Crítica | Mad Men 7X01: Time Zones

estrelas 4

Obs: A presente crítica contém spoilers da série e do episódio comentado.

E o fim começou. Uma das melhores séries da atualidade – Mad Men – do mesmo canal a cabo da laureada Breaking Bad e da bem-sucedida, mas não tão boa The Walking Dead, inaugurou sua caminhada de 14 episódios divididos em duas meia-temporadas de sete episódios, separadas por um ano inteiro de intervalo.

Sendo uma das poucas séries de televisão genuinamente focadas no comportamento humano e não em mistérios, tiroteios, explosões, assassinatos, monstros e dragões, Mad Men tem um público relativamente pequeno, mas cativo e é dona de roteiros normalmente extremamente bem escritos, com diálogos inesquecíveis. No entanto, é uma série que exige paciência não só pela quantidade de personagens importantes, mas pela mal-compreendida lentidão com que as coisas fluem. Essa “lentidão”, porém, é justamente resultante do foco nos personagens e em suas respectivas construções críveis, sem mudanças bruscas de uma hora para outra.

Saindo de uma 6ª Temporada pessimista, mas esperançosa, Matthew Weiner nos coloca, logo de início, em situações facilmente perceptíveis como alegres e otimistas. A agência de publicidade agora tem escritório também em Los Angeles e o episódio, como o título Time Zones deixa claro, trafega entre as duas costas dos EUA. Mas a vida pessoal de Don Draper (Jon Hamm) também trafega por essas mesmas duas costas, já que Megan (Jessica Paré), sua esposa, se mudou para Los Angeles para tentar carreira de atriz. Eles não estão tecnicamente separados e, logo após uma breve abertura em Nova Iorque (voltarei a ela mais abaixo), vemos Don visitando Megan. Com uma brilhante e alegre trilha sonora, uso de filtros amarelados, um figurino excepcional para Megan, um conversível de fazer cair o queixo cair e uma câmera lenta meticulosamente utilizada, o diretor Scott Hornbacher nos passa o que quer passar: tudo está ótimo na vida dos dois, apesar da distância. E essa maravilha toda continua no jantar de negócios que Megan tem com seu histriônico agente e Don em um chique restaurante da cidade. Ela conseguiu o papel que queria em nova série de TV da NBC e está nas nuvens, com Don muito feliz por ela.

Mas há algo de estranho. Uma distância calculada entre os dois, uma certa frieza que contrasta fortemente com toda a cenografia em cores fortes e figurinos exuberantes. E essa estranheza aumenta – e fica evidente – quando os dois finalmente estão sozinhos na fantástica casa de Megan nas montanhas fora da cidade. Ela está sozinha lá e a presença de Don a incomoda, ao ponto de ela impedir seus avanços fingindo – mal e porcamente, aliás – um mal súbito. Reparem: não é Don rejeitando Megan e sim o contrário. Don, aliás, na volta para Nova Iorque, inicia uma conversa com uma jovem viúva (Neve Campbell) que se senta ao seu lado no avião. Apesar de todas as chances que tem, Don simplesmente rejeita a abertura que ela dá, nos transmitindo a sensação de que ele está genuinamente tentando fazer com que seu segundo casamento funcione.

No entanto, voltando para Nova Iorque e para a tomada que abre o capítulo, vemos o simpático Freddy (Joel Murray) fazendo um enorme esforço para passar um pitch de publicidade para alguém que não vemos. A ideia é brilhante e a descrição dele viva e detalhada, ainda que mecânica, como se estivesse lendo um teleprompter. Sua interlocutora, então, é revelada: Peggy Olson (Elisabeth Moss), que fica estupefata pelo que acabou de ouvir, mas faz questão de não só humilhar Freddy verbalmente (“jamais esperaria algo tão bom vindo de você”) como toma para si a missão de alterar o slogan final só para dar seu toque pessoal, embora ela saiba que o original é melhor. Seria a prova definitiva de que Peggy se transformou em um novo Don Draper, alguém tão cheia de si que não aceita nada brilhante que venha dela própria? Mas, de toda forma, Peggy está feliz e confiante, ao ponto de enfrentar Lou Avery (Allan Havey), seu novo chefe que tem com ela uma relação estritamente profissional, algo que ela não está exatamente acostumada.

E a energia do episódio de abertura não diminui, pois vemos Roger Sterling (John Slattery) acordando no meio de uma orgia sexual em seu apartamento. Ele está feliz de verdade ou isso é uma fuga? Quando sua filha o chama para tomar um café da manhã com ele, a única coisa que passa em sua cabeça é “o que ela quer agora” em termos financeiros, claro, apenas para ouvir dela que ela o perdoa. Perdoar o que exatamente? Roger não enxerga o óbvio. Não quer enxergar. Assim como Don também não.

Joan (Christina Hendricks), sócia da agência depois do “episódio Jaguar”, é tratada literalmente como uma mera secretária pelo agora caolho Ken Cosgrove (Aaron Staton) e tem que se virar para impedir que um cliente, que acabou de contratar um gerente de marketing novo e cheio de ideias, retire a conta da agência. Ela não se faz de rogada, mostrando-se senhora da situação e toma para si as rédeas do assunto até o fim, no único arco narrativo (desse episódio) que tem movimento circular.

Ted Chaough (Kevin Rahm), que havia se mudado para a Califórnia para literalmente fugir de sua paixão por Peggy, volta para visitar a matriz novaiorquina e mergulha no trabalho para não ser obrigado a lidar com absolutamente mais nada. Felicidade ou tristeza profunda? A resposta fica evidente quando Peggy se depara com Ted na cozinha da agência e não esconde seu desapontamento em uma excelente atuação contida.

Finalmente, vemos Pete Campbell (Vincent Kartheiser) em uma hilária participação como o personagem que mais perfeitamente se adaptou à Califórnia. Bronzeado ao extremo, usando camisa de gola e bermuda, além de uma suéter ao redor do pescoço, ele é o arquétipo do almofadinha angeleno em uma performance que arrancará risadas, o que é ótimo considerando-se o tom enganoso que Weiner e Hornbacher imprimem ao episódio.

Mas é a Don que o foco realmente volta, com a revelação de que, apesar de afastado da agência, ele continua trabalhando de maneira vicariante por Freddy, dando as ideias para ele e deixando-o ir para o mundo vendê-las como freelancer. No entanto, Freddy, apesar do rostinho simpático, quase bobo, é sábio: nesses dois meses de afastamento de Don, ninguém da agência ligou para ele, não o convidando nem para a festa de final de ano ou para anunciar a aquisição de novos clientes. Será que até o “brilhante Don Draper” é substituível?

Não é à toa que, contrastando maravilhosamente com a abertura “feliz e alegre” do episódio, Weiner e Hornbacher o fecha com Don e Peggy solitários, miseráveis e chorando. A queda de Don, tratada na temporada anterior de forma mais acentuada, claramente ainda não acabou e Peggy parece estar seguindo pelo mesmo caminho, ainda que, claro, de outra forma. E, olhando para trás, o mesmo acontece com rigorosamente todos os principais personagens da série. Se alguém vai se reerguer, descobriremos ao longo dos próximos 13 episódios. Mas não esperem obviedades. Mad Men não é fácil não.

Mad Men 7X01: Time Zones (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Scott Hornbacher
Roteiro: Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Neve Campbell, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.