Crítica | Mad Men – 7X11: Time & Life

mad men 7x11 time life

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Sei que muita coisa aconteceu nesse episódio, mas a sequência final, com a câmera lentamente se afastando dos cinco sócios da Sterling Cooper & Partner e deixando-nos ver a reação de todos os empregados da agência em relação ao anúncio da absorção pela McCann Erickson, é de se tirar o chapéu. O som de vozes aumenta, engolfa o ambiente e os sócios nada podem fazer, a não ser observar, em sua solidão, seu legado esfacelar-se.

É um momento forte e muito bem trabalhado com uma direção surpreendente de Jared Harris voltando não como Lane Pryce, mas como diretor de primeira viagem (!!!) na série e em sua carreira. E é também um momento que faz mímica de outro não muito tempo antes, quando a estratégia de Don e companhia é massacrada pelo impassível diretor da McCann, que os deixa falando sozinhos, depois de afirmar que os cinco “morreram e foram para o paraíso publicitário”.

São dois momentos marcantes que comentam outro, que fica mais, digamos, discreto no episódio, mas que já vinha sendo construído há bastante tempo: a solidão de Don Draper. Ele não tem mais sua segunda esposa. Não tem mais seu apartamento. Não sabe onde está Diane, a garçonete com quem se envolveu. Não tem mais filhos, que estão em outra, com Sally tendo literalmente renegado sua filiação, por assim dizer, no sensacional episódio anterior. E, finalmente, não tem mais agência. É parte de uma máquina gigantesca. Apenas mais um sem nome entre tantos. E não ter nome tem um significado muito especial para Don, pois, lembrem-se, ele não é Don. Sem nome, ele não é ninguém ou volta a ser quem era antes de assumir outra identidade.

E ele está  sozinho de verdade. Chega a doer no coração, mas parece ser um caminho inexorável a que nos leva o showrunner Matthew Weiner. Don Draper lutou, mas não conseguiu virar a mesa. Por um momento, tivemos a esperança de que estávamos vendo outra ideia sensacional do charmoso e genial publicitário, mas BAM!, nada feito. Ele é derrotado. Mas é derrotado duplamente – ele mesmo diz isso – ao capitular até para Roger, depois que ele revela estar saindo com Marie Calvet, ex-sogra de Don. Roger saindo de cena e deixando Don sozinho no bar, depois que Ted, Joan e até mesmo Pete já tinham ido atrás de seus respectivos pares é a marca do pequeno mundo em que o protagonista agora vive. Ele não tem mais ninguém a quem correr.

Essa absorção da SC&P pela McCann era algo inevitável. Além disso, marca historicamente uma época em que as pequenas agências de publicidade foram sendo sistematicamente engolidas por outras cada vez mais gigantes em um movimento cíclico que Weiner soube contar muito bem ao longo de suas sete temporadas. Com isso, não só vemos as interessantíssimas histórias de seus cativantes personagens fictícios, como, também, a história real da publicidade mundial, que se reflete e alcança até os dias de hoje.

Mas Weiner, que co-escreveu o roteiro com Erin Levy, volta também ao final da 1ª temporada, abordando pela primeira vez (de verdade) desde então um assunto que sempre me incomodou: a gravidez indesejada de Peggy. Incomodou-me pela forma estranha como o assunto foi tratado lá atrás, já que a gravidez foi surpresa até mesmo para a grávida. E o assunto foi, consequentemente, enterrado muito fundo só vindo à tona algumas poucas vezes ao longo das demais temporadas. Agora, porém, a questão volta com um tom finalista que encerra o ciclo completamente. Peggy conta sobre sua gravidez a Stan, depois que ela tem um entrevero com uma mulher que literalmente largou sua filha no meio da agência para pegar seu outro filho. Stan julga a mãe duramente e vê que Peggy não embarca em seu raciocínio, aos poucos trazendo à superfície a história secreta de sua chefe e a escolha que ela fez: a profissão no lugar da maternidade.

Trata-se de outro momento belíssimo na série, escrito de maneira elegante e nada piegas, sem dramaticidade exagerada. Elisabeth Moss dá show como a resolvida Peggy e nos deixa de queixo caído. Em mãos menos hábeis, essa sequência seria longa, expositiva e com contornos mais evidentes. Weiner trabalha suavemente os diálogos e Harris, na direção, entrega uma sequência à meia-luz, com câmera parada, solene, que dá conta do recado com a seriedade que ele exige. A história de Peggy parece (posso estar enganado, claro) ter chegado ao fim. E a um fim redondo, lógico e digno para a excelente personagem no mais completo arco dramático depois do de Don.

Time & Life é o episódio que, definitivamente, marca o começo do fim. Ao alterar as regras do jogo provavelmente uma última vez, Weiner nos prepara para a despedida de um marco da televisão moderna. A câmera está se afastando lentamente e nos deixando órfãos de Mad Men. Mas a jornada foi – tem sido! – inesquecível e é ela que conta, não é mesmo?

Mad Men – 7X11: Time & Life (EUA – 2015)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Jared Harris
Roteiro: Erin Levy, Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kevin Rahm, John Slattery, Elizabeth Reaser, Devon Gummersall, January Jones, Christopher Stanley, Julia Ormond
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.