Crítica | Mad Men 7X02: A Day’s Work

estrelas 4

Obs: Contém spoilers da série e do episódio comentado.

Vergonha alheia.

Esse foi o primeiro sentimento que tive nesse episódio e ele demorou a passar. Mas o interessante é que o showrunner Matthew Weiner, assim como nos fez começar na alegria e acabar na tristeza em Time Zones, nos faz traçar o caminho oposto em A Day’s Work, mesmo que a tristeza tenha sido substituída por momentos de vergonha alheia que, na verdade, espelham o final do episódio anterior.

E que tristeza é essa especificamente? A de Peggy. Ela está sozinha, ainda claramente apaixonada por Ted, que está lá na outra costa americana, o mais longe possível dela para não deixar-se levar pela tentação que ela representa para ele. Mas acontece que é dia dos namorados e sabemos disso no segundo inicial do capítulo, com Peggy entrando no elevador junto com Stan e Michael e os dois não param de implicar com ela sobre seu status de solteira. É como jogar pimenta nos olhos dela e Peggy entra furiosa no escritório, somente para abrir um enorme sorriso ao ver lindas rosas vermelhas em um mais belo ainda vaso de cristal esperando por ela na mesa de sua secretária Shirley, que está momentaneamente ausente. “Quem as mandou?” – ela indaga de uma surpresa Shirley quando esta regressa para a sala. A reação de Shirley responde a pergunta para Peggy e para nós, mas de formas bem diferentes. Na mente de Peggy, foi Ted, claro. Para nós, a verdade chega com a necessidade de esconder o rosto atrás de uma almofada: as flores são da própria Shirley!

E a reação de Peggy, quando Shirley apenas mais tarde conta é a de uma criança desapontada que vai reclamar com a mãe que sua irmã a machucou. Ela pede arrego para Joan, que também tem que lidar com Dawn, a secretária que Lou divide com o ausente Don Draper. Essa narrativa de Peggy pode soar forçada e fora de caráter, mas, se pararmos para pensar, não é tanto assim. Peggy é ainda dependente de afagos e seu crescimento na agência a tem afastado de todos. Sua equipe não é mais uma equipe de amigos, mas sim de subalternos. Lou não é Don, longe disso, e a cumplicidade distante que existia é nula agora. Ted fugiu. Ela não tem ninguém para perguntar como ela está e esse episódio é uma espécie de explosão. Ela não aguenta mais. Afinal de contas, ela é só humana, não é mesmo?

Mas Pete também está se sentindo frustrado. Feliz da vida porque acabou de conseguir um novo cliente na Califórnia, tem sua novidade recebida com muita oposição por Jim Cutler, que parece ser o único sócio da agência que ainda tem alguma vontade de trabalhar seriamente. A felicidade é difícil de se alcançar e Pete tem que ouvir isso de sua própria namorada corretora de imóveis para cair na real. Será que isso vai representar uma guinada em sua vida, com ele repousando em berço esplêndido ou ele voltará com força total como a história que sua namorada lhe conta dá a entender? Só o tempo – e Weiner – dirão.

Voltando a Joan, que mencionei muito brevemente, finalmente alguém olha para ela. Afinal de contas, depois de tudo que ela fez para se tornar sócia da agência, ela continua sendo tratada como uma mera assistente, com uma sala com duas portas e nenhuma janela, equilibrando as atividades societárias com as mais mundanas como decidir quem fica com que secretária. No troca troca gerado pela insatisfação de Lou com Dawn e de Peggy com Shirley, ambos chefes sem nenhuma nesga de procedência em seus respectivos ataques histéricos, Jim finalmente olha para Joan. Em um piscar de olhos, ela ganha sala nova e função digna de uma sócia de verdade. Mas será que Jim fez isso para mostrar quem manda na agência, em vista da altercação que ele teve com Roger logo antes em razão da nova conta de Pete? Pouco importa. O que importa é que Joan finalmente ganhou seu merecido espaço – nem que seja só físico – na agência.

E Don? Esse continua sua trajetória para o inferno. Sem nada para fazer, sua vida é dividida entre acordar tarde, ver televisão e, no final do dia, ouvir um relatório de Dawn que vai até sua casa contar o que aconteceu na agência. Absolutamente patético. Mas sua filha, pela mão do destino, acaba descobrindo que ele vem escondendo sua suspensão da família e o confronta. O que se segue é um belo momento pai e filha que não vem fácil, mas sim aos trancos e barrancos, com cada um protegendo seu território com unhas e dentes. Mas a franqueza ganha e o espontâneo “eu te amo” que Sally diz para Don ao sair de seu carro é de arrancar um enorme sorriso de qualquer espectador e de nos fazer esquecer a vergonha alheia que sentimos durante o episódio.

A Day’s Work é um episódio que serve para nos dar algum tipo de esperança ao pesado ambiente que o anterior nos deixou. Resta saber se Weiner não vai nos puxar o tapete muito em breve. Pensando bem, não tenho muitas dúvidas de que ele vai sim…

Mad Men 7X02: A Day’s Work (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Michael Uppendahl
Roteiro: Jonathan Igla e Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.