Crítica | Mad Men – 7X12: Lost Horizon

mad men 7x12 lost horizon

estrelas 5,0

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Tenho para mim que um crítico de cinema e/ou TV não pode se manter sempre impassível, olhando para o objeto de seus comentários de maneira objetiva e técnica. Há coração no trabalho de análise de uma obra, por mais que ele deva ficar em segundo ou talvez terceiro plano, para evitar que preferências pessoais atrapalhem o resultado.

Mas há vezes que o coração fala mais alto e esse foi o caso com este crítico depois de assistir Lost Horizon.

O episódio acabou e fiquei assistindo, estupefato, aos créditos rolando. Estava sem reação, sem fôlego, talvez com uma lágrima furtiva nos olhos. Não que o episódio em si seja o melhor de toda a série. Ele é, sim, sensacional, mas, para quem acompanha Mad Men, esse é “mais um” episódio sensacional em uma série de altíssimo nível, que, arrisco dizer, é sem paralelo na televisão. Mas há um fator extra: faltam apenas mais dois episódios agora e o horizonte (com trocadilho) já começa a delinear-se). Quando finalmente saí do estupor, revi o episódio todo, nem bem dez minutos depois dele acabar. Matthew Weiner faz pura magia audiovisual como poucos showrunners conseguiram e independente da qualidade dos dois episódios que ainda estão por vir.

Reparem como o episódio começa. Nós vemos Don Draper entrar no elevador, ser cumprimentado por uma secretária cujo nome ele não tem certeza que se chama Beverly e que diz que ele vai ao 19º andar. É uma cena corriqueira na série, mas que já mostra que há algo diferente. Esse não é o elevador da SC&P, mas sim da McCann Erickson, algo que é confirmado pelo corredor mais movimentado e escuro no qual vemos Don surgir, somente para encontrar-se com sua secretária que está lá para não deixá-lo “se perder” na confusão. Houve um salto temporal, ainda que curto, talvez de apenas uma semana, mas a perda completa de identidade da agência de Roger Sterling e companhia já aconteceu. Don tem uma sala nova (que deixa o vento entrar pela fresta de uma janela, fazendo um barulho fantasmagórico – mais sobre isso adiante) e uma função nova dentro de uma engrenagem muito maior.

Mas Don é Don e, como esperamos, ele é muito importante, correto? Claro! Jim Hobart, o diretor da McCann, está de volta das férias e quer falar com Don e dizer o quanto ele, há dez anos, queria a presença do criativo em sua agência. Fica evidente que Don foi a razão pela qual a SC&P foi comprada. E Don, alegre, cai no jogo de Jim e do nojento Ferg, que só sabem inflar seu ego, fazendo-o até mesmo afirmar, orgulhoso: “Sou Don Draper da McCann Erickson”. E com direito a uma câmera levemente abaixo da altura do ombro do personagem lentamente se aproximando dele enquanto a simples mas pomposa frase é dita.

Acontece que Weiner não tem a menor intenção de tornar as coisas fáceis para Don (ou para nós, aliás…). Não mesmo. Nós sabemos muito bem como são as personalidade de Jim e Ferg e também conhecemos a de Don, que, por mais brilhante que seja, tem seus diversos e salientes problemas. Quando então, em uma apresentação da cervejaria Miller, Don entra em uma sala com Ted e mais um batalhão de diretores de criação, ele finalmente descobre que, muito diferente da “baleia branca” que Jim disse que ele é, o protagonista é, na verdade, apenas mais um no meio de iguais. Não há nada especial em Don, muito menos em “Don da McCann Erickson”.

Lembrem-se que essa segunda metade da última temporada da série vem tirando tudo de Don, desnudando-o completamente para quem quiser ver. Primeiro foi Megan, depois seu apartamento, em seguida sua filha, com vislumbres da vida que poderia ter tido se tivesse continuado com Betty não fosse sua necessidade patológica de refugiar-se nos braços de amantes, em busca de reafirmação e também como uma fuga da identidade que roubou durante a guerra. O ápice dessa solidão, possivelmente, se dá agora, quando Don finalmente passa a ser apenas mais um. O bonitão genial das primeiras temporadas – o Don Draper da identidade roubada – dá lugar ao “Zé Ninguém” que ele provavelmente estava fadado a ser desde o início.

Quando Don olha pela janela e vê o mundo lá fora representado pelo avião ao longe, ele percebe a sinuca em que se encontra e, sem falar com ninguém, se levanta e vai embora em uma espécie de viagem de autoconhecimento depois que mais uma vez perde a oportunidade de ver a filha e conecta-se ainda que brevemente com sua vida pré-histórica com Betty. Mas essa viagem tem uma objetivo: achar Diana, a garçonete com quem se envolveu. No entanto, paremos para pensar se esse é mesmo o objetivo de Don. O que ele quer, de verdade, é fugir. Fugir para não encarar a realidade. Fugir para ser ele mesmo. Diana é uma desculpa, uma imagem idealizada de alguém que ele não pode ter.

E seu encontro com o fantasma de Bert Cooper (Robert Morse voltando em uma ponta) é um daqueles momentos memoráveis da TV que fala diretamente com nosso coração. O grande guru da SC&P volta a aconselhar Don, na mesma linha do que fez em Waterloo. É a morte se aproximando de Don mais uma vez.

De maneira entrecortada, vemos também a narrativa do que parece ser o encerramento do arco de Joan. A ruiva voluptuosa que tanto sofreu simplesmente por ser quem é, uma mulher moderna em tempos medievais (e será que os tempos atuais são tão diferentes assim?) que é vista como objeto por homens sem qualquer tipo de escrúpulo. Ela sofreu para se tornar sócia da SC&P e, agora, na McCann, assim como Don, é apenas mais uma na engrenagem. Mas pior, claro, pois ela é uma “mera mulher” na enorme e impessoal agência, alguém que está lá muito mais como um enfeite para o prazer visual dos homens do que para qualquer outra coisa.

Christina Hendricks, novamente, consegue se superar aqui. Suas mudanças de expressões nos diálogos com Ferg, Don, Jim e, finalmente, Roger, merecem aplausos efusivos. Vemos certa inocência, apesar de sua experiência, surpresa, vingança, esperança, amizade e pedido de socorro sem que ela sequer precise falar. Mas também vemos alguém que cansou desse mundo cruel em que se envolveu e que, sim, encontrou seu amor. Apesar de Weiner ter sido inclemente com Joan, creio que o fechamento de seu arco  – se é que isso é um fechamento mesmo, nunca se sabe – foi digno. Digno para a personagem, para a atriz e para a mensagem que a série quer passar.

E quem eu achei que teria seu arco encerrado em Time & Life, tem uma sobrevida maravilhosa em Lost Horizon. Peggy tem o perfeito arco de crescimento desde suas origens como secretária de Don e amante efêmera de Pete. Ela cresceu, lutou contra as adversidades, largou a SC&P, voltou para a agência por vias transversas e, agora, por questões internas, tem seus últimos momentos na agência fantasma sem móveis e  pessoas e que remete à sala nova escurecida de Don com o sopro uivando pela fresta da janela como o órgão de Roger tocando misteriosamente em algum lugar do andar.

Peggy e Roger são os últimos a largarem aquele símbolo de uma era. Ele, como o veterano que, com Bert, construiu aquilo do nada e ela como a representante da nova geração, do sopro de esperança. A interação entre os dois – algo raro na série como Peggy deixa claro em seu diálogo – é orgânico e muito bem construído, gerando outro momento que toca fundo no coração, com Roger tocando o órgão e Peggy circulando ao seu redor de patins.

E o melhor é que Roger, na figura de mentor, incendeia o espírito de Peggy, fazendo-a entrar na McCann Erickson no dia seguinte com a cabeça erguida, um novo visual com direito à cigarro no canto da boca e óculos escuros e um fantástico quadro centenário que pertencera à Bert com uma mulher fazendo sexo com um polvo. O perfeito símbolo para um novo capítulo na vida de Peggy.

Lost Horizon é um clássico instantâneo tamanha a quantidade de momentos memoráveis em sucessão. É um novo começo que sinaliza o fim desses inesquecíveis personagens que para sempre morarão nos corações de seus fieis espectadores.

Mad Men – 7X12: Lost Horizon (EUA – 2015)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Phil Abraham
Roteiro: Semi Chellas, Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kevin Rahm, John Slattery, Elizabeth Reaser, Devon Gummersall, January Jones, Christopher Stanley, Julia Ormond, Robert Morse
Duração: 48 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.