Crítica | Mad Men – 7X10: The Forecast

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

A sofisticada cobertura 17b de Don Draper está vazia. Sua mobília se limita à mesa e cadeira da sacada. Mas há algo ainda mais vazio que o apartamento: sua vida. E é isso que Matthew Weiner, que também co-escreveu o roteiro, explora tão bem em The Forecast, o 10º episódio da última temporada da série.

É esse tipo de episódio que marca muito bem o que é Mad Men e porque o trabalho do showrunner e de toda a equipe é tão sensacional, diria até sem precedentes na TV. Abordando narrativas paralelas, ele costura uma história una, literalmente sobre o futuro, não necessariamente o futuro da série, agora que só faltam quatro episódios, mas sobre o futuro em si. O que esperar se você já chegou a um ponto em que tem tudo? O que mais você pode querer? Mas talvez haja uma pergunta mais perniciosa, mais difícil de localizar e mais difícil ainda de concordar que ela existe ou mesmo dar uma resposta: você tem tudo que sempre quis?

Essa talvez seja a pergunta que lateja na testa de Don Draper sem ele sequer reconhecer que ela está lá, bem a sua frente. Em New Business, sua vida com Megan acabou e a vida que ele tinha Betty não é muito mais do que uma lembrança nostálgica. Em The Forecast (em tradução livre direta “A Previsão”) Don é forçado a olhar para o futuro por intermédio de um discurso que Roger pede para ele escrever sobre o que se espera da agência daqui para frente. Esse é o gancho para deixar Don pensativo e sem respostas.

Pegue a conversa que ele tem com Peggy, que exige que ele faça a análise de sua performance. Don aproveita para tentar extrair dela uma visão de futuro. Peggy é direta e objetiva, mas dentro de um futuro que somente lhe diz respeito – afinal, essa é a análise da performance dela – e surpreende Don. Por seu turno, Don tenta dar respostas que não sejam de desdém ao que ela afirma com todas as letras, mas ele não consegue. O mesmo acontece quando, antes, ele conversa com Ted e ouve de seu sócio respostas claras, diretas e empolgadas com o trabalho. E isso vindo de Ted, que teve que ser convencido quase à força a permanecer na agência quando a McCann queria comprá-la.

Don não sabe o que ele espera do futuro tanto para a agência como, principalmente, para ele. Ele olhou para seu passado no episódio anterior e nada viu que ele pudesse voltar. Perdeu sua segunda esposa (bem, tecnicamente a terceira) e, agora, não consegue nem mesmo aconselhar um criativo que pede sua ajuda em uma hora de desespero. Ele ouve de Don conselhos jogados, mal explicados, os interpreta mal e põe os pés pelas mão somente para voltar a Draper e dizer a verdade nua e crua: ele só tem a beleza, mais nada. E, em New Business, Megan já deixara claro que mesmo essa beleza estava desaparecendo com a idade, no duro diálogo na sala vazia do advogado.

O que ele é agora fica perfeitamente simbolizado pelo diálogo que tem com sua corretora. Ela quer vender a cobertura de Don, mas vender um apartamento vazio é difícil, pois possíveis compradores se afastam diante do aparente abandono, do tapete manchado de vinho que o dono nem se deu ao trabalho de mudar, à infelicidade que está impregnada no ar. Don não aceita a explicação, inventa uma vida falsa, um mentira sobre “os donos do apartamento” que a permita vender o imóvel. É um momento breve, mas muito triste. Ele tenta desesperadamente negar aquilo que está diante de seu nariz e, no processo, comete exatamente os mesmos erros que cometeu quando se transformou em Don Draper. Ele inventou uma vida fantasiosa em Nova York, usurpando o nome de um soldado morto. Ele viveu – ainda vive – uma fantasia que ele criou e sua profissão é justamente inventar histórias, histórias essas que ele mesmo diz não ter valor. Ao criar uma fantasia para sua corretora ele repete o erro de sua vida, quase que no automático, deixando ainda mais saliente o espaço vazio em seu âmago.

Mas há mais vazio na vida de Don, uma vazio também refletido em sua filha mais velha, Sally, que está de partida para uma viagem pelos EUA com suas amigas. A menina cresceu e testemunhou  muito do estilo de vida do pai e um jantar dela com ele e suas amigas deságua em uma delas, Sarah, abertamente jogando charme para Don que, tenho para mim, não retribuiu, apenas foi educado no trato. Mas Sally tem um olhar justificadamente viciado. Ela sabe do que seu pai é capaz, do que ele fez com a família, do que ele continua fazendo (ele voltou à sua vida de solteiro como vimos no início de Severance). Talvez Don nem mesmo tenha mais sua filha. E não há nada mais triste do que ser rejeitado por seus filhos.

O episódio, porém, não lida somente com Don. Há foco também em Betty, quando Glen volta para “sua vida” ainda apaixonado por ela. O garoto gordinho agora é um jovem de 18 anos prestes a ir para a guerra. Ele tem ainda a esperança – fantasiosa, vale frisar, assim como as fantasias de Don – de ter um relacionamento com Betty. É bastante plausível concluir-se que ele só manteve a ligação com Sally justamente com esse objetivo, mesmo depois desse tempo todo. Mas o interessante é ver a reação de Betty. Aquela garota bobinha não mais existe. Betty cresceu, tem responsabilidade, sabe o que quer. Quando o jovem avança, ela o afasta. Quando ele pergunta a razão, ela responde direta e inafastavelmente: “Sou casada.” Simples. Ela agora é chefe de família. Respeita e exige respeito. Mas olhemos para sua ex-cara metade agora. Será que Don chegou a esse ponto de amadurecimento? Será que Don se respeita? Será que Don sabe exatamente quem ele é se ele não faz ideia nem mesmo de seu futuro?

E esse futuro parece iluminado para a bela Joan. Em viagem ao escritório da Califórnia, ela conhece o divorciado Richard (o ótimo Bruce Greenwood, pela primeira vez na série) e começa um caso. Ao esconder que tem um filho, deixa o homem confortável com sua regra de não ter qualquer tipo de planejamento, mas, quando ela conta a verdade, ele fica frustrado e reage de maneira ríspida. Por um momento, pensei que seria o começo de um final feliz para Joan – ela merece! -, mas é difícil saber com certeza, mesmo com as desculpas que ele pede no dia seguinte. O momento, porém, é de grande destaque pela fantástica atuação de Christina Hendricks que transita facilmente entre mulher de negócios, mulher apaixonada, mãe devota e mulher ferida. Ela, diferente de Don, sabe o que quer, conhece seu futuro. Isso, ao menos, é claro.

Pode ser que muitos achem que a série precisa caminhar com passos mais rápidos em razão de seu encerramento muito em breve. Mas Mad Men não é assim. Mad Men é a vida como ela é. Não há fechamentos retumbantes, encerramentos redondos e finais estrambólicos. Mad Men é televisão adulta de melhor qualidade que nos faz olhar para nós mesmos com indagações embaraçosas.

Olhem para o apartamento vazio de Don Draper e indaguem a si mesmos o que querem do futuro de verdade. Ficarão surpresos ao descobrir que talvez a resposta seja mais furtiva e difícil que imaginam.

Mad Men – 7X10: The Forecast (EUA – 2015)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Jennifer Getzinger
Roteiro: Jonathan Igla, Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kevin Rahm, John Slattery, Elizabeth Reaser, Devon Gummersall, January Jones, Christopher Stanley, Julia Ormond
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.