Crítica | Mad Men – 7X14: Person to Person

estrelas 4

Obs: Há spoilers do episódio e da série. Leia a crítica das demais temporadas, aqui.

Matthew Weiner é um galhofeiro. Ao encerrar sua magnus opus de maneira (semi) dúbia em relação a Don, ele entrega a seus espectadores o final que cada um escolher. Quer um Don que se encontrou, feliz, dizendo “ommmmm” na posição de lótus em um acampamento hippie na Califórnia? Está lá. Quer um final mais cínico com Don voltando à forma e usando seu “aprendizado” durante sua época de desprendimento psicológico e material para arrasar no mercado publicitário mais uma vez? Está lá também.

Escolha seu final. Já escolheu?

Pois eu fico com os dois. Ao longo dos sete episódios dessa marcante segunda metade da 7ª temporada de Mad Men, Weiner foi, aos poucos, tirando tudo, absolutamente tudo do icônico e desde já inesquecível Don Draper. Ele perdeu suas duas esposas, seus filhos, seu apartamento, sua agência, sua identidade e seu nome. Em sua viagem de auto-descoberta através dos EUA, Don começa a se encontrar, finalmente vivencia a confissão do “pecado” que o criou e, em The Milk and Honey Route, acaba sentado em um banco, no meio-oeste, com a roupa do corpo, depois de fazer de tudo para impedir que um jovem trilhe o mesmo caminho que ele.

O caminho para a redenção passa, então, a ser facilmente vislumbrado por todos nós e essa sensação continua vívida em Person to Person, que reconecta Don/Dick com seu passado secreto por intermédio de Stephanie (Caity Lotz, a Sara de Arrow, reprisando seu papel na série) que o leva para uma espécie de centro espiritual hippie (a referência ao famoso Instituto Esalen é muito mais do que mera coincidência). O homem está destruído. Seu aparente reencontro consigo mesmo nos capítulos anteriores vem por água abaixo quando, em Utah, logo antes, Sally finalmente conta que Betty está morrendo. A temática em si é algo inafastável da figura de Don Draper. A morte o persegue fortemente; afinal, sua vida se deve à morte de seu comandante durante a guerra da Coréia.

E, novamente, aquela ideia de que as coisas acabarão mal para o querido personagem passa a rondar Don como uma sombra e a contrastar com o idílico lugar em que está. É Weiner brincando com nossas expectativas, fazendo-nos temer por aquele canalha incorrigível que aprendemos a amar.

Quando Stephanie subitamente, como um sonho, vai embora (ela esteve lá?), Don – ou seria mais correto chamá-lo de Dick a partir desse momento? – vê-se sem saída, absolutamente sozinho e perdido em sua depressão e seu quase ataque de ansiedade. Ele realmente chega, ali, no fundo do poço, nem mesmo podendo mover-se, até que uma mão angelical (de Helen Slater, que viveu a Supergirl no cinema, em 1984, em outra “ponta DC Comics”) o ajuda a se reerguer novamente, levando-o para uma sessão de análise em grupo.

Esse é o momento da catarse, quando, na voz de um homem atormentado por ser invisível para tudo e todos, inclusive sua família, Don descobre que, na verdade, não está sozinho coisa nenhuma. Muito ao contrário. Existem muitos “Dons” por aí, gente que não consegue se conectar com o próximo, que se considera um zero à esquerda, que não consegue nem mesmo se respeitar. Don vê isso no sincero paciente sem nome e, em um belo abraço (e, nesse momento, Clube da Luta me veio imediatamente à mente), ele consegue verdadeiramente chorar. No momento seguinte, vemos Don, confortável na já mencionada posição de lótus, feliz consigo mesmo. The End.

Que nada! Weiner não faria algo assim tão simples. Em um corte brusco, logo depois de um “sorrisinho” de Don, vemos o famoso comercial conhecido como Hilltop, da Coca-Cola, lançado em 1971. Sua temática hippie casa exatamente com a experiência de Don e não está lá sem querer, obviamente. Afinal, quem tiver um mínimo de curiosidade, descobrirá que Hilltop foi produzido pela McCann-Erickson e sua presença no finalzinho da série não é merchandising do refrigerante e sim, muito possivelmente, uma indicação de que Don, em algum momento talvez não muito longínquo, tenha voltado para o que faz de melhor e produzido o premiado e celebradíssimo comercial.

Reparem bem que Weiner não quer necessariamente dizer que a jornada de purificação de Don foi desonesta ou de qualquer forma inválida. Não são finais inconciliáveis. Primeiro, o espectador, como disse na abertura da crítica, pode escolher entre acreditar em uma coisa e outra, considerando que o comercial está ali apenas como uma alegoria. É, definitivamente, uma escolha “forçada”, mas aceitável. Segundo, o que para mim Weiner quis passar é que, ao se descobrir, Dick descobriu que ele é, na verdade, Don. Sempre foi, sempre será. Em outras palavras, Dick se achou como Don e, agora, não tem mais dúvidas sobre quem ele deve ser. O publicitário que era seguro de si apenas na bela, jovial e encantadora fachada, agora é completamente seguro de si, lá do fundo da alma lavada pelo longo processo de auto-descoberta que culmina em sua catarse chorosa nos braços de outro homem (um dos momentos person to person do título).

Sei que não parei de falar única e exclusivamente de Don Draper até agora, mas é que o foco foi realmente nele. No entanto, ao longo do episódio, Weiner foi fechando finalmente as histórias de seus outros adoráveis personagens. Sally, Betty, Peggy, Stan, Roger, Joan, Pete e Trudy também têm seus minutos para um adeus digno, alguns mais longos, outros menos. Pete é, entre todos, o que menos aparece, por ter tido seu verdadeiro encerramento no episódio anterior. Ele tem breve interação com Peggy, convidando-a para seu almoço de despedida e, depois, o vemos feliz com sua família embarcando para Wichita, no Learjet.

Sally e Betty interagem em momentos diferentes com Don, sem, porém, contracenarem. Primeiro temos Sally, novamente demonstrando impressionante maturidade ao contar para o pai da doença de Betty ao telefone, na primeira ligação person to person. Esse é ponto em que Weiner nos diz ao pé do ouvido “fiquem tranquilos, pois, como Betty disse anteriormente, Sally é independente, forte e terá suas próprias aventuras”. A interação com Betty é mais chorosa, também ao telefone e é o momento que, como mencionei mais acima, “quebra” Don e o deixa completamente sozinho.

A terceira ligação person to person – a segunda cronologicamente no episódio – é a que dá o aguardado encerramento da relação entre o mestre e a aprendiz, entre Don e Peggy. Ela percebe que seu ex-chefe está perdido, fala que ele pode voltar a qualquer momento para a agência, que a conta da Coca-Cola o está esperando (alguma dúvida sobre a intenção de Weiner ao chapar Hilltop ao final do episódio?) e tudo mais. Mas de nada adianta seus esforços, Don está perdido. Ou é isso que o roteiro quer que pensemos.

Mas essa ligação Don-Peggy serve para alimentar o fechamento do arco narrativo de Peggy apesar de Don. Ela tem sua carreira, já se afirmou na agência e recebe uma proposta de sociedade de Joan, encantada com a possibilidade de abrir seu próprio negócio. Ela tem tudo, menos amor. Mas o amor está literalmente na sua cara e se parece com o Chewbacca (já disse e repito que não consigo ver Stan sem pensar no co-piloto de Han Solo). A ligação telefônica entre os dois é o “momento fofura” do episódio, sem dúvida alguma.

Roger é Roger. Se há um personagem que não mudou muito desde a primeira temporada, é ele. Mas nem todo mundo muda necessariamente. Ele é marcadamente mais maduro do que era, mas continua do mesmo jeito bon-vivant que sempre foi, agora ao lado de Marie. Mas Weiner dá um momento bonito para Roger também, quando ele o mostra visitando seu filho com Joan e deixando metade de sua herança para o garoto. Ele é, apesar de tudo, um pai responsável afinal de contas e, em um diálogo genial, cheio de double entendres, encerra-se a relação Joan-Roger de forma positiva e terna.

E, finalmente, mas não menos importante – muito, mas muito ao contrário – temos Joan. Ela, que era “apenas” uma dedicada secretária e que passou por tantos sacrifícios ao longo dessas sete temporadas, não deixa que sua vida seja ditada por outros, muito menos por um homem. Joan é o exemplo máximo da afirmação feminina na série, mais até do que Peggy. Ela saiu do nada, nunca foi levada a sério fora do círculo imediato da SC&P (e mesmo ali nem tanto quanto deveria), casou, teve filho fora do casamento, se separou, tornou-se sócia, ficou rica e achou um amor. Mesmo assim, Joan não para e sabe que pode mais e, mais do que isso, que quer mais. No processo, acaba sacrificando seu amor do momento por uma empresa caseira com claro potencial de crescimento – a mensagem que Weiner passa é, novamente, muito positiva – e encara o mundo machista de frente, sem medo e sem arrependimentos. Palmas para a ruiva!

Agora, caros leitores, vocês devem estar se perguntando algo assim: “como é que esse crítico derramou esse rio de elogios sobre o episódio e só deu quatro estrelas?” É que tudo tem um “porém” e, nesse caso, meu porém é muito simples: Weiner sempre primou pelas poucas palavras, por deixar subentendido, por revelar sem escancarar.

Seu estilo é o estilo do final de Don Draper. As sequências com Jon Hamm são, todas elas, características do showrunner e mostram sua força narrativa. Os demais finais ou são repetições do que já havia sido deixado claro (mas nem tanto) ou meros momentos para deixar o espectador se sentindo feliz. Sim, entendo que faz parte do processo, mas, para uma série do gabarito de Mad Men, os vários finais de Weiner soaram um tanto quanto forçados, ainda que bonitos e agradáveis.

Basta ver o caso de Pete, por exemplo. Qual é sua função nesse episódio? Já havia ficado mais do que claro sua escolha por Trudy e pela Learjet no lugar da McCann no episódio anterior que, aliás, como cheguei a mencionar, deu um sensacional encerramento para os personagens de Vincent Kartheiser e Alison Brie. Não era necessário o vermos novamente na sala de Peggy ou mesmo na montagem final. Foi um final do tipo “afago no espectador”. O mesmo comentário pode ser aplicado a Roger, talvez com exceção de seu breve diálogo com Joan sobre a herança para seu “bastardo”.

O mesmo vale para o final Don-Sally, que apenas reitera a mulher em que ela se tornou, algo que já havia ficado sobejamente claro antes. E, arrisco dizer – e sei que muitos fãs discordarão de mim aqui – que até mesmo o final Don-Peggy e, depois, o final Peggy-Stan foram desnecessários. Pensem comigo rapidamente e respondam a uma pergunta: qual foi a imagem recente mais icônica de Peggy? Provavelmente vocês responderão que é ela entrando triunfalmente com o quadro lovecraftiano debaixo do braço, óculos escuros e cigarro, na McCann, imagem essa que usei como ilustração para a crítica de Lost Horizon. Essa é o fortíssimo e inesquecível momento que deveria para sempre ficar na lembrança como o último momento de Peggy na série. Evidente que ela já havia se desvencilhado completamente da sombra de Don. Evidente que ela vivia bem com sua escolha da profissão sobre a maternidade. Evidente que ela um dia encontraria amor e, para aqueles que realmente prestaram atenção, era evidente que Stan era uma das possibilidades. O momento “ternura” de Weiner foi só isso mesmo, uma espécie de piscadela para aqueles que realmente precisavam de mais uma dose de Peggy.

Os únicos dois finais que tiveram verdadeira função narrativa foram os de Betty e Joan. O primeiro era necessário para levar Don ao fundo do poço rapidamente, depois de sua purificação na “sessão de análise” do episódio anterior. O segundo era para quase que corrigir uma injustiça com Joan, que saíra da McCann em condições terríveis (não financeiramente) em Lost Horizon. Com sua produtora Holloway-Harris (mãe e filha), ela mostra sua força e seu futuro combativo.

No entanto, os problemas que detectei, apesar de atrapalharem o andamento do episódio com a necessidade de se apresentar finais felizes para todos, não estragam nem de longe a experiência que é ver a jornada de Don chegando ao final. Essa segunda metade da 7ª temporada foi batizada pela produção de “O Fim de Uma Era” e, realmente, Mad Men muito provavelmente marca o fim de uma era na televisão moderna. Achar algo comparável será uma tarefa árdua, quase impossível.

Mas sempre teremos os loucos publicitários da Madison Avenue para voltar quando nos sentirmos órfãos de séries realmente sensacionais. E quem sabe você não escolhe outro final para Don quando revisitar a obra?

Mad Men – 7X14: Person to Person (EUA – 2015)
Showrunner: Matthew Weiner
Direção: Matthew Weiner
Roteiro: Matthew Weiner
Elenco: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Christina Hendricks, Aaron Staton, Rich Sommer, Kevin Rahm, John Slattery, Elizabeth Reaser, Devon Gummersall, January Jones, Christopher Stanley, Julia Ormond, Kiernan Shipka, Mark Moses, Alison Brie, Caity Lotz, Helen Slater
Duração: 57 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.