Crítica | Luther (Série Completa)

estrelas 4,5

Obs: A presente crítica foi escrita antes do lançamento da 4ª temporada da série, o que era ainda mera especulação, pelo que este crítico considerou como “série completa” as três primeiras temporadas de Luther. Leia sobre a 4ª Temporada, aqui.

São raras as séries dramáticas policiais que focam de verdade no protagonista. É muito mais comum encontrar por aí uma enorme preocupação com o caso ou casos sendo investigados, relegando o investigador a segundo plano, como se fosse apenas o fio condutor da história que aconteceria de toda forma, apesar dele.

E isso faz sentido e é o que poderia ser chamado de “efeito Agatha Christie”. Os casos de sua vasta bibliografia são infinitamente mais interessantes que seus detetives, ainda que, claro, os trejeitos curiosos de Hercule Poirot ou Miss Marple sejam agradabilíssimos. Vejam: isso não é um problema, apenas uma constatação. O público tem necessidade de ser desafiado e as séries de TV costumam apresentar casos cada vez mais mirabolantes para justamente atrair e prender os espectadores, seja no formato de “caso da semana”, seja no formato de “um caso por temporada”.

Por isso é sempre surpreendente deparar-se com séries como Luther. Produzida pela BBC com base em criação de Neil Cross, que também escreveu todos os roteiros e cuja experiência anterior se limitava a oito roteiros em Spooks e dois em The Fixer, a série conta com três temporadas, sendo a primeira de seis episódios e as outras duas de quatro cada uma. São 14 episódios no total que, em essência, contam uma história só, a do perturbado detetive John Luther, vivido por Idris Elba (o fantástico Stringer Bell de The Wire), da Unidade de Crimes Sérios de Londres. Ele é, como o título deixa muito claro, o foco de toda a narrativa de Cross, que constrói, com a inestimável ajuda do ator, um personagem inesquecível.

No entanto, o espectador não deve esperar uma história banal, com começo, meio e fim claramente estabelecidos. Logo de início, o que vemos é Luther voltando para a força policial, depois que eventos traumáticos o levaram a um ataque de nervos e a um subsequente tratamento psiquiátrico por meses. Logo vemos um homem fechado em si mesmo, carregando o peso da monstruosidade de todos os psicopatas que já capturou. Sua obsessão é sua cruz e isso o leva a decisões questionáveis para atingir seu fim. E, então, o dilema da série é apresentado e ele pode ser resumido ao velho clichê que indaga se os fins justificam os meios.

Acontece que a resposta de Neil Cross não é clichê. Muito pelo contrário, aliás. O showrunner e roteirista foge da narrativa didática, não aborda o passado de Luther com flashbacks e já inicia a primeira temporada no meio da ação, sem qualquer tipo de introdução. Luther é, como fica logo claro, um brilhante detetive, capaz de ler cenas do crime como ninguém e entrar na mente de criminosos como se fosse um. Ele não hesita em proteger quem tem que ser protegido e inspira uma espécie de confiança cega nas pessoas ao seu redor, especialmente em seu jovem parceiro e aprendiz Justin Ripley (Warren Brown). Ao navegar águas conturbadas e carregar Justin para seu lado menos preto e branco e bem mais cinzento, Luther faz o mesmo com os espectadores. Estamos lá junto com ele e nos indagamos se suas ações realmente são justificáveis. E vejam: Cross não escreve de maneira óbvia, colocando Luther em situações facilmente identificáveis como “assim ou assado”. Os roteiros sempre nos deixam na dúvida e não respondem perguntas, apenas nos induzem a pensar e a chegar às nossas próprias conclusões.

Reparem, por exemplo, como a primeira e maior temporada é estruturada. Existem os casos do dia-a-dia que permeiam os episódios, às vezes sendo resolvidos rapidamente, outras vezes sendo tratado em dois capítulos, mas o que realmente importa é logo o primeiro deles, em que uma jovem, Alice Morgan (Ruth Wilson), sobrevive ao assassinato de seus pais e o detetive desconfia que ela é a responsável. A relação entre os dois é a pedra fundamental tanto da temporada quanto de toda a série, refletindo externamente o interior sombrio de Luther. É um relacionamento estranho, quase surreal, mas absolutamente fascinante e que comenta a conturbada relação de Luther com sua ex-esposa Zoe (Indira Varma), agora em relacionamento sério com o pacato Mark (Paul McGann, o 8º Doutor).

Na segunda temporada, as condutas pouco ortodoxas de Luther passam a chocar a detetive novata e by the book Erin Gray (Nikki Amuka-Bird) que literalmente não aceita qualquer desvio de conduta, por mais insignificante que seja e por mais que Luther prove seu valor de maneira inequívoca. Erin, de certa forma, é a “consciência” externa de Luther apitando, avisando dos problemas e servindo de ponta de lança para o tema da terceira temporada, que é a investigação direta dos atos do detetive. Mas, ainda na segunda temporada, os casos investigados são incríveis, tanto o primeiro, envolvendo um mascarado que mata de maneira incrementalmente mais desafiadora e, depois, o segundo, com um jovem que vive a vida jogando um RPG mortal. Não esperem, porém, resoluções arrastadas e demoradas. Tudo acontece rapidamente e sempre como pano de fundo para Luther em si, que se debate com uma questão pessoal em que se encontra chantageado por pornógrafos.

Finalmente, a terceira temporada, com adiantado acima, lida com a investigação direta e pesada das condutas de Luther, sem que os roteiros deixem de abordar casos igualmente interessantes investigados pelo detetive. É interessante ver o choque de técnicas, com Luther sendo o Luther de sempre e Erin e o experiente George Stark (David O’Hara) do outro, formando uma força tarefa anti-Luther. Há problemas na resolução desse aspecto da temporada, com acusações contra Luther que beiram o absurdo, mas, em linhas gerais, ela funciona, especialmente pela natureza “não-enroladora” da série.

Luther é um grande trabalho da BBC, Neil Cross e, claro, de Idris Elba que realmente mostra toda sua latitude, criando um personagem tão inesquecível quanto seu Stringer Bell. Entrar na mente desse personagem é viajar na psiquê de um policial que não tem a capacidade de impedir que o horror de seu dia-a-dia o afete profundamente. Imperdível.

Luther – Série Completa (Luther, Reino Unido – 2010 a 2013)
Showrunner e criador: Neil Cross
Direção: Brian Kirk, Sam Miller, Stefan Schwartz, Farren Blackburn
Roteiro: Neil Cross
Elenco: Idris Elba, Ruth Wilson, Dermot Crowley, Michael Smiley, Warren Brown, Steven Mackintosh, Indira Varma, Saskia Reeves, Paul McGann, Nikki Amuka-Bird, Aimee-Ffion Edwards, David O’Hara, Sienna Guillory
Duração: 51 a 58 min. cada episódio (14 episódios no total, ao longo de três temporadas)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.