Crítica | Lunchbox

estrelas 3,5

A simplicidade nunca foi um ingrediente básico do cinema hindu. Desde as primeiras produções faladas no país, podemos identificar um forte teor alegórico em contexto, a maior parte das vezes com uma notável participação musical, elemento chave da cultura indiana e abstraído de forma quase sagrada pelo cinema. Em paralelo, as produções de ação e efeitos impossíveis que já viraram memes na internet compõem o cardápio dos pólos hindus de cinema (especialmente em Bollywood), sobrando um pequeno espaço para filmes de menor teor alegórico/épico/musical; mais centrados em uma história simples, como é o caso de Lunchbox.

O filme é ambientado na cidade de Mumbai e conta uma história de aproximação e separação entre duas pessoas, fixando momentos de fantasia e paixão, carência e dificuldades na vida. Saajan Fernandes é um viúvo amargo que encomenda marmitas (dabbas, o modelo de marmita indiano) em um restaurante próximo à sua casa. Ila é uma mulher com um casamento falido. Através de uma confusão na entrega das dabbas, Saajan recebe o almoço que deveria ser do esposo de Ila e, a partir desse momento, começa uma troca de cartas entre os dois solitários através do serviço de entrega dos dabbawalas.

Lunchbox é o longa de estreia de Ritesh Batra, que faz um bom trabalho com o material que tem em mãos. Com produção simples, da cinematografia ao desenho de produção, o diretor investiu em uma forma eficiente de contar os desencontros entre os dois solitários protagonistas, adicionando para isso doses precisas de humor ao roteiro e uma interessante evolução da trama, cujo único problema é a sua própria concepção: o teor repetitivo dos blocos cênicos.

A ligação entre os espaços – o escritório de Saajan e o apartamento de Ila – é feita, ao menos na primeira parte do filme, de forma eficiente. A montagem brinca com efeitos Kuleshov sutis e raccords imagéticos muito inteligentes, seja através de momentos dramáticos, como um sorriso ou reflexão de alguma personagem; ou objetos do cenário, como ônibus, ventiladores e televisões. A simplicidade do local e da captura das imagens faz sentido para o contexto geral do filme, que tem como plano de fundo um local pobre, e, como mote dramático, duas realidades sofridas que encontram num contato à distância uma centelha de amor e felicidade compartilhados. Não há clichês Ocidentais nesse contato, ainda bem.

Há algumas nuances de bastante destaque no filme. A primeira delas é a da culinária, cujo uso é um ponto de partida para o drama e que durante um bom tempo tem destaque quase isolado. Daí seguimos para uma exploração de realidades, mostrando a ligação entre a vida de Saajan e a vida de Ila, ao passo que o engraçado Shaik ganha progressivo e merecido espaço.

Como já foi dito antes, o que impede o espectador de apreciar o filme por completo é a concepção repetitiva de um lugar para outro. Mesmo que levemos em conta que a intenção do diretor foi essa, e que ele queria destacar o tom de crônica para esse tipo de história, é preciso dizer que a escolha funcionou muito bem até a metade da obra, mas durante o seu desenvolvimento perdeu força e chegou a chatear um pouco o espectador, embora a trama nunca tenha caído no marasmo. O roteiro até que se segura muito bem, apesar de seu impasse na transição entre os locais de destaque.

A receptividade de Lunchbox foi bastante positiva, seja por parte da crítica, seja por parte dos espectadores. O filme merece uma grande parcela de toda essa ovação, mas não chega a ser o mar de inovações e o novo suspiro do cinema hindu que alguns mais exaltados andam pregando. Trata-se de um bom filme, com uma inteligente cadência estética em sua primeira parte, mas que, do meio para frente, tropeça bastante, conseguindo se segurar bem até o final porque os fios que teceram o seu início foram muito fortes.

Lunchbox (The Lunchbox / Dabba) – Índia / França, Alemanha / EUA, 2013
Direção: Ritesh Batra
Roteiro: Ritesh Batra, Rutvik Oza
Elenco: Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui, Lillete Dubey, Nakul Vaid, Bharati Achrekar, Yashvi Puneet Nagar, Denzil Smith, Shruti Bapna
Duração: 104 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.