Crítica | Mad Men 7X04: The Monolith

estrelas 4

Obs: Contém spoilers da série e do episódio comentado.

Ficou mais do que evidente, no episódio anterior, que Matthew Weiner dificultaria a volta de Don Draper à SC&P. Seus sócios, com exceção de um Roger Sterling completamente perdido (mais sobre ele adiante) e de Pete Campbell, na Califórnia, não o querem por lá. Três semanas se passaram desde que ele voltou e Don não faz mais nada a não ser ficar fechado em sua sala lendo jornais e livros. Nem sair para almoçar ele sai.

Um possível novo cliente captado por Pete faz com que tanto o nome de Peggy quanto o de Don sejam mencionados como potenciais criativos para uma apresentação. Mas Lou Avery, o diretor de criação, não quer dar asas a Don e o coloca abaixo de Peggy que fica feliz da vida com o acontecido e age como Don agiria na posição dela: dura e secamente dando ordens. Mas a situação é difícil, pois Don, apesar de acatar passivamente a ordem de escrever 25 tags para o possível novo cliente em dois dias, nada entrega. O que Peggy pode fazer a não ser fechar a cara, fazer beicinho e descontar em subalternos? Afinal, ele é sócio. Ela, não.

Mas Don recebe essa situação da pior forma possível e se deixa abater, continuando a não fazer nada na sala que lhe foi dada, a de Lane Pryce, que tragicamente se suicidara e cuja morte é bem presente nesse episódio, com Bert Cooper lembrando esse aspecto a Don e com Don achando a bandeirola dos Mets (na cor laranja, claro!) de Pryce embaixo do móvel. Ele se entrega, então, a um de seus vícios novamente: a bebida. Nesse momento, pensei comigo mesmo: “de novo?”. Essa tecla já foi muito tocada por Weiner e, apesar de ser um caminho natural, esperava alguma outra saída para o personagem. Mas Weiner é inteligente e sabe que já usou a temática o suficiente em relação a Don. O que vemos é necessário para o que vem em seguida: Don, bêbado, chama seu amigo Freddie para ir ao jogo de baseball dos Mets. Freddie vem ao resgate e não só impede o desastre na agência, como, no dia seguinte, com Don de ressaca, faz como o Grilo Falante e marreta a verdade na cabeça de Don: “Você vai só se matar e dar a eles o que eles querem? Faça o trabalho, Don.”

E, com isso, Don volta à vida e ao trabalho, provavelmente tendo que galgar novamente os degraus da escada que já galgou. O episódio acaba com uma mensagem positiva para Don Draper, deixando Peggy de lado como uma chefe insensível e Lou como um alvo a ser atingido por Don (afinal, até Jim Cutler alfineta Lou dizendo que, da confusão, talvez alguma coisa boa seja feita) e nós sabemos que, para Don voltar arrasando, não será muito difícil. Resta saber se Weiner dará essa chance a ele.

No entanto, o arco de Don é intercalado com o arco de seu amigo, mentor e protetor Roger Sterling, mas com um final bem diferente. Roger é intimado por sua ex-esposa a resgatar Margaret (ou melhor, Marigold), a filha deles, que abandonou o filho e fugiu para um acampamento hippie no meio do mato. A conversa de Roger com Mona no carro a caminho do lugar é excelente e John Slattery e Talia Balsam, casados na vida real, dão um show de interpretação.

Chegando lá, Mona não aguenta nem dois minutos e vai embora, mas Roger dá uma chance para a filha e passa uma noite por lá. No dia seguinte, tenta arrancar Margaret do local sob a alegação de que ela não pode abandonar o filho. É a proverbial “levantada de bola”. Pois Margaret vem cortando, e cortando fundo, deixando às escâncaras algo que já havia ficado bem claro: ela é igual ao pai e, por isso, o pai não pode exigir nada dela. Roger, todo enlameado, vai embora. É um momento de cortar o coração, ainda que seja perfeitamente esperado e até, de certa forma, merecido.

Permeando todo o episódio, vemos a adoção do computador (o monólito, do título) IBM pela agência, em um movimento para mostrar que está antenada com o futuro. E que espaço a gigantesca sala do mainframe toma: a sala da criação, o lugar onde os criativos vão para discutir, pensar, fazer brainstorming. A metáfora da máquina substituindo o homem, matando o criativo, não foge à ninguém. É a morte novamente circulando em volta da série, seja a morte de Lane Pryce (que, de certa forma, salva Don de ser pego bebendo), seja a tentativa tacanha dos sócios da SC&P de metaforicamente matarem Don, seja pela efetiva morte de um estilo de vida, com a chegada de outro completamente diferente, dominado pelas máquinas (esse, que nós vivemos hoje em dia, aliás).

[Atualização, com base em pedido da leitora Cássia Fernanda Bernardino] Em determinado momento, Don, bêbado e carregado por Freddie, confronta Lloyd, o dono da empresa que está instalando o computador IBM. Nesse ponto do episódio, os dois já haviam tido uma conversa extremamente amigável que parecia caminhar muito bem, sobre a importância da publicidade. Mas a segunda conversa é estranha, com Don acusando Lloyd: “Você fala como um amigo, mas você não é.. Você tem vários nomes. Eu sei quem você é.” Reparem, Don está bêbado e dizem que a bebida liberta seus sentimentos mais profundos. Será que Don viu, na atitude expansiva e forçadamente amigável de Lloyd, algum tipo de falsidade? Será que é como Don se vendo em um espelho, considerando quem ele próprio (não) é? Parece-me que sim. A gratuidade do ataque pareceu-me, naquele ponto mais baixo do Dia de Don, uma espécie de auto-defesa, uma espécie de limpeza do sistema que, na manhã seguinte, já sóbrio, ajudou o publicitário – junto com o empurrão de Freddie – a vencer sua depressão e dar a volta por cima, mesmo considerando o cheiro de morte que circulava ao seu redor. [Fim da atualização.]

Mas o som das teclas da máquina de escrever de Don, com seu rosto concentrado para preparar o trabalho requerido por Peggy “até a hora do almoço” mostra algo bem diferente: Don está vivo novamente. E ai de quem ficar no caminho dele.

Mad Men 7X04: The Monolith (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Scott Hornbacher
Roteiro: Erin Levy
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.