Crítica | Macunaíma, de Mário de Andrade

O brasileiro é um dos povos mais mistos do planeta. Por isso, constantemente se encontra nas bifurcações de suas próprias contradições. Todo esse perfil multicultural que ergue a nossa nacionalidade já foi levado para reflexão no bojo das artes. São músicas, pinturas, obras literárias e filmes. Macunaíma, personagem desenvolvido por Mário de Andrade é um dos mais importantes, haja vista a riqueza de detalhes estéticos e a proeza crítica proposta pelo romance considerado o “mais importante do modernismo brasileiro”.

Nos eventos acadêmicos e nas discussões mais específicas da crítica literária brasileira, as ideias acerca do movimento modernista estão em transformação, provavelmente em mudança de paradigmas e reorganização do cânone, mas enquanto dados mais delineados não chegam ao conhecimento geral da sociedade, podemos afirmar que Macunaíma é a representação cabal das propostas do Manifesto Antropofágico, publicado em 1928, por Oswald de Andrade, na Revista de Antropofagia, um dos veículos de circulação das profícuas ideias da época.

Em parceria com Raul Bopp e Antônio Alcântara de Machado, a publicação trazia textos repletos de questionamentos e críticas aos movimentos da sociedade, ao passado histórico do Brasil e aos representantes políticos. O manifesto que baseia o romance em questão traçou reflexões sobre a necessidade de produzir-se uma literatura “essencialmente” brasileira, pois nas palavras em prosa poética de Oswald de Andrade, “só a antropofagia nos une”, isto é, era preciso deglutir o legado cultural dos europeus e ao digeri-lo, entregar um modelo de arte tipicamente brasileiro. Diante destes documentos e do efervescente período histórico, Mário de Andrade muniu-se para devorar as qualidades de outras culturas, tendo em mira transformar essa mixagem em algo nacional.

Foi desta maneira que em 1928, depois de muita pesquisa, o autor publicou a primeira edição do romance, com capa ilustrada por uma famosa pintura de Di Cavalcanti. Com o multiculturalismo como destaque central, Macunaíma é uma análise apurada das especificidades do povo brasileiro, constantemente em busca de reafirmação de sua identidade. Mesmo após décadas do seu lançamento, a obra de Mário de Andrade continua relevante para discussões do nosso cenário político e social, pois os ecos de um passado tenebroso e esquecível parece se anunciar o seu retorno. Preguiçoso, Macunaíma é o personagem título conhecido por “não ter nenhum caráter”. Anti-herói, o “malandro” vive às margens do mítico rio Uraricoera, juntamente com a sua mãe e dos dois irmãos, Maanape e Jiguê.

Após o falecimento da mãe, ele e os irmãos partem em busca de aventuras. Neste percurso repleto de idas e vindas ao seu ponto de partida, Macunaíma se torna Imperador da Mata Virgem, engravida a mítica Ci, envolve-se em confusões na busca pelo muiraquitã, uma pedra “mágica”, enfrenta o comedor de gente e além de deparar-se como o caos urbano em São Paulo, precisa enfrentar um vilão inescrupuloso, todos estes destaques, metáforas para questões sociais do Brasil.

Com uma narrativa que trata o tempo e o espaço de maneira arbitrária, Macunaíma mescla mitos, narrativas orais e tradições, numa projeção mais crítica da relação entre Literatura, História e Sociedade, algo já esboçado na busca pelo nacionalismo no século XIX. Como produção central do período modernista, o romance reflete sobre a mistura entre as culturas primitivas na vida cotidiana, reforçando as reminiscências de um passado ainda muito recente.

Na época de sua publicação, a aristocracia rural paulistana atravessava uma crise econômica sem precedentes, pois perdia o prestígio ao passo que a expansão da urbanização e as demandas da industrialização cresciam vertiginosamente. Esse momento está embutido de maneira irônica em Macunaíma, negro-índio preguiçoso, fora da lei e distanciado das evoluções tecnológicas e do sistema racional da vida em sociedade. Macunaíma representa o primitivismo em contato com as inovações, com as “atualidades”, num relacionamento que se configura entre aproximar-se e repelir-se.

Como professor de Literatura Brasileira, preocupado com a interação entre os leitores em formação e a obra que ás vezes pode soar hermética, indico a necessidade de acompanha-la com uma edição que tenha notas de rodapé. É algo fundamental, pois em muitos casos, o potencial criativo de Mário de Andrade é minado pelo distanciamento entre a língua portuguesa do leitor contemporâneo e as manifestações de outras culturas não normatizadas em nossa gramática cotidiana. Guiar-se diante da complexidade morfológica e lexical do romance é um requisito mínimo para penetração neste rico ambiente de representações culturais. Como aponta a prefaciadora Noemi Jaffe, Macunaíma “é um livro para entender as contradições de um país que não prospeta e não crê em seu potencial”.

Crítica ao modelo europeu de cultura e exaltação de particularidades do povo brasileiro, a obra de Mário de Andrade é relevante para o atual cenário político do nosso país, era (treva) em que a postura cidadã das pessoas está mais adormecida que Polifemo, da epopeia de Homero. É bem capaz que muitos brasileiros, ao serem entrevistados sobre suas concepções enquanto povo, origem e identidade respondessem o mesmo que o astuto Odisseu nos entraves da Odisseia: “meu nome é ninguém”. Salvas as devidas proporções comparativas, o que se delineia aqui é a constante comprovação do desconhecimento das pessoas no que tange às suas raízes, bem como a desvalorização contínua enquanto uma “comunidade imaginada”.

Transformada em quadrinhos por Rodrigo Rosa, em 2008, Macunaíma é uma obra que já passeou por vários meios artísticos. A cantora Lara Rennó, no mesmo ano do lançamento da HQ, produziu e divulgou o álbum Macunaíma Ópera Tupi, numa demonstração da relevância da trajetória do malandro para o entendimento de nossas questões sociais mais profundas. O cineasta Joaquim Pedro de Andrade foi um caso de sucesso no que diz respeito às traduções intersemióticas do livro. Em 1969, o filme homônimo foi lançado e tornou-se um dos símbolos da coesão das propostas do Cinema Novo brasileiro. Colorido e bastante vivo, uniu elementos eruditos e populares sem perder uma fatia sequer do rigor crítico.

*O Batizado de Macunaíma, de Tarsila do Amaral (imagem do topo)

Macunaíma (Brasil, 1928)
Autor: Mário de Andrade.
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 240.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.