Crítica | Mad Men 7X05: The Runaways

estrelas 4Obs: Contém spoilers da série e do episódio comentado.

The Runaways é o perfeito exemplo da razão pela qual Mad Men é uma das mais bem escritas séries da atualidade. Não que o episódio seja perfeito – comentarei mais abaixo os problemas que percebi – mas sim pelo fato de nada ser trabalhado da maneira mais óbvia ou lugar-comum. Matthew Weiner tem sua própria e muito peculiar visão e sob nenhuma circunstância ele parece disposto a seguir o caminho mais viajado. Seu trabalho é nos surpreender e surpreender ele consegue.

Afinal de contas, seria natural, depois, dos acontecimentos de The Monolith, vermos a ascensão de Don Draper. Contem a verdade: não era isso que vocês esperavam ver de maneira evidente em The Runaways? Sei que é isso que eu esperava, mesmo tendo a mais plena consciência que os caminhos de Weiner, especialmente no que se refere a Don, são, no mínimo, tortuosos. E é claro que o que ele acaba nos entregando não é exatamente isso. E usei um eufemismo aqui.

Logo nos segundos iniciais nossas expectativas são devidamente equalizadas, com Peggy, entrando no elevador com Don, já o colocando em “seu lugar”, demonstrando enorme petulância em sua continuada vingança velada por tudo que ela percebe que seu ex-chefe não fez para para ela. Don, por outro lado, apenas baixa a cabeça e dá a outra face. É Weiner dizendo que, se Don um dia realmente galgar novamente sua escada de sucesso, ele terá que expiar todos os seus pecados antes. E, como se isso não bastasse, Lou Avery, não muito tempo depois, em razão de piadas com seu hobby de fazer tiras em quadrinhos de um personagem chamado Scout que ele criara, deixa toda sua equipe criativa de castigo, incluindo Don, que tem que cancelar sua viagem para visitar Megan em Los Angeles.

Lou Avery é pintado como o grande vilão e, devo confessar que, por mais que Don tenha muitos defeitos, não ficaria nada triste se Weiner colocasse os dois em um ringue de boxe e Don desse um nocaute nele. Mas isso não acontecerá. Pelo menos não de maneira tão direta. Lou não tem o verniz da amizade disfarçada e, por isso, não é o inimigo mais perigoso de Don. Esse posto fica com Jim Cutler que, nesse episódio, mesmo quase não aparecendo, mostra suas verdadeiras garras: ele quer se livrar de Don e fará de tudo para conseguir isso. O estratagema da vez é usar a famosa –  e brilhante – carta aberta de Don contra a indústria do tabagismo, depois que a agência perdeu a conta da Lucky Strike, para, ao negociar a assunção da conta do cigarro Commander, da Philip Morris, forçar a saída de Don da sociedade. Mas um Harry Crane surpreso por descobrir que a festa a que sua namorada o convidara tinha Megan como anfitriã e, considerando o convite de Don para eles saírem dali para tomarem um drinque, acaba dando a chance que Don precisava para não ser pego de surpresa pelo plano maquiavélico de Jim e Lou. E, com isso, o episódio acaba com Don desferindo um cruzado certeiro nos dois, em uma espécie de vislumbre do “bom e velho Don”. Mas a coisa não será tão simples assim. Não mesmo.

E se o futuro profissional de Don é incerto, exatamente o mesmo se pode dizer de seu casamento. Levado para Los Angeles pelo repentino ressurgimento de sua “sobrinha” grávida e na penúria, Don se depara com uma esposa ciumenta e desesperada para fazer seu casamento funcionar novamente, mesmo que para isso tenha que recorrer a uma oferta – relutantemente aceita, vale ressaltar – de um ménage à trois com uma amiga também aspirante a atriz. A sequência, estranhíssima e quase surreal, vem em seguida à revelação por Harry que a manutenção de Don na sociedade está por um fio. Sua cabeça está em outro lugar e todo o estranho e incômodo assédio de sua esposa e amiga para fazer algo que ele talvez em outra época fizesse de absoluto bom grado, apenas serve para afastá-los ainda mais.

Em toda sua estrutura, The Runaways mantém uma aura de sonho, de surrealismo, que Weiner efetivamente leva à cabo com uma história separada do drama de Don: a espiral de paranoia de Michael Ginsberg. Personagem fascinante introduzido de forma brilhante e em momento perfeito da série, ele havia quase que sido relegado a não muito mais do que pontas de luxo em temporadas subsequentes. Muito do foco do mais novo episódio recai sobre ele, mas com uma luz estranha.

Fazendo imediata referência a The Monolith e ao computador que dá nome ao episódio anterior, vemos Ginsberg sofrendo com o barulho do mainframe e afirmando as maiores sandices. Há um paralelo muito interessante, uma espécie de fixação mesmo de Weiner com o computador, a evolução do homem (ou sua substituição) e como essas questões são tratadas em 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Afinal, se a ligação com o clássico de Kubrick já ficava evidente pelo título anterior (e pelo uso do IBM, escolha não aleatória com clara conotação kubrickiana e seu HAL 9000), ela se intensifica em The Runaways. Há o som emitido pela máquina que nos remete ao som “evolutivo” emitido pelo monólito e, claro, a reprodução da sequência de leitura de lábios por HAL 9000 através de uma estrutura envidraçada. No final disso tudo, porém, vemos um declínio rápido demais, pouquíssimo crível de Ginsberg em uma espiral de loucura, ao ponto de ele presentear Peggy com seu mamilo decepado (e, nesse momento, lembramos da sanguinolência do pé decepado por um certo cortador de grama…) e ser carregado para fora da agência amarrado em uma maca (o primeiro literal mad man da série?). É o momento em que o roteiro encontra um soluço, uma perda de ritmo e uma estranheza extrema, talvez não completamente justificável, mas também não menos fascinante.

Completando a lista de pessoas deslocadas de seus respectivos ambientes – Don deslocado de sua vida de casado e da agência, Ginsberg deslocado do mundo – há o eco de Betty em sua contínua inabilidade de lidar com seus filhos em uma narrativa entrecortada com preparativos para uma festa, uma conversa violenta com seu marido e um final com os dois mais deslocados – os fugitivos do título – dessa história toda: os filhos do casal Draper, literalmente perdidos e sem rumo. Dentro da insanidade de todo o episódio (ménage e mamilo cortado em pouco mais de 40 minutos!) essa narrativa mais séria, pesada e melancólica parece até deslocada, mas estranhamente o resultado final é muito satisfatório, quase natural mesmo.

Não há como se prever os rumos de Mad Men. A mente de Weiner é inescrutável e o que ele coloca na telinha é um impressionante universo que assombra e fascina o espectador. Parece-me que a volta de Don não será só difícil, mas, muito provavelmente, trágica, destruidora, inesquecível.

Mad Men 7X05: The Runaways (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Christopher Manley
Roteiro: David Iserson, Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.