Crítica | Luke Cage (Trilha Sonora Original)

estrelas 4,5

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Se teve algo que a série de Luke Cage pela Netflix acertou em cheio, isso foi na homenagem a cultura negra norte-americana. E tal cultura é impossível de ser apresentada sem a presença constante da música, um dos principais redutos dos negros frente ao preconceito e exclusão sofridos ao longo da história. Desde os primórdios do blues e jazz até o hip-hop moderno, a primeira e primordial das artes vem sendo responsável por estampar a marca do pensamento negro, seja como forma de expressão ou na luta por representatividade.

Se a série por um lado tenta se afastar do rótulo blaxpoitation que marca as histórias em quadrinhos do personagem, por outro ela se aproxima deste famoso movimento negro dos anos 70 através da trilha sonora. Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge criam arranjos feitos para chamar atenção a todo momento, muito eficazes principalmente devido a ótimas linhas de baixo e batidas sempre fortes e certeiras. Perceba como a progressão da maioria das faixas inserem uma atmosfera épica e retrô – até meio “cafona” no melhor sentido da palavra – que dialoga com trilhas clássicas do blaxpoitation, como Trouble Man feita por Marvin Gaye, a inesquecível recomendação de Falcão ao Capitão América. É impossível não se lembrar – diante do forte e certeiro groove aqui presente – das espetaculares composições de Isaac Hayes para Shaft (incluindo a maravilhosa música tema, vencedora de Oscar).

A dupla de compositores faz questão de deixar um gosto retrô nos arranjos. Atente à brilhante orquestração, muito bem aliada a uma produção que sabe destacar a riqueza do instrumental. End Theme possui uma construção no mínimo curiosa: primeiro entram guitarras vibrantes, em seguida os sintetizadores e somente ao final entram os metais, trazendo um charme único para a canção que encerra cada episódio. Se trata de um trabalho tão harmonioso que chega a ser difícil de descrever, onde uma faixa emenda na outra como uma grande, coesa e belíssima colcha. Guitarras setentistas, linhas de baixo alucinantes, surpreendentes aparições de harpa, violinos dramáticos, sintetizadores marcantes, arranjos de vocais que transmitem um delicioso ar épico e mais um vasto catálogo de exóticos instrumentos, mas, sobretudo, bateria sempre muito bem inserida e executada, uma vez que as batidas são esculpidas aqui como verdadeiras pedras preciosas afim de manter o melhor groove possível.

Além das composições de Ali Shaheed Muhammad e Adrian Younge, a trilha é formada por uma excelente coletânea de soul music, cortesia da boate de Boca de Algodão (Cottonmouth) na série. Aparecem por lá talentosos artistas da atualidade que andam fazendo soul clássico: alguns jovens como Raphael Saadiq e Faith Evans, e outros já experientes, mas que receberam prestígio e sucesso somente nos últimos anos, como o fantástico Charles Bradley e a ótima Sharon Jones (ganhadora de Grammy que infelizmente viria a falecer um mês depois do lançamento da série). Ainda há Method Man (que inclusive possui uma ponta na série) surgindo em Bulletproof Love fazendo um divertido rap sobre o herói do Harlem.

Após as excelentes trilhas de Stranger Things e The Get Down, a Netflix demonstra acertar imensamente, mais uma vez, no mercado musical. É uma pena que em meio aos vários problemas da série esteja o uso um tanto equivocado da trilha, repetindo de maneira exarcebada alguns temas e usando de maneira tímida outros. De qualquer forma, as composições feitas para ela constituem um brilhante tributo a música negra e que deve ser ouvido obrigatoriamente por qualquer amante do gênero.

Luke Cage – Original Soundtrack Album
Artistas: Adrian Younge, Ali Shaheed Muhammad e vários artistas
País: Estados Unidos
Lançamento: 7 de outubro de 2016
Estilo: Hip-Hop, Soul, Trilha Sonora

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.