Crítica | Mad Max 2: A Caçada Continua

estrelas 5,0

Mad Max fez um sucesso inesperado quando foi lançado em 1979, recebendo até mesmo uma dublagem em inglês americano (sem sotaque e gírias australianos) para ser lançado nos EUA pela Warner. Por duas décadas, o filme manteve-se em primeiro lugar como o mais lucrativo da história, perdendo o posto somente para A Bruxa de Blair, em 1999. Era óbvio, portanto, que uma continuação viria. No entanto, a produção havia sido mal recebida nos EUA e somente aos poucos vinha galgando espaço por intermédio da televisão.

Mesmo assim, a continuação veio logo em 1981, com uma saudável injeção de capital que mais que decuplicou o orçamento se comparado com o do original. Nos EUA, a distribuição ficou por conta da Warner que fez de tudo para distanciar a nova obra do fato de ela ser uma continuação. Mad Max 2, o título australiano original, foi alterado para The Road Warrior e as peças publicitárias nos EUA nem mesmo mencionavam Max. O público somente descobriria que se tratava de uma continuação ao ver a abertura em que Miller conta o que aconteceu no anterior em um flashback em preto-e-branco.

Aliás, esse flashback dá contornos de lenda aos feitos de Max Rockatansky (Mel Gibson). Ouvimos uma narração em off de alguém mais idoso, falando sobre Max como um herói do passado, o que transforma todo Mad Max 2 em um grande flashback também. Com isso, Miller amplifica a imagem do “guerreiro das estradas” ao ponto de ser um salvador, quase que um messias que vem ajudar um grupo de pessoas a chegar na Terra Prometida. E, de fato, esse é o mote da continuação: Max, primeiro por interesse pessoal e, depois, por um misto de vingança e solidariedade, decide ajudar um grupo de pouco mais de 30 pessoas a fugir de uma refinaria no meio do deserto levando milhares de litros de gasolina em um caminhão tanque em direção ao norte, longe da gangue comandada por Humungus (Kjell Nilsson), um alegórico e exagerado monstro sádico que parece ser o cruzamento de Jason Voorhees com o Gimp, de Pulp Fiction. Não menos alegóricos são os demais personagens, sejam da gangue ou da refinaria, pois Miller, com o orçamento aumentado, soltou a imaginação e extrapolou seus conceitos ainda tímidos de um mundo pós-apocalíptico. Assim, vemos personagens pitorescos como o demente Wez (Vernon Wells), com um moicano vermelho, cavanhaque, pintura de guerra, roupa de futebol americano e a proverbial bunda de fora (sim, isso mesmo) e o garoto selvagem que só grunhe e empunha um bumerangue de aço com enorme destreza.

Mas não são só os personagens que impressionam na continuação. A fotografia de Dean Semler faz uso de planos gerais em widescreen que deixam evidente a desolação do local e das vidas daquelas pessoas. E o preenchimento da tela com coreografias automobilísticas nas sequências em que Max e o piloto do girocóptero (Bruce Spence) observam a refinaria ao longe é absolutamente impressionante, tamanha a precisão e dificuldade técnica do feito. Miller usa tudo ao seu favor, tanto os stunts quanto o vento e as nuvens de areia geradas pelo mar dos mais variados veículos populando as sequências. É de se tirar o chapéu pela coesão narrativa que Miller e Semler mantêm, sem que o espectador seja bombardeado por sequências ininteligíveis cheias de cortes como é a regra dos filmes de ação de hoje em dia. Há urgência sem confusão. Há velocidade sem picotes de cenas.

O balé automobilístico que Miller produz é, diria, sem precedentes. Não só vemos as já citadas sequências em plano geral, como também participamos da sequência final de ação (os últimos 20 minutos da projeção) quase como motoristas dos veículos. Os efeitos práticos de colisões, capotagens e explosões são um colírio, um verdadeiro antídoto para a computação gráfica que inunda os filmes modernos. É quase impossível imaginar a coordenação e habilidade necessárias para construir o que vemos em Mad Max 2.  O filme literalmente estabelece o padrão para perseguições automobilísticas destrutivas que, arrisco dizer, jamais seria repetido no cinema.

O roteiro, assim como o do primeiro filme, é muito simples e segue exatamente o que descrevi acima: Max ajuda um grupo a fugir de uma refinaria levando a preciosa carga de combustível para um lugar que a lenda diz ser paradisíaco e longe de tudo. Mas Max não é o mesmo Max que vimos no primeiro filme. Alguns anos já se passaram, algo que não fica perfeitamente claro, mas que Miller evidencia pela mechas brancas nas laterais da cabeleira do protagonista. Mas a própria postura de Max mudou. Ele não é mais o policial enlouquecido por vingança que vimos anteriormente. Ele é um sobrevivente, alguém que vive um dia de cada vez, um tanque de gasolina de cada vez, sem planos de longo prazo. De certa forma, a atuação de Mel Gibson, aqui, ecoa a de Clint Eastwood como seu célebre Homem Sem Nome na Trilogia dos Dólares de Sergio Leone. É um homem de poucas palavras que age de maneira inicialmente egoísta, mas que, aos poucos, “veste a camisa” da causa e usa suas habilidades peculiares para resolver os mais diversos problemas. Max é o Homem Sem Nome do outback australiano.

A continuação é, assim como o original, uma fita extremamente violenta. Miller não atenua nada, muito pelo contrário. Mas, novamente, a violência é retratada de maneira exagerada e em um contexto que a torna crível, especialmente considerando o mundo em que vivemos hoje. Há uma forte crítica social nos moldes dos filmes de zumbi de Romero e que pode ser resumida em uma pergunta sem resposta: o que a sociedade humana é capaz de fazer para sobreviver em condições adversas? É ao redor dessa indagação que Miller trabalha a lenda de Max, usando-o muito mais como um instrumento narrativo do que como um personagem propriamente dito.

Mad Max 2 é uma continuação que consegue fazer excelente uso de um orçamento mais polpudo. George Miller soube trabalhar seu material, amplificar conceitos e empregar o dinheiro na construção de um universo peculiar e de uma das aventuras mais inesquecíveis da Sétima Arte.

p.s. Será que meus leitores me acharão insensível se eu disser que, no meio de tantas mortes, violência, estupros e destruição em geral, o momento que mais me entristece é quando o Interceptor V8 de Max é completamente destruído?

Mad Max 2: A Caçada Continua (Mad Max 2/The Road Warrior, Austrália – 1981)
Direção: George Miller
Roteiro: Terry Hayes, George Miller
Elenco: Mel Gibson, Bruce Spence, Michael Preston, Max Phipps, Vernon Wells, Kjell Nilsson, Emil Minty, Virginia Hey, William Zappa, Arkie Whiteley, Steve J. Spears, Syd Heylen
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.