Crítica | Mad Max

estrelas 3

Mais um sandbox? Outra adaptação de filmes malfeita? Jogo feito às pressas para aproveitar o momento do blockbuster de George Miller? Sim, um pouco de tudo isso. Ainda assim, Mad Max transporta um universo tão hipnotizante se concentrando nos elementos certos que gera, certamente, boas horas de entretenimento.

Soar enjoativo, ter uma jogabilidade manjada, utilizar uma história que mais serve de desculpa para explorar a vasta Wasteland e focar minimamente nos personagens faz parte do pacote que esse game traz. Todos pontos negativos e, pior, repetidos exaustivamente nos últimos dez anos em que o gênero de mundo aberto se popularizou. O jogo de Max é ótimo esforço para trazer ao controle do fã os carros e as mecânicas que o cinema tanto encheu de charme. O resultado, porém, é rústico, sem polimento suficiente para fazer Mad Max um jogo memorável.

As horas em que o gameplay automobilístico acontece são divertidas. Gráficos fantásticos passam uma imersão naquele deserto imenso, cheio de torres, fortalezas, snipers e outros carros inimigos na busca de destruição. O grande mérito do game é aproveitar as próprias armas e evoluções da Magnum Opus, veículo de Max, em detrimento da fraca maleabilidade do protagonista, narrativa, jogável e emocional ao tentar se estabelecer um vínculo com o jogador. O jogo só se torna diferente quando se está dentro do carro. Com a ajuda de Chumbucket, um reparador e mecânico ao melhor estilo dos filmes, tenta-se claramente incitar o jogador a explorar.

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O problema é que não há muito o que explorar. Derrotar fortalezas como em Assassin’s Creed, ou seguir as missões principais – algumas realmente enfadonhas – se tornam simples repetições sem sentido depois de um tempo…curto. Potencial desperdiçado, nesse sentido, já que utilizar os turbos ou melhorar a sua própria máquina traz uma satisfação ao jogador que até o prepara para dificuldades e terras novas.

Da parte de Max, tentou-se criar um estilo de combate no estilo da série Arkham. Outra falha. Entende-se, é claro, as lutas mais travadas e duras, pela própria peculiaridade de Max. O tom selvagem dos filmes está lá, também na pouca interação existente e principalmente no belíssimo deserto que pode fazer o jogador dirigir a esmo apenas para se sentir nas películas. Mas os inimigos colocados não trazem mudanças nem variabilidade suficiente para viciar o jogador no game, por mais que se queira. Da mesma forma, os objetivos, os diversos clichês colocados no começo do texto e a ausência de qualquer sinal de distinção do lugar comum fazem qualquer fã ficar com a sensação de que se poderia ter em mãos um produto extremamente melhor concebido.

O silêncio desesperador, todavia, combinado com a quase esquecida trilha sonora e o espetáculo visual – que não se compara com o último filme, mas ainda assim é bem realizado – dá um fundamento para que missão após missão seja realizada, quase que por inércia de tão intensa que a sensação de “mundinho” é em Mad Max. Mas não se engane: por mais que esse mundo desolador pareça mais fácil de ser transportado para os games do que uma Gotham City, Mad Max é um jogo medíocre.

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Há vários itens a serem colecionados, de fotos de um mundo mais civilizado até todos os veículos do deserto, o que deixa o jogador colecionador em estado de euforia. Por outro lado, a adrenalina pode vir nas disputas entre veículos, que envolvem diversas opções de jogabilidade, ainda que difíceis de serem colocadas em prática devido à falta de praticidade dos comandos. Percebe-se que o jogo tenta agradar a todos e trazer uma novidade com as batalhas de carro. A Magnum Opus realmente acaba sendo protagonista de um vínculo entre jogador e jogo, o que é ótimo. Entretanto, todo o resto se torna enjoativo pelos motivos já citados, o que mina o principal trunfo de Mad Max.

Uma vez abandonado o game dificilmente se voltará, a não ser que se queira passear pela Wasteland como se passeia por Los Santos de vez em quando. Nada é péssimo nem impossível de ser jogado. O jogo, sob uma certa perspectiva, até cumpre fielmente seu objetivo, fazendo o jogador se tornar Max: passivo, desinteressado, sem esperança, e com acessos de ira dentro de uma verdadeira caixa de areia cheia de problemas.

Mad Max
Desenvolvedor: Avalanche Studios
Lançamento: 1 de setembro de 2015
Gênero: Ação
Disponível para: PC, Ps4 e Xbox One

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.