Crítica | Macbeth: Ambição e Guerra

estrelas 3,5

Ser ou não ser um admirador de William Shakespeare? Confesso que nunca fui um grande estudioso do cultuado escritor inglês, e meu conhecimento sobre suas obras limita-se a alguns filmes, paródias e Casas da Árvore do Horror dos Simpsons. Este Macbeth: Ambição e Guerra é meu primeiro contato direto com esta obra específica e, se não conhecia por completo sua história, saio do longa de Justin Kurzel sabendo menos ainda.

A trama certamente é conhecida pela maioria, mas vamos lá a um breve sumário. Macbeth (Michael Fassbender) é um general do exército da Escócia que acaba encontrando três bruxas em um campo de batalha. Lá, elas profetizam que, após uma série de conquistas, ele se tornará o novo Rei. Com o apoio de sua esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard), os dois começam a planejar uma sangrenta tomada de poder.

Primeiramente, vamos deixar bem claro que William Shakespeare é um dos mais importantes nomes da literatura inglesa mundial. Seu trabalho na elaboração de narrativas e construção de personagens é incomparável, servindo de referência para qualquer escritor contemporâneo interessado em contar uma boa história. Mas se há um elemento que definitivamente não funciona para mim nas adaptações cinematográficas é a linguagem. O inglês medieval é bonito e dramático se lido nas páginas de papel ou proclamado em um vasto teatro, mas na condução de Justin Kurzel torna-se algo que pode facilmente distrair e incomodar o espectador durante a progressão da história (confesso que precisei usar uma colinha para compreender alguns pontos da obra). Fatores que também me atrapalharam até mesmo em adaptações mais “modernas”, como Romeu + Julieta e Muito Barulho por Nada.

Isso também desacelera o ritmo, que acaba deixando os enxutos 110 minutos parecerem ainda mais desgastantes, além de um desenvolvimento melhor de seus personagens desaparecer: Macbeth torna-se rei, mas em momento algum vemos algum tipo de questionamento, reflexão ou comentário por parte deste ou de algum outro personagem. E entendo que isso é uma característica essencialmente teatral, mas chega a incomodar ver Macbeth constantemente falando o que sente e pensa ao invés de simplesmente demonstrar (vide seu monólogo após a morte de Lady Macbeth), já que esta é uma arte audiovisual. Mas reconheço que, mesmo encaixando-se na categoria citada agora, a frase “Minha mente está cheia de escorpiões” seja entregue com perfeita precisão e dramaticidade.

No entanto, tal dialética favorece o excelente elenco. Michael Fassbender faz um Macbeth intenso, mas ao mesmo tempo contido; sua performance durante sua fase delirante não é caricato, mas sim realista. Cotillard faz uma Lady Macbeth memorável, e proclama com desejo e profundidade as palavras do texto, mas o roteiro infelizmente não consegue equilibrar sua presença na trama: começa manipulando eventos e o próprio protagonista à sua vontade, mas termina como uma figura desvanecida e sem pouca importância – e com nada da loucura pela qual a personagem é famosa. Vale também apontar o ótimo Sean Harris como Macduff.

Visualmente, reside o grande trunfo da produção. Kurzel revela-se um diretor criativo e com bom olho para planos elaborados e fortes, sendo especialmente feliz na condução das cenas de batalha: além de um uso certeiro de slow motion, Kurzel e o diretor de fotografia Adam Arkapaw valorizam a névoa das paisagens escocesas, chegando ao ponto de extrapolá-las ao preenchê-las com uma lúdica coloração vermelha; marcando o clímax do confronto final entre Macbeth e Macduff. Ajuda também a fantástica trilha sonora de Jed Kurzel, que adota uma clara influência escocesa para seus acordes (mas nada parecido com Barry Lyndon, por exemplo) que ora valorizam o drama, ora explodem de forma operática para os momentos mais violentos; o assassinato do Rei Duncan é o ponto alto, ainda mais pela montagem intrínseca que remete diretamente à Apocalypse Now.

Macbeth: Ambição e Guerra é uma produção vibrante do ponto de vista estético e certamente deve agradar aos admiradores profundos de William Shakespeare, mas ainda fica claro que – pelo menos para mim – a transposição literal do diálogo medieval da obra não funciona em uma obra cinematográfica.

Macbeth: Ambição e Guerra (Macbeth, 2015 – Inglaterra)
Direção: Justin Kurzel
Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie, Todd Louiso
Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Sean Harris, David Thewlis, Elizabeth Debicki, Paddy Considine, David Heyman, Jack Reynor
Duração: 118 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.