Crítica | Mad Men 7X07: Waterloo

estrelas 5

Obs: Contém spoilers da série e do episódio comentado.

O mid-season finale de Mad Men representa o mais novo ápice dos roteiros para televisão. Digo mais novo, pois já tivemos ápices em Família Soprano, The Wire e, mais recentemente, também com a AMC, com Breaking Bad. No entanto, e talvez aqui eu vá enfurecer muita gente, nenhuma das séries citadas ou qualquer outra que porventura tenha deixado de fora, fez o que Matthew Weiner fez em Waterloo. Seu roteiro não só é coeso como final de meia-temporada, como também faz referência à morte, importante temática sempre presente na série, como reúne absolutamente todos os personagens de maneira relevante, trabalha cada um deles separadamente (claro, com foco em Don Draper) e, finalmente, faz um belíssimo tributo em vida ao ator  Robert Morse. E, tudo isso e muito mais tendo como pano de fundo o pouso do homem na Lua. Tentem encontrar por aí algo semelhante e tão bem costurado. Não encontrarão, tenho certeza.

Mas, para realmente apreciar o hercúleo trabalho de Weiner, que co-escreveu o roteiro e dirigiu o episódio, temos que lembrar de algo importante. A AMC exigiu que a 7ª e última temporada da série fosse dividida em duas partes separadas por um ano na linha do que a própria produtora fez, de maneira bem sucedida, com Breaking Bad. Como Mad Men nunca teve o sucesso de sua outra série, além de não ser estruturada com uma narrativa cheia de surpresas, essa exigência da produtora não só foi equivocada em termos de roteiro, mas, também, criou um problema evidente para Weiner: como manter o interesse pela série? Apesar de ser um grande apreciador do trabalho do showrunner, tinha minhas sinceras dúvidas que ele seria capaz de tirar esse coelho do chapéu, mas, para minha gratíssima surpresa, ele tirou uma ninhada inteira de coelhos e das mais diversas cores!

Com o problema em mãos, Weiner partiu então para uma estratégia ousada e que, de certa forma – mas comparar é injusto pelas circunstâncias completamente diferentes da série – já havia sido feito de maneira bem sucedida na 4ª temporada de The Walking Dead: a separação em duas meias-temporadas completas. Não entendeu? Mas é simples. Lá, Scott M. Gimple montou dois arcos narrativos, um trabalhando a volta do Governador e outro as consequências da destruição da prisão. Histórias diferentes e fechadas, cada uma formando, na verdade, uma pequena temporada. Weiner seguiu pelo mesmo caminho, mas com muito mais sutileza e uma infinitamente maior capacidade de trabalhar seus personagens, além de contar com um elenco incomparável.

Os primeiros sete episódios da 7ª temporada de Mad Men revolvem em volta da nova ascensão de Don Draper.  Mas isso, claro, em linhas muito gerais, pois essa ascensão é realista e cheia de percalços, talvez até com mais baixos do que altos. É como um homem aos poucos se ajustando a uma nova realidade e sofrendo enormes consequências nesse seu novo caminho. A segunda metade da 7ª temporada, arrisco dizer, tratará, de maneira mais orgânica, do conjunto dos personagens e da agência de publicidade que comandam. Afinal de contas, agora, a SC&P será um braço da gigante McCann que, apesar de ter prometido liberdade para Roger Sterling e companhia, é provável que interfira e muito na evolução criativa de todos, provavelmente até seguindo o caminho mais pragmático de Jim Cutler.

Meus leitores acharão que estou exagerando nas hipérboles, mas a grande verdade é que não consigo descrever com propriedade como exatamente Weiner fez o que fez em Waterloo. São detalhes demais, minúcias mesmo, algumas jogadas em nossa cara de maneira evidente, mas que deixamos escapar. Comecemos pelo título por exemplo: Waterloo. A grande derrota de Napoleão. A batalha é citada com todas as suas letras pelo sábio Bert Cooper, querendo fazer referência à queda inevitável de Don Draper. Cutler havia acabado de enviar, sem avisar a mais ninguém, uma notificação demitindo Draper por ter desobedecido as condições estabelecidas pelos sócios para sua volta. Draper enfrenta Cutler no meio da agência, exige uma votação imediata no corredor e acaba conseguindo suspender a sana destruidora (ou será que é benéfica) de Cutler, que fica sozinho com Joan que, agora, só parece pensar em dinheiro. Até Bert protege Don, mas, com ele deixa claro, muito mais por lealdade do que por qualquer outra coisa. E Waterloo é o exemplo que ele usa para mostrar a breve ascensão de Don e sua vindoura queda, ao mesmo tempo que aponta, muito friamente – mas verdadeiramente – a incapacidade de seu amigo Roger de liderar a agência, tarefa essa deixada no colo de Jim.

Esse breve diálogo, travado entre Roger raivoso e desrespeitoso de um lado e Bert sereno e sábio de outro é um primor narrativo que determina todo o futuro do episódio. Waterloo acaba sendo uma metáfora para Jim Cutler, não para Don Draper. Bert Cooper, verdadeiro líder, passa esse manto, com suas geniais palavras, para Roger, que se vê na obrigação de entabular o negócio com a McCann para impedir a expulsão de Don. Waterloo é a batalha vivida na sala de Roger em que Don, convencido por ele, luta para convencer Ted Chaough – com pensamentos suicidas! – a permanecer na agência por pelo menos mais cinco anos, dando a ele liberdade para fazer o que quiser, mesmo que o que ele queira seja só ficar olhando para a parede de seu escritório na Califórnia. Mas Waterloo também é a morte de Bert Cooper que por um momento pode parecer aleatória, mas que, no fundo, faz todo sentido. Bert morre vendo o homem pisar na Lua. Um grande homem se vai diante de um pequeno passo para a humanidade.

Mas reparem também na qualidade da construção do diálogo entre Don e Megan, um em cada costa dos EUA. Em pouquíssimas, mas dolorosas palavras intercaladas por acachapantes silêncios, mais um casamento de Don se vai. É evidente sua incapacidade de cultivar algo duradouro. E isso logo depois de receber a notificação enviada por Cutler, mas antes do homem ir à Lua. O mesmo vale para o crescimento de Sally literalmente à olhos vistos, que passa a adotar o visual e também o jeito de sua mãe, em uma excelente atuação de Kiernan Shipka também inspirada pela alunissagem do homem.

A cumplicidade de Don com Peggy iniciada em The Strategy se solidifica, com Don passando o bastão para ela de verdade finalmente. Ela tem que, de uma hora para outra, fazer a apresentação para o Burger Chef que pode representar a vinda da conta para a agência e, literalmente encarnando Don Draper, mas de um jeito muito Peggy Olson de ser, Elisabeth Moss acerta em cheio com seu improviso e com a troca de olhares com Don. Os dois realmente estão juntos – profissionalmente – mais uma vez. E Burger Chef é da SC&P (bem, da McCann, na verdade), uma grande vitória da dupla.

Mas o passado assombra e Weiner, mais do que ninguém, sabe disso, pois ele sempre retorna à gênese da série. O Don Draper que conhecemos nasceu da morte de um Don Draper que não conhecemos. A morte ronda Mad Men como um abutre ronda a carniça. Bert Cooper é o Lane Pryce da vez, com menos choque e drama com certeza, mas não com menor impacto. Apesar da pouca presença do personagem na série como um todo, fato é que a sapiência e excentricidade de Bert são sentidas, amadas e cultivadas por nós e pelos personagens. Quando Roger Sterling junta a agência para lamentar o ocorrido, logo no dia posterior de tamanha vitória do Homem – e logo em seguida à sua vitória pessoal contra Jim Cutler em uma mini-Waterloo –  Don Draper desce as escadas para se afastar de tudo e de todos, dizendo que “vai trabalhar”. Sim, vai trabalhar para fugir do que sente com certeza. Do que sente em relação a Bert, ainda que Bert não tenha se mostrado um grande amigo desde seu afastamento e, provavelmente, do que sente em relação ao seu segundo fracasso matrimonial. É nesse momento que esperamos que o episódio acabe.

Mas Weiner não trabalha com o óbvio. Nunca. Em hipótese alguma.

Depois de descer as escadas, Don dá de cara com Bert Cooper, vivinho, de terno e meias, feliz da vida cantando The Best Things in Life Are Free, música que, de uma tacada só, reúne citações à Lua e à simplicidade da vida. Bert, em um musical completo da Broadway, com direito a dançarinas, diz a Don, estupefato, que as melhores coisas da vida não tem preço e um Don decidido se desmantela em um Don olhando para seu passado e também para seu futuro debaixo do guarda-chuva com preço da McCann. No entanto, para realmente apreciar essa sequência em todos os seus detalhes, os leitores têm que se lembrar que Robert Morse, o ator que vive Bert, alcançou enorme sucesso em sua carreira como ator não na televisão, mas sim em musicais da Broadway. Assim, esse final homenageia, em vida, esse grande ator, ao mesmo tempo que comenta, como um momento de sonho, todo o acontecido, deixando em xeque a aparente vitória de Don com a ajuda de Roger, seu mentor.

Se as melhores coisas da vida não têm preço eu não sei, mas, em matéria de televisão, pagaria qualquer preço para ver a qualidade narrativa de Mad Men se repetir para sempre, em loop. Matthew Weiner poderia acabar a série aqui mesmo que já ficaria muito feliz. Saber que há mais sete episódios escondidos por aí que só poderei ver em um ano é tortura.

Mas valerá a pena, tenho certeza!

Mad Men 7X07: Waterloo (EUA, 2014)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Carly Wray, Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, January Jones, Christina Hendricks, Bryan Batt, John Slattery, Jessic Paré, Rich Sommer, Christopher Stanley, Harry Hamlin, Robert Morse, Mason Vale Cotton, Ben Feldman, Joel Murray, Kiernan Shipka
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.