Crítica | Mad Men 7X03: Field Trip

estrelas 4,5

Obs: Contém spoilers da série e do episódio comentado.

Parece que Matthew Weiner realmente resolveu torturar Don Draper. Como se não bastasse o fundo do poço em que ele já chegou duas vezes em temporadas anteriores e o semblante de esperança que o showrunner nos deu no episódio anterior, a vida será dura para o brilhante publicitário que roubou a identidade de um soldado morto. Expiação dos pecados? Preparativos para uma volta triunfal?

Já não faço mais apostas. Weiner joga baixo, tornando imprevisíveis as reações de nossos adorados personagens, com os quais convivemos há sete anos. Mas isso é bom, muito bom, na verdade.

O título do capítulo – Field Trip – refere-se diretamente ao passeio da escola de Bobby, filho mais velho de Betty e Don, para uma fazenda. Depois que Betty tem uma conversa com uma amiga sobre o papel das crianças na vida de uma mulher, ela resolve acompanhar seu filho para provar para si mesma o quão boa mãe ela é. É claro que tudo vai por água abaixo quando Bobby, inocentemente, troca o sanduíche da mãe por um pacote de balas. Betty dá um ataque e mostra suas garras. É  sua necessidade de que uma tarde com seu filho seja absolutamente perfeita ou é sua verdadeira personalidade dando as caras?

O fato é que os dois voltam tristes. Bobby desejando que o dia não tivesse acontecido e Betty achando-se a pior das mães. O pequeno incidente deixa às escâncaras sua inabilidade e inadequação à vida que escolheu, além de seu evidente traço de “maria-vai-com-as-outras”. Mais um personagem que já havia chegado ao fim do poço que Weiner encontra uma maneira de mostrar que o fim verdadeiro ainda não chegou.

De certa forma espelhando a  viagem de Betty com Bobby, Don vai para a Califórnia de surpresa visitar sua mulher depois que o agente dela liga preocupado com sua frustração em não conseguir um papel em Hollywood. A felicidade de Megan em ver Don não dura muito, pois ela logo passa a desconfiar que ele a está traindo por nunca estar no escritório e, quando ela consegue falar com ele, há silêncio ao redor e não barulho de escritório. Isso força Don a contar sobre sua “suspensão” da agência, o que imediatamente leva Megan a concluir que Don então escolheu ficar longe dela. É o velho ditado: “se ficar o bicho pega, se correr o bicho come”. Com isso, o casamento dos dois sofre o mais duro golpe até agora na série, golpe esse que faz Don procurar uma agência rival para cavar uma oferta de emprego. Bom, pelo menos é alguma coisa não é mesmo? Um pouco de reação para alguém que simplesmente aceitou sua suspensão e vive de não fazer nada, resignado, punindo-se diariamente.

Mas sua reação verdadeira é usar a proposta de emprego de agência rival para levar até seu amigo Roger Sterling e dizer que ele ainda é desejado por aí. Bacana, não? Se alguém aqui acha isso ético e moralmente correto, então, por favor, pode parar de ler essa crítica. O que ele faz é chantagem da mais baixa e consegue “ganhar” um convite de Roger para voltar. Com isso, Don volta. E tem a recepção mais estranha possível. Os subalternos o recebem bem, mas, na medida em que os degraus da escada hierárquica passam a se acumular, ele é recebido mais friamente, o pior exemplo desses sendo o de Joan, amiga de outrora. Ele obviamente não pertence mais àquele lugar. Ele não passa de uma curiosidade, de alguém esquecido nas brumas do tempo. E Roger não está lá, claro, pois ele chega quase às 2 da tarde depois de um “almoço tardio” como ele classifica. Don espera, sentindo-se cada vez mais humilhado, rebaixado.

Passa-se o dia inteiro e Don continua lá, sem sala, sentado quase que literalmente no meio de lugar nenhum, na terra de ninguém. Quando é chamado, os relutantes sócios presentes o aceitam de volta, mas com condições: (1) ele não pode atender a clientes sozinho; (2) não pode se desviar de um roteiro pré-aprovado quando fizer uma apresentação a clientes; (3) não pode beber no escritório, a não ser socialmente com clientes e, finalmente, a cereja no bolo (4) deverá responder a Lou. Essa cereja significa, na verdade, que ele, agora, ficará no mesmo nível de Peggy, apesar de seu status de sócio.

O interessante é ver como Christopher Manley, o diretor desse episódio, constrói toda a sequência com Don na SCP. Em elipses temporais, vemos o dia passar, com a agência cheia no começo do dia e vazia ao final, dando a entender o tempo que os sócios precisam para decidir o que raios fazer com Don. E, quando ele finalmente é chamado para a sala de reunião, a montagem intercala entre as exigências, ditadas friamente por Bert e Joan, com o olhar úmido, triste mesmo de Don. Mas é uma tristeza que talvez esconda a raiva, nos diz a montagem. Don vai estourar. Mas não. Em uma brilhante atuação de Jon Hamm, vemos um Don sem saída, despido de dignidade, simplesmente dizendo ok e aceitando trabalhar nessas condições de começo de carreira.

Por um instante, pensei: é óbvio que, nos próximos capítulos, veremos Don crescer novamente; tudo isso faz parte de seu plano de dominação mundial! Mas depois pensei novamente, mais friamente e concluí que seria irreal. Don está em um lugar terrível. Ele não é mais amado, não é mais venerado. É um outro Don que vemos reentrar na SCP, um Don domado, entristecido, largado e perdido. Posso estar enganado, mas é minha impressão no momento.

Weiner sabe cavar poços para seus personagens. E o de Don, se ficar mais fundo, fará com que o personagem literalmente desapareça na escuridão.  Tenho medo de Weiner agora…

Mad Men 7X03: Field Trip (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Christopher Manley
Roteiro: Heather Jeng Bladt e Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.