Crítica | Luther – 4ª Temporada

estrelas 4

Obs: Leiam nossas críticas das temporadas anteriores (que formavam a “série completa”), aqui

Iniciada em 2010 com uma temporada de seis episódios, Luther ganhou uma segunda temporada logo no ano seguinte, de quatro episódios. Somente em 2013 é que a então “última temporada” foi ao ar, novamente com quatro capítulos. Mas o público queria mais e a BBC One também. Mais dois anos se passaram, conversas sobre um longa-metragem vieram e foram embora e Idris Elba então voltou ao papel de seu depressivo, agressivo, mas altamente inteligente detetive londrino, em uma mini-temporada de apenas dois episódios, cada um com quase uma hora de duração, com a promessa renovada de um longa em futuro próximo, porém ainda incerto.

E é sempre bom ver Luther de volta à ativa, mesmo que por apenas duas horas. Afinal, o personagem composto por Elba é enigmático e fascinante, com sua voz para dentro, postura curvada, mãos nos bolsos do sobretudo, rosto marcado por anos testemunhando e resolvendo os mais horrorosos crimes e por ter tido que, às vezes, “dobrar” a lei aqui e ali para fazer justiça. É um personagem que chama a atenção imediatamente, mas que ao mesmo tempo é difícil de decifrar e até de gostar logo de início. E a série em que é protagonista tem como foco primordial ele próprio e não os casos ao seu redor, retirando-a do lugar-comum e das armadilhas facilmente vistas no gênero. Mesmo com casos interessantes para investigar, o criador e showrunner Neil Cross, que sempre escreveu todos os roteiros e continua assim na nova temporada, sabe que seu trunfo é o personagem e sair dessa linha é errar feio.

Por isso é que, novamente, o foco principal é mesmo em Luther. Quando o primeiro episódio começa, nós o vemos morando em uma pequena cabana à beira de um precipício na Inglaterra, em uma óbvia, mas bela correlação com seu estado de espírito. Ele afastou-se da polícia por conta própria depois dos acontecimentos da 3ª temporada e não quer saber de companhia, mas, claro, sua solidão não demora muito, pois ele recebe a visita dos detetives Theo Bloom (Darren Boyd) e sua parceira Emma Lane (Rose Leslie) indagando, claro, sobre Alice Morgan. Para surpresa de Luther, ele recebe notícia que ela fora achada morta afogada, na Antuérpia, Bélgica, depois de algum tipo de envolvimento com roubo de diamantes. Esse é o catalisador da ação e o que traz Luther de volta à civilização. Sua relação com Alice sempre foi conturbada, doentia mesmo e ele simplesmente não acredita que ela tenha morrido.

Mas Cross não nos deixa apenas com essa situação, que talvez não tivesse estofo suficiente para sustentar a narrativa, ou, mais provavelmente, não fosse nem essa a intenção de Cross. Assim, um caso novo é apresentado, o de um canibal – não poderia ser diferente em se tratando de Luther não é mesmo? – à solta em Londres. Não demora e o policial está 100% de volta à ativa, tendo que lidar com pelo menos duas frentes ao mesmo tempo que vão ganhando desdobramentos na medida em que a narrativa se desenrola.

A sensação, especialmente quando o segundo episódio começa – calma, não há spoilers aqui -, é que há muito no prato de Luther para ser resolvido em apenas duas horas. E, de fato, o roteiro de Cross começa então a fazer exatamente o que o policial veterano diz para Emma não fazer. Ele passa a pegar atalhos. Com isso, a narrativa cadenciada e falsamente calma que toma conta das temporadas anteriores da série ganham ritmo exagerado e parece que não haverá um desfecho satisfatório. Mas o fato é que, em grande parte, tudo acaba se encaixando, ainda que o showrunner saiba jogar a proverbial “bola curva” para atiçar o interesse do público pela volta de seu policial. Trata-se de um cliffhanger light, mas que poderá deixar muita gente ressabiada. Esses atalhos de Cross, porém, parecem ao mesmo tempo estranhos e fáceis demais, contribuindo para uma mini-temporada que se situa levemente abaixo das demais, talvez pela inexistência de uma contrapartida clara e instigante ao personagem principal.

Mantendo a fotografia acinzentada em uma Londres eternamente sem sol e com um Luther que cada vez mais tenta mesclar-se à paisagem, a temporada mantém a aura nihilista que marca o personagem e toda a estrutura narrativa até aqui. Luther sabe que o mundo não tem solução e o que ele faz é quase que literalmente enxugar gelo. Mas é tudo que ele sabe fazer e ele sente prazer nisso, mesmo com a corrosão de sua psiquê pelo acúmulo de atrocidades vividas. Luther é parte solução, parte problema. Trata-se de um personagem que desafia rotulação e que quebra expectativas e nisso a série continua triunfando.

Nessa temporada, Neil Cross, porém, não ousa muito e mantém Luther dentro de uma linha um pouco mais previsível. Faltam personagens realmente interessantes ao seu redor, já que Rose Leslie, a Ygritte de Game of Thrones, é subutilizada, quase que como um acessório à trama que tem apenas uma e específica função mais para o final. Faltou espaço para que a química entre Elba e Leslie pudesse aparecer.

Mas não se enganem. A mini-temporada ainda permanece acima da média de séries policialescas disponíveis por aí. Cross e Elba fazem em duas horas o que muitas outras não conseguem por temporadas a fio. É isso que torna Luther tão especial e merecedora de novas mini-temporadas, ou temporadas inteiras ou longas de tempos em tempos.

Luther – 4ª Temporada (Luther – Series 4, Reino Unido – 2015)
Showrunner e criador: Neil Cross
Direção: Sam Miller
Roteiro: Neil Cross
Elenco: Idris Elba, Dermot Crowley, Michael Smiley, Rose Leslie, Laura Haddock, Darren Boyd, John Heffernan, Patrick Malahide
Duração: 58 min. cada episódio

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.