Crítica | Machinarium

estrelas 3,5

Machinarium é um grande quebra-cabeça baseado em uma jogabilidade point and click. Originalmente lançado para PC em 2009, foi relançado em 2011 para tablets e outras plataformas que permitiram uma grande massa de jogadores experimentar uma das melhores artes visuais recentes da indústria de games – e também um dos jogos mais desafiadores.

Controlando um pequeno robô montado com peças no meio de um lixão, o enredo do jogo vai se desenvolvendo aos poucos: uma gangue parece ter algum plano maligno para a cidade onde o jogo se passa e sua namorada está nas mãos desses vilões. Ou seja, você é o pequeno herói que sai do nada para salvar o dia, utilizando, essencialmente, sua inteligência. Os desenvolvedores claramente não focaram na história e no desenvolvimento do roteiro.

Parece correto afirmar que Machinarium serve mais como um retrato – ou retratos – de uma cidade diversa, cheia de lugares minuciosos escolhidos para serem os cenários do game. E que cenários! Com um traço muitíssimo bem acabado e uma paleta de cores escolhida com precisão, o game é um espetáculo de se olhar. Lembra um pouco 9 – A Salvação, de Shane Acker. Vê-se o tempo inteiro uma cidade realmente enferrujada e triste, mas com pitadas de humor, seja pela bandinha que toca na rua ou pelos bandidos trapalhões.

A sonoplastia também deve ser ressaltada, assim como a trilha sonora, que varia entre tons relaxantes e ruídos deslocados. A ambientação e imersão provocada pelo som e imagem utilizados é o ponto alto de Machinarium. Infelizmente, a jogabilidade não fica à altura do universo criado.

Engolindo os itens necessários, consertando encanamentos, regulando relógios, fazendo circuitos, ativando alavancas e ventiladores…os puzzles se resumem a essas atividades, que até são interessantes e originais no início, mas logo se tornam repetitivas e cansativas. Por ser point and click, o gameplay fica travado em alguns momentos e a falta de fluidez nessa mecânica não ajuda em nada um game que já possui puzzles complicados. É compreensível, todavia, essa opção por parte dos desenvolvedores, já que esse tipo de jogabilidade até se encaixa com o conceito analógico de Machinarium.

O fato é que alguns puzzles são exageradamente difíceis e não tão intuitivos. Até por isso o game possui um walkthrough que é possível ser acessado em qualquer momento de dificuldade, o que praticamente resume o nível do jogo. Isso fica ainda mais acentuado na versão para tablets e celulares, onde apontar e clicar em certos itens pequenos torna-se uma atividade homérica pelo tamanho desproporcional da tela e do dedo do jogador.

Reclamar da dificuldade em uma era de games fáceis e cheios de dicas pode parecer um excesso. Mas, no caso de Machinarium, não é, até pela ausência de curva de crescimento e do sentimento de recompensa, tão importantes em um game desse gênero. Particularmente, não gosto de ficar consultando um “detonado” a cada passagem de fase para saber o que fazer. Isso à parte, esse é um game de visual fantástico que desafia a inteligência do jogador, o que pode ser suficiente para uma jogada. Se o jogador conseguir se habituar à jogabilidade e enxergar desafios estimulantes, Machinarium será um jogo a ser lembrado. Se não, pelo menos a arte, certamente, ficará na memória.

Machinarium
Desenvolvedor: Amanita Design
Lançamento: 16 de outubro de 2009
Gênero: Puzzle/Point and Click
Disponível para: PC, Android, iOS, PS3

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.