enorme corrente como cinto, o personagem não foi o primeiro personagem negro a aparecer nos quadrinhos, mas tem a honra de ser o primeiro super-herói dos quadrinhos mainstream a nascer já protagonizando sua própria publicação. Além disso, ele foi o primeiro herói a oferecer seus serviços de forma onerosa, tornando-se famoso pelo seu título descritivo “herói de aluguel”.

Além disso, é importante notar que, com suas histórias clássicas passadas proeminentemente em Nova Iorque, a mesma cidade do Homem-Aranha, por exemplo, o que vemos não é a versão higienizada dos demais quadrinhos, mas sim a versão violenta (violência de gangues e de pessoas “normais”) e “escondida” da cidade que só aos poucos foi sendo mostrada em outras histórias. Mas o personagem muito evoluiu, primeiro fazendo uma parceria de longa data com o Punho de Ferro, depois largando seu uniforme espalhafatoso e, mais recentemente, casando-se com Jessica Jones e tendo uma filha, além de liderar primeiro os Novos Vingadores ao final de Guerra Civil e, depois, os próprios Vingadores.

Sua história editorial começou, como salientando, com uma edição solo inicialmente batizada de Luke Cage, Herói de Aluguel, que durou do #1 ao #16, sendo rebatizada para Luke Cage, Power Man (nome que foi brevemente traduzido por aqui como Poderoso, mas que nunca realmente pegou) no #17 até o #49. A partir do #50, a publicação foi mais uma vez rebatizada para Power Man and Iron Fist, desta vez refletindo sua parceria com o Punho de Ferro, já que tanto o Blaxploitation quando os filmes de artes marciais já começavam a deixar de fazer sucesso nos EUA em 1978. A dupla permaneceria protagonizando a publicação até o #125, de setembro de 1986, quando ela foi cancelada. A volta de Luke Cage à uma edição solo deu-se em 1992, com a série intitulada simplesmente de Cage, que durou até o #20. Simultaneamente, ele apareceu solo na série Marvel Comics Presents por um tempo e, mais tarde, foi incluído como parte do grupo na publicação Heróis de Aluguel, que só durou 19 edições. Mantendo-se presente na história editorial da Marvel em diversas publicações ao longo dos anos subsequentes, notadamente em Novos Vingadores, Thunderbolts e Vingadores Sombrios, Luke Cage só viria a ganhar novamente uma edição quase solo na nova versão de Power Man and Iron Fist, novamente com o Punho de Ferro, cujo primeiro número foi lançado em fevereiro de 2016 e, quando da elaboração da presente crítica, continuava a ser publicada.

Que tal então voltarmos às origens e revisitarmos as edições clássicas solo do herói? As críticas abaixo são por edição, mesmo quando, no caso das três primeiras, elas formam um pequeno arco.

estrelas 5,0

Luke Cage #1 (junho de 1972)
O Herói que Veio do Inferno (Out of Hell — a Hero!)

luke_cage_capa_1Sem rodeios, Luke Cage #1 é uma das melhores histórias de origem dos quadrinhos mainstream que já tive a oportunidade de ler. Isso mesmo que vocês leram.

Denso, socialmente relevante, bem escrito e ágil, o roteiro de Archie Goodwin, um dos grandes autores da Marvel durante os anos 70, consegue, em meras 24 páginas (22, na verdade, pois temos que descontar a capa e a página de abertura, que, no estilo da época, só faz uma apresentação do que vem adiante) criar um herói do nada, dando-lhe um passado e abrindo as portas para um futuro interessantíssimo. Ah, que saudade da época em que a Marvel (e a DC também) se arriscava com personagens super-poderosos completamente inéditos e não versões infinitas do que já existe.

Na história, Carl Lucas, um negro originalmente do Harlem, é um penitenciário cumprindo pena na Prisão Seagate, na Geórgia, conhecida como Pequena Alcatraz, por um crime que não cometeu. Ele se torna o alvo favorito do diretor Billy Bob Rackham, que usa o sádico guarda Quirt como seu torturador quando ele se recusa a ser delator de outros prisioneiros. A situação começa a mudar quando um novo diretor – Stuart – está prestes a chegar (moldado por George Tuska a partir de Gregory Peck, provavelmente em razão de seu papel de Atticus Finch em O Sol é para Todos) e quando o Dr. Noah Burstein precisa de uma cobaia para uma experiência de regeneração celular que conduz ali mesmo com base em uma bolsa recebida pelas Indústrias Stark.

Assim, de modo muito parecido com a origem do Capitão América (e a fórmula do Dr. Burstein seria, mais tarde, revelada como sendo uma variação do soro do super-soldado), uma overdose inadvertida causada por um vingativo Rackham acaba alterando Lucas de forma que ele passasse a ter pela invulnerável (e, mais tarde, super-força e fator de cura). Com o recém-adquirido poder, ele acaba fugindo da prisão, voltando para Nova Iorque e, depois que impede um assaltante de roubar uma lanchonete e recebe uma recompensa do dono, ele assume a identidade de Luke Cage (Luke é uma corruptela de Lucas e cage significa jaula, uma referência à prisão, claro), um herói de aluguel fantasiado de forma a usar seus poderes para o bem e ao mesmo tempo ganhar a vida.

Mas as motivações de Cage vão além disso, já que ele tem sede de vingança por seu amigo de infância Willys Striker, codinome Cascavel (Kid Cascavel como ficou conhecido originalmente no Brasil), que, conforme aprendemos em flashback, não só fez uma cilada para Cage, levando-o à prisão, como foi o responsável pela morte de Reva Connors. As origens criminosas de Lucas, sua relação com Willys e a tragédia anunciada dão estofo ao drama vivido pelo herói que, de maneira inédita, não só passa a cobrar pelos seus serviços, o que empresta uma boa dose de realidade ao super-heroísmo sempre visto como algo altruísta, como também é movido por um sentimento forte de vingança do tipo “olho por olho”.

A arte de Tuska é, como o personagem principal, visceral, crua, trabalhando muito realisticamente os personagens, notadamente o próprio Cage, mas também o Dr. Burstein, sem, porém, se preocupar muito com os detalhes de fundo e mantendo a atenção no primeiro plano. Seu comando da progressão narrativa em quadros é excepcional e isso sem fazer uso de muita invencionice. Ao contrário, ele mantém uma estrutura padrão de uma boa quantidade de quadros pequenos por página (normalmente seis, mas às vezes cinco) que dão cadência narrativa ao roteiro de Goodwin e muita personalidade à história.

Curiosidades do número:

  • Primeira aparição de Carl Lucas/Luke Cage;
  • Primeira aparição de Billy Bob Rackham;
  • Primeira aparição de Willys Striker (em flashback) e Cascavel (no presente);
  • Primeira aparição de Reva Connors (em flashback);
  • Primeira aparição do Dr. Noah Burstein;
  • Primeira aparição do icônico uniforme amarelo e preto/azul, com camisa aberta, tiara, braceletes e uma corrente como cinto;
  • Bordão característico: Sweet Sister!

Luke Cage, Herói de Aluguel #1 (Luke Cage, Hero for Hire #1, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: George Tuska
Arte-final: Billy Graham
Letras: Skip Kohloff
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Gorrion (Luke Cage, Herói de Hoje #1, de agosto de 1973) e Editora Abril (Superaventuras Marvel #1, de julho de 1982)
Páginas: 24

estrelas 4,5

Luke Cage#2 (agosto de 1972)
A Vingança é Minha! (Vengeance is Mine!)

luke_cage_capa_2Continuação direta do primeiro número, Luke Cage começa a atrapalhar a vida de Cascavel como parte de seu plano para forçar um confronto com seu ex-amigo e agora arqui-inimigo que não sabe que ele fugiu da prisão Seagate. Depois de espancar alguns capangas de Cascavel, ele conhece a Dra. Claire Temple que tem uma clínica por ali por perto e se surpreende com os poderes do herói. Mas coincidência das coincidências, seu sócio no empreendimento é justamente o Dr. Noah Burstein, que largou suas experimentações desgostoso depois do que aconteceu com Carl Lucas. Aparentemente sem reconhecer Cage como Lucas, uma relação de amizade hesitante começa a ser construída.

Nesse meio tempo, Cascavel se prepara para enfrentar Cage com suas facas vitaminadas em uma demonstração que provavelmente faria muito leitor moderno de quadrinhos revirar os olhos de tão boba. Mas, lembrem-se: estamos nos anos 70, época de grande ebulição nos quadrinhos, especialmente na Marvel e que criaria os mais variados personagens, inclusive vilões “vestidos” de cobra e que manejam facas contra um homem de pele invulnerável como Luke Cage. Temos que ter paciência e perdoar Archie Goodwin aqui. Luke Cage, por sua vezes, acaba alugando um escritório/apartamento nos fundos do Cinema Gem, gerenciado pelo jovem, D.W. Griffith (sim, isso mesmo…), que logo passa a funcionar como sidekick do super-herói. A manutenção de Cage em um estado de quase pobreza é algo que funciona muito bem na história, que consegue fugir dos clichês do gênero e fincar suas bases, dentro do possível, na realidade.

O número termina com o aguardado embate entre Cascavel e Cage, em sequências de ação bem construídas – apesar da bobagem das facas… – que culminam em um momento de justiça poética com a morte de Striker por uma de suas próprias lâminas (na variedade explosiva). Trata-se de mais um número sólido na série, com roteiro ágil e que fecha quase que completamente um arco narrativo.

Curiosidades do número:

  • Willys Striker/Cascavel morre;
  • A roupa espalhafatosa de Cage é explicada como tendo sido uma escolha dele ao entrar em uma loja de fantasias e deparar-se com uma de um mágico escapista (ou escape artist), algo que remete à sua fuga de Seagate;
  • Primeira aparição da Dra. Claire Temple;
  • Primeira aparição de David “D.W.” Griffith;
  • Primeiro escritório de Cage aparece, nos fundos do cinema Gem, no Times Square.

Luke Cage, Herói de Aluguel #2 (Luke Cage, Hero for Hire #2, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: George Tuska
Arte-final: Billy Graham
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Gorrion (Luke Cage, Herói de Hoje #2, de setembro de 1973) e Editora Abril (Superaventuras Marvel #4, de outubro de 1982)
Páginas: 24

estrelas 3,5

Luke Cage #3 (outubro de 1972)
Mace Era o Seu Nome! (Mark of the Mace!)

luke_cage_capa_3Encerrando o arco inicial, Luke Cage #3 começa exatamente de onde o número anterior parou, levando Cage a confrontar o Dr. Burstein, que tem dúvidas morais sobre o que fazer já que ele sabe que o herói é o fugitivo de Seagate: entregá-lo às autoridades na confiança que de que Justiça será feita e a condenação será revertida ou ficar quieto e fingir que nada aconteceu? O diálogo é particularmente interessante em razão da condição de “herói de aluguel” de Luke Cage. O que exatamente o separa de um bandido que aceita dinheiro em troca de qualquer trabalho? Onde está a linha que não pode ser cruzada? A pancadaria verbal deixa Cage sentido, por considerar que Burstein, ao decidir não fazer nada, mas apenas vigiar as ações de Cage, funcionará como um oficial de condicional, mantendo-o em constante xeque.

A conversa, que ocupa as quatro primeiras páginas da edição, logo abre caminho para uma nova trama e um novo vilão. Um homem desesperado procura a ajuda de Cage que foge de Gideon Mace, um militar aposentado que tem uma massa de guerra no lugar de uma das mãos e que cria uma milícia para uma operação terrorista com o objetivo de paralisar Manhattan por um dia. No entanto, Mace tem um objetivo escuso que vai sendo revelando aos poucos e Cage mal tem tempo de pensar, já que seu cliente vem a falecer de um ataque dos capangas do vilão, o que o leva a enfurecidamente destruir a operação terrorista em um embate interessante, mas que é carregado de textos expositivos que acabam quebrando o ritmo narrativo.

A arte de George Tuska continua excelente, com muita atenção às expressões faciais e uma dinâmica de quadros acima da média, que foge completamente de splash pages.

Curiosidades do número:

  • Primeira vez que a condição de “herói de aluguel” e suas implicações morais são discutidas;
  • Primeira aparição (e morte) de Gideon Mace;
  • Primeira vez que Cage explicitamente recebe dinheiro por ser herói de aluguel, mas, como é comum acontecer, ele abre mão do valor por uma causa mais nobre.

Luke Cage, Herói de Aluguel #3 (Luke Cage, Hero for Hire #3, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: George Tuska
Arte-final: Billy Graham
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Gorrion (Luke Cage, Herói de Hoje #3, de outubro de 1973) e Editora Abril (Superaventuras Marvel #4, de outubro de 1982 – apenas três páginas)
Páginas: 21

estrelas 4

Luke Cage #4 (dezembro de 1972)
Os Mortos Também Se Vingam (Cry Fear… Cry Phantom!)

luke_cage_capa_4Uma inusitada mistura de Fantasma da Ópera com trama familiar de traição, Luke Cage se vê às voltas com um misterioso e altíssimo fantasma que o assombra em seu escritório. Confesso que essa é uma daquelas histórias que exige paciência do leitor para ultrapassar as primeiras duas ou três páginas, tamanho é o exagero sobrenatural que logo nos deparamos.

Mas, aos poucos, a narrativa volta a ser terrena e se mostra como uma complicada – e completamente improvável – trama envolvendo o assassinato há muitos anos do dono da cadeia de teatros (hoje cinemas) onde Cage tem seu escritório e a vingança de seu filho anão (sim, isso mesmo) com a ajuda de um gigante mudo. E não é que o texto de Goodwin, apesar da esquisitice, começa a fazer algum sentido e trazer elementos narrativos interessantes à história? A vingança do filho encontra ressonância perante os leitores, assim como o arrependimento genuíno do assassino do pai, hoje um senhor de idade que olha para o passado com tristeza. Luke Cage é o mero fio condutor de uma história que prende a atenção justamente por sair da zona de conforto e do lugar-comum, adicionando camadas humanas e sóbrias a algo que começa de maneira muito estranha.

Nesse número, o arte-finalista Billy Graham assume a arte por completo, o que retira um pouco o ar realista dos personagens, algo que combina com essa história em particular. Cage ganha menos detalhamento e um porte mais super-heróico que o distancia um pouco da “pessoa comum” que vimos até aqui. Mas, no final das contas, o número é uma leitura prazerosa que surpreenderá quem ultrapassar as primeiras páginas.

Curiosidades do número:

  • Primeira vez que Cage muda o uniforme – para uma camisa sem gola ou mangas colada ao corpo -, em razão de ele sempre rasgar o uniforme padrão e estar sem camisas reservas;
  • Primeira aparição de Phil Fox, colunista do Daily Bugle que se interessa pelas ações de Luke Cage, mas de quem Cage foge por ele ainda ser um fugitivo de Seagate.

Luke Cage, Herói de Aluguel #4 (Luke Cage, Hero for Hire #4, EUA)
Roteiro: Archie Goodwin
Arte: Billy Graham
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Abril (Superaventuras Marvel #8, de fevereiro de 1983)
Páginas: 21

estrelas 3

Luke Cage #5 (janeiro de 1973)
Não Se Meta com a Tia Black! (Don’t Mess with Black Mariah!)

luke_cage_capa_5Depois de uma história um tanto surreal, Luke Cage volta à realidade nua e crua ao ser contratado por um homem que, logo antes de se encontrar com ele, é morto por bandidos. Ato contínuo, outros bandidos, aparentemente sem ligação com os primeiros, roubam o corpo do falecido. Enraivecido, Cage investiga um pouco e descobre que quem está por trás do roubo do corpo é uma mafiosa conhecida como Black Mariah (Tia Black, no Brasil), quase que uma versão pouco sofisticada do Rei do Crime (especialmente em corpulência) que se aproveita de ricos falecidos para furtar tudo que lhes pertence.

A podridão da história coloca Cage em rota de colisão primeiro com a gangue dela e, depois, diretamente com ela, em sequências que George Tuska e Billy Graham rebolam para evitar que o herói soque uma mulher (mas chute vale!), por mais odiosa e fisicamente violenta que ela seja. O resultado é um exercício de ação que vale muito mais pela arte do que pelo texto padrão de Steve Englehart substituindo Archie Goodwin.

A história não é particularmente boa, mas mantém a essência do personagem nesse seu triunfal começo, valendo especial destaque para o uso “sexualizado” de seu torso nu, algo muito mais comum com personagens femininas nos quadrinhos, mas que ganha relevo cada vez maior nas edições.

Curiosidade do número:

  • Primeira aparição de Tia Maria.

Luke Cage, Herói de Aluguel #5 (Luke Cage, Hero for Hire #5, EUA)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: George Tuska, Billy Graham
Cores: Mimi Gold
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Abril (Superaventuras Marvel #12, de junho de 1983)
Páginas: 21

estrelas 3,5

Luke Cage #6 (fevereiro de 1973)
Cavaleiros e Cetim Branco! (Knights and White Satin!)

luke_cage_capa_6Começando com uma pancadaria que permanece sem explicação até o final, Luke Cage é contratado por duas irmãs milionárias para proteger seu pai moribundo de alguém que uma delas acha que está tentando matá-lo. Ora, mas se o homem está moribundo, para que apressar a morte? Essa resposta vem com Cage fazendo as vezes não só de herói, mas também de investigador, mais ou menos na linha do que vimos na edição #4.

O interessante, aqui, é que Steve Englehart e Gerry Conway, co-roteiristas do número, retiram Cage do seio de Manhattan e o colocam na mansão da família das jovens em meio completamente diferente daquele em que está acostumado a viver. O contraste é o ponto importante da narrativa, com Luke tentando acostumar-se, ainda que brevemente, com o luxo ao seu redor e, de certa forma, desgostando do que vê. Por outro lado, cria-se uma leve tensão sexual entre as moças e o musculoso super-herói que, mais de uma vez, aparece descamisado e sendo admirado por elas em uma interessante e bem-vinda inversão da lógica dos quadrinhos de super-heróis.

A história em si, apela para o lado invetigativo de Cage e, não fossem uns exageros aqui e ali – como as armaduras medievais controladas remotamente, que são ridículas – seria mais um belo exemplar desse começo de carreira do herói. Novamente, Billy Graham assume sozinho a arte e seus traços menos terrenos acabam combinando com a história que retira Cage de seu habitat. Mas, assim como a história anterior, pouco é acrescentado à mitologia do personagem aqui.

Curiosidade do número:

  • Primeiro caso de Cage fora de Manhattan.

Luke Cage, Herói de Aluguel #6 (Luke Cage, Hero for Hire #6, EUA)
Roteiro: Steve Englehart, Gerry Conway
Arte: Billy Graham
Arte-final: Paul Reinman
Cores: Petra Goldberg
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: não publicada no Brasil (até onde o autor pode verificar)
Páginas: 21

estrelas 5,0

Luke Cage #7 (março de 1973)
Bombas Natalinas (Jingle Bombs!)

luke_cage_capa_7Apesar de originalmente publicado em março, o 7º número de Luke Cage é uma história natalina muito interessante. Steve Englehart usa toda sua imaginação para criar uma mais do que inusitada, mas muito bem construída adaptação de Um Conto de Natal, de Charles Dickens em que um homem com um plano maligno se faz passar por versões dos fantasmas do passado, presente e futuro para testar a moral de Luke Cage. Parece improvável que algo assim funcionasse? Sim, parece. Mas funciona. E muito bem.

A narrativa lida com Cage primeiro salvando uma criança de um homem vestido com roupas do século XIX e, depois, passeando com Claire na véspera do Natal, quando eles são atacados outras duas vezes, primeiro por um veterano sem pernas da Guerra do Vietnã e, depois, por um lunático que parece saído de 1984, de George Orwell. O que começa completamente sem sentido, vai funcionando bem como uma alegoria inteligente e literária de Englehart em um texto que se preocupa muito mais com a jornada do que o resultado final, já que, quando o clímax chega, o melhor já passou e a resolução é sem dúvida apressada.

Mas o final corrido não estraga a história se cairmos na brincadeira – que nem sempre é brincadeira – e encararmos a narrativa quase que como um Especial de Natal de Luke Cage, que pode estar ou não dentro de sua cronologia. Ao mesmo tempo, Englehart começa a explorar a curiosidade de Claire sobre o passado de Cage, já que ela não sabe ainda que ele é um condenado que fugiu da prisão, mas que começa a perceber as reações tensas do Dr. Burstein toda vez que o herói visita a clínica.

A arte, novamente de Tuska e Graham, mostra-se muito bonita e eficiente, com muita ação passada no meio de uma nevasca em Nova Iorque de dá um toque visualmente diferente à progressão da história. Além disso, vale nota o embate de Cage contra o “fantasma do futuro”, com um trabalho de luz e sombras belíssimo que poderia até mesmo ter sido mais utilizado do que apenas em uma breve página.

Bombas Natalinas é, sem dúvida, uma das melhores histórias desse começo de carreira de Luke Cage.

Curiosidades do número:

  • Primeira vez que Claire demonstra curiosidade explícita pelo passado misterioso de Luke Cage;
  • Primeiro beijo entre Claire e Luke (que o leitor veja, claro).

Luke Cage, Herói de Aluguel #7 (Luke Cage, Hero for Hire #7, EUA)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: George Tuska, Billy Graham
Cores: David Hunt
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Abril (Grande Heróis Marvel #2, de novembro de 1983)
Páginas: 21

estrelas 2,5

Luke Cage #8 (abril de 1973)
Contrato Mortal (Crescendo!)

luke_cage_capa_8E Luke Cage entra para o clube dos super-heróis profissionais ao lidar pela primeira vez com um super-vilão tradicional da Marvel: Doutor Destino! Mas a história é risível, pois o monarca da Latvéria decide contratá-lo para destruir robôs de sua fabricação que haviam fugido de seu controle e se disfarçado de negros em Nova Iorque e por isso ele precisa de um outro negro para caçá-los. A narrativa, como se pode ver, é forçadíssima e chega a ser insultante, ainda que a pancadaria e a crescente raiva de Luke Cage divirtam o leitor.

A arte, ao encargo de George Tuska, faz o truque de tornar o roteiro de Englehart palatável o suficiente para permitir a leitura ao menos uma vez. A sequências de ação – as lutas de Cage contra os robôs – são muito boas e dinâmicas e seus traços crus funcionam bem tanto para o herói quanto para o breve momento em que vemos Destino revelando-se como a pessoa que o contratou. Mas colocar Luke Cage e o Doutor Destino em uma mesma aventura simplesmente não combina com o espírito da série solo do herói nesse começo ainda muito terreno e próximo da realidade. Tudo se torna muito “ficção científica” para combinar com o herói ou mesmo com as ideias que são transmitidas pelas histórias.

Mas é claro que a progressiva inserção de Cage no Universo Marvel mais amplo era algo inevitável e, se é para começar em algum lugar, porque não logo com um dos maiores super-vilões da editora, não é mesmo?

Curiosidades do número:

  • Primeira vez que Cage enfrenta uma super-vilão estabelecido da Marvel Comics;
  • Primeira vez que Cage enfrenta o Doutor Destino.

Luke Cage, Herói de Aluguel #8 (Luke Cage, Hero for Hire #8, EUA)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: George Tuska
Arte-final: Billy Graham
Cores: Andrea Hunt
Letras: John Costanza
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Abril (Superaventuras Marvel #27, de setembro de 1984)
Páginas: 21

estrelas 3

Luke Cage #9 (maio de 1973)
O Destino Marcou Sua Vida (Where Angels Fear to Tread!)

luke_cage_capa_9Luke Cage #9 forma um mini-arco com o número anterior, o segundo arco na série desde o formado pelo três números iniciais. Se eu reclamei que Luke Cage estava fora de seu meio ao ter o Doutor Destino inserido em sua história, aqui ele fica mais completamente fora ainda, pois Englehart, depois de fazer o herói enfrentar o Quarteto Fantástico para conseguir um foguete, o coloca na Latvéria enfrentando o vilão diretamente. Mas a história consegue ser melhor que a anterior.

E porque?

Ora, por uma simples razão: Cage vai até lá cobrar os 200 dólares que o sovina do Destino se recusou a pagar quando do fim do trabalho que ele fora contratado para fazer. Hilário, não é mesmo? Um americano invade outro país – este comandado por um dos seres mais poderosos que se tem notícia – para recobrar míseros 200 dólares… Mas é o princípio da coisa que vale, não é mesmo? Assim, se levarmos a história na galhofa, é perfeitamente possível aceitar esse exagero do autor aqui, que parece usar isso muito mais como uma forma de apresentar Cage a outros heróis Marvel.

Uma bobagem divertida.

Curiosidades do número:

  • Primeiro encontro de Cage com o Quarteto Fantástico (Sr. Fantástico, Coisa, Tocha Humana e Medusa)
  • Primeira visita de Cage à Latvéria.

Luke Cage, Herói de Aluguel #9 (Luke Cage, Hero for Hire #9, EUA)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: George Tuska, Billy Graham
Cores: Stan Goldberg
Letras: Denise Vladimer
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editoras no Brasil: Editora Abril (Superaventuras Marvel #28, de outubro de 1984)
Páginas: 21

 

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.