Crítica | Mad Men – 7X08: Severance

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Mad Men é uma série para ser saboreada como um vinho encorpado. Aos poucos, com calma e muito prazer. Não é algo para ser compreendido em seus mínimos detalhes e sim para ser sentido, para inundar sua mente de experiências, para transportá-lo ao passado, para fazê-lo pensar.

Depois de quase um ano, Don Draper e companhia voltam para as telinhas, com Matthew Weiner atentamente no leme dessa que solidificou-se como uma das melhores séries dos últimos dez anos, quiçá de todos os tempos. Se o leitor acha que estou sendo exagerado, hiperbólico, é que talvez ele espere de Mad Men aquilo que a série não é: algo fácil, mastigado, cheia de mistérios ou de ação. Não. Mad Men é uma série que não tem o público imenso de outras séries que duraram menos tempo, especialmente se olharos para a própria produtora, AMC, que tem em seu cardápio Breaking Bad e The Walking Dead. Mad Men é uma obra de arte única que sua produtora, apesar da audiência relativamente baixa e de custos de produção altos, não teve coragem de cancelar justamente por reconhecer esses méritos intrínsecos que muita gente dispensaria com desdém.

No retorno, Don Draper, agora separado de Megan, voltou à sua antiga persona: o mulherengo fumante e beberrão que vive um dia de cada vez da maneira mais intensa possível. Sempre acompanhado de seu mentor e amigo Roger Sterling, Don gasta seu rico dinheiro depois que sua agência foi incorporada pela McCann. Seu trabalho é composto de longos cochilos no sofá de sua sala e de testes de modelos semi-nuas para campanhas de publicidade. Ele vive com um rei em Nova York.

Mas uma coisa sempre cercou e continua cercando o personagem: a morte. Se em Waterloo ele testemunhou o tocante (e sensacional) show de seu sócio Bert Cooper depois de seu falecimento, agora ele vê sua ex-amante Rachel Katz (Maggie Siff, em uma ponta) na véspera de descobrir que ela falecera. Chocado com a descoberta, ele vai até a família de Rachel, durante o Shiva, somente para lidar com a fria reação da irmã da falecida ao descobrir quem ele é. Esse é o momento que Jon Hamm tem para brilhar. E brilhar ele brilha. A fotografia escurecida, refletindo os figurinos também escurecidos, o espelho coberto e o foco no rosto sem saída de Don são claustrofóbicos. Ele é um homem à beira de um colapso, mas nem ele sabe disso. Ele voltou à sua antiga vida e talvez veja na morte um dos poucos momentos de escape, em que ele pode se ver como ele é: uma força auto-destrutiva que não pode ser parada. O cenho sério, a boca cerrada, a cabeça levemente para baixo. Hamm incorpora Don como nunca e estabelece talvez o tom para os últimos episódios.

E sua história continua com sua estranha relação com a garçonete Diana (Di pronunciado como die ou “morra” para que não esqueçamos da ligação) e a nota de 100 dólares deixada no dia anterior por Roger como gorjeta. É Di que pergunta, em determinado momento, se Don não sonhava sempre com Rachel. Outro ponto para se pensar, em uma pegada ainda mais metafísica do que de costume, ainda que não completamente diferente do caminho que Weiner já vinha trilhando desde literalmente os primeiros episódios da 1ª temporada.

No lado de Peggy, as coisas continuam como sempre. Depois de uma reunião particularmente pesada dela, Joan e uns chauvinistas mal educados que ultrapassam e muito o limite do razoável – novamente objetificando a coitada da Joan, que tanto sofreu com isso – as duas tem uma interessante interação no elevador que leva a um atrito e a decisões. Joan procura um novo visual, algo condizente com seus “milhões” (aparentemente, a venda para a McCann foi realmente lucrativa!) e Peggy encara um encontro às escuras com Stevie (Devon Gummersall).

Depois de seu romance fracassado com Ted, é quase que uma injustiça de Weiner não deixar a moça ser feliz. E o encontro vai muito bem – talvez bem demais – com Peggy chegando com uma alegre ressaca no dia seguinte. Será que veremos mais de Stevie nos próximos episódios ou o showrunner vai puxar o tapete debaixo dos pés de Peggy?

Ken Cosgrove é o terceiro vértice desse midseason première. Uma escolha estranha, mas gratificante, pois o personagem, vivido por Aaron Staton, é sempre cativante toda as poucas vezes em que foi o centro das atenções. Ele já deu um olho pela agência e, apesar do pedido de sua esposa para largar tudo e ir para o campo viver seu sonho de escrever um livro, ele vai trabalhar somente para ser defenestrado sem cerimônias por Roger, a pedido da McCann, que simplesmente não gosta dele e o aturava em razão de seu sogro ser da Dow, cliente da agência. O jeito blasé com que Roger o demite é enervante, daqueles que dá vontade de pular na tela e arrancar o novo – e ridículo – bigode setentista do personagem.

Mas o que é o destino, não? Ken agora está livre para perseguir seu mais íntimo desejo. E é aqui que Weiner nos joga a proverbial bola curva e faz o personagem voltar triunfalmente – sem nunca ter ido, na verdade – agora como cliente da agência e com uma missão pessoal de vingança. Roger e Pete que se cuidem, pois vem chumbo grosso por aí (“olho por olho” será?).

O figurino da série sofreu grandes modificações. Com exceção de Don Draper, todos alteraram a aparência geral. Roger, como disse, mas também Ted, têm bigodes de fazer rir e as roupas mudaram para deixar bem evidente a chegada da década de 70. Considerando que o ano é exatamente 1970 (por volta de abril, mais precisamente, pois foi o mês do discurso de Nixon sobre retirada do Vietnam que vemos na televisão de Don), essa troca de figurino é, talvez, exagerada, mas a produção não terá outra oportunidade de marcar a década com as roupas, como fez com a de 60, a não ser que Weiner planeje algum outro pulo temporal, algo incomum na série.

Severance é um episódio que recapitula sem ser óbvio e impulsiona a narrativa ao mesmo tempo. Retrabalha o tema da morte e o da busca da felicidade com uma nova roupagem. Um excelente, ainda que não perfeito, começo do fim para uma série que, como um vinho safrado, envelhecido à perfeição, vai deixando sua marca em quem o prova.

Mad Men – 7X08: Severance (EUA – 2015)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Scott Hornbacher
Roteiro: Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kevin Rahm, John Slattery, Maggie Siff, Elizabeth Reaser, Devon Gummersall
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.